Venezuela desmascarou espião norte-americano

Governo bolivariano avança

A Venezuela acusa o governo dos EUA de espionagem e ordenou a expulsão do adido militar norte-americano em Caracas. Washington respondeu na mesma moeda e subiu o tom das ameaças.

«Hugo Chavez Frias confirmou envolvimento de Correa em acções secretas»

A responsável do gabinete da embaixada da Venezuela nos EUA, Jeny Figueredo, foi considerada persona non grata pelo governo de George W. Bush, que ordenou a sua imediata saída do país.
Sean McCormack, porta-voz do Departamento de Estado, confirmou que a medida surge como resposta à expulsão do adido naval norte-americano em Caracas, John Correa, acusado de espionagem pelo governo venezuelano.
Num discurso perante milhares de pessoas na capital da Venezuela, o presidente Hugo Chávez Frias confirmou a existência de provas que indicam o envolvimento de Correa em acções secretas tendo como alvo o processo revolucionário bolivariano, entre as quais a compra de informações militares.
Chávez acrescentou que não vai tolerar que outros funcionários diplomáticos dos EUA continuem «actividades semelhantes», esclarecendo que, caso tal aconteça, então toda a representação norte-americana vai ter que abandonar a Venezuela.

Plano de desestabilização

O vice-presidente venezuelano, José Vicente Rangel, qualificou as relações entre os dois países como «complicadas e difíceis». A escalada verbal deu-se, segundo o governante, porque os EUA insistem em «avançar peças» num jogo cujo objectivo é derrubar o governo bolivariano democraticamente eleito pelo povo.
Nas últimas semanas, Washington procurou impedir a venda de aviões espanhóis de transporte militar à Venezuela invocando que parte da tecnologia usada nos aparelhos é de origem norte-americana. O executivo de Madrid não cedeu às pressões e confirmou o negócio.
A crise actual tem precisamente como pano de fundo a compra das aeronaves. Informações divulgadas na quinta-feira da semana passada revelaram que John Correa subornou um número ainda não determinado de oficiais de baixa patente da armada venezuelana a troco da transferência de importantes documentos e informações militares da Venezuela.
Em face da descoberta do caso, as autoridades da Venezuela não tiveram outra hipótese senão ordenar a saída do militar. Na resposta, Donald Rumsfeld, secretário da Defesa dos EUA, comparou Chávez a Hitler e acusou-o de representar um governo ditatorial. As palavras foram secundadas pelo poderoso responsável dos serviços secretos, John Negroponte, que comparou a Venezuela à República Democrática da Coreia e ao Irão, países que têm estado na mira de Washington para uma nova campanha militar.

Agressão militar ganha contornos

As investigações a eventuais acções americanas de compra de informações e espionagem na Venezuela decorrem desde Setembro de 2005, mas o historial da ingerência yankee naquela nação latino-americana tem pelo menos tantos anos quantos os do triunfo do processo revolucionário bolivariano.
De acordo com a advogada e investigadora norte-americana, Eva Golinger, Washington tem vindo a infiltrar tropas especiais na Venezuela através da fronteira com a vizinha Colômbia. Na prática, os militares têm como missão criar um clima de instabilidade política e social que contribua para denegrir os avanços e progressos do processo bolivariano.
A autora de «El Código Chávez», livro que denuncia os financiamentos dos EUA à oposição venezuelana durante as últimas eleições no país, apurou informações sobre o movimento de militares dentro do país, facto que, afirma, indicia a existência de um plano de agressão e ingerência contra a Venezuela.

Anos de luta e construção bolivariana
Milhares defendem revolução


Paralelamente ao conflito diplomático que ameaça azedar definitivamente a relação entre a Venezuela e os EUA, milhares de pessoas responderam, sábado, à convocatória para festejarem o 14.º aniversário da insurreição de 1992.
O golpe de 4 de Fevereiro contra o então presidente Carlos Andrés Perez é considerado - tal como a sublevação popular de 1989, na qual morreram centenas de pessoas – como o ponto de viragem no domínio político da direita.
Gente de todas as idades, do interior rural ou dos grandes centros urbanos, juntou-se numa avenida central de Caracas para reafirmar o apoio à revolução bolivariana protagonizada pelo governo e defender a permanência de Hugo Chávez na presidência do país, cuja eleição está já agendada para Dezembro deste ano.
Na sua intervenção, o presidente reafirmou a soberania venezuelana condenando a ingerência dos norte-americanos e os planos de Washington para derrubar o executivo a que preside.
«Se querem entrar pelo caminho do corte de relações, assumam-no», afirmou Chávez. Perante tal cenário, o presidente venezuelano admitiu ainda que «não custa nada encerrar as nossas refinarias nos Estados Unidos da América, nem vender o petróleo a outros países». As estatísticas indicam que a Venezuela exporta para os EUA cerca de 1,5 milhões de barris de crude por dia.
Apesar de estar preparado para um efectivo afastamento comercial entre os dois países, corolário possível da cada vez maior distância política entre os dois governos, Chávez declarou que «não queremos chegar a esse extremo. Eles que decidam», mas também não deixou de sublinhar que «só queremos que nos deixem em paz, que esse governo imperialista aceite que a Venezuela se libertou e que não é nem será uma colónia dos EUA».
Já anteontem, durante uma cerimónia de entrega de recursos a projectos comunitários, Chávez chamou o povo a tomar partido na defesa da soberania nacional e da legitimidade democrática do sufrágio presidencial que se aproxima.
O presidente espera que os norte-americanos insistam, tal como fizeram noutros períodos eleitorais, no apoio aos sectores reaccionários da Venezuela, usando a comunicação social para dar a ideia de um país ingovernável. Cabe ao povo tomar a dianteira e defender a revolução, aludiu.


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