Os parasitas

Anabela Fino
E se de repente uma qualquer aldeia portuguesa fosse bombardeada por se suspeitar que ali se encontravam alegados terroristas? Absurdo? Nem tanto. No final da semana passada foi isso mesmo que sucedeu numa pequena localidade do Paquistão, um país aliado dos EUA, que nem por isso está a salvo dos ataques da CIA.
Ao que consta, fontes norte-americanas afirmaram, sob anonimato, ter recebido informações de que estrangeiros visitaram Damadola, a aldeia em causa, e mais não foi necessário para concluir que se tratava de membros da Al’Qaeda, incluindo o muito procurado Al-Zawahri. Com base em tão substancial «informação», aviões não tripulados da CIA bombardearam a aldeia, matando pelo menos 18 pessoas e destruindo várias casas. As vítimas, entre as quais várias mulheres e crianças, são todas civis.
Uns dias antes, numa outra povoação paquistanesa, pelo mesmo motivo, as forças norte-americanas mataram oito pessoas.
Em ambos os casos, o governo paquistanês manifestou publicamente o seu desagrado e pediu explicações ao amigo americano, facto que não impediu, por um lado, a polícia paquistanesa de dispersar pela força manifestações de protesto contra os ataques, nem, por outro lado, a pública reafirmação de que os dois países vão continuar a «cooperar» na «luta contra o terrorismo».
Se a isto se acrescentar o facto de os EUA considerarem não haver quaisquer motivos para reverem a sua actuação ou sequer pedir desculpa às populações atingidas, seja no Paquistão seja em qualquer país do mundo, obtém-se um quadro bastante claro do que na Casa Branca se entende ser o respeito pelos mais elementares direitos humanos.
Quanto à União Europeia, sempre tão ciosa dos seus propalados pergaminhos democráticos, remete-se a um comprometido silêncio, seja por considerar que as vítimas, apesar de civis, afinal não passam de umas criaturas mais ou menos obscuras, de estranhos costumes, pobres e descartáveis, seja porque o autor do crime é a potência que admiram e a quem prestam incondicional vassalagem.
O curioso é que, com tanto poder, tanta morte na consciência, tanto sangue nas mãos, estes cavaleiros do apocalipse tenham uma necessidade tão grande de se travestir de democratas para tentar legitimar os seus crimes. Parasitas do universo, têm consciência da sua própria sordidez e sabem que não sobreviverão quando lhes cair a máscara. E não há máscara que sempre dure no percurso da humanidade.


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