Sondagens e contagens

Domingos Mealha
Apesar das ressalvas contidas nas fichas técnicas e contra as muitas experiências que aconselham, se não cautela, pelo menos moderação, a verdade é que a sobrevalorização das sondagens de opinião renasce sucessivamente, a cada acto eleitoral que se vislumbra no horizonte político. Com as presidenciais, assistimos a um pico de referências a sondagens (por norma, encomendadas por órgãos de comunicação social pertencentes a grupos económicos com capacidade para suportar a despesa e com interesses cada vez mais evidentes em dadas opções políticas).
Foram as sondagens e a comunicação social, que as encomenda, quem manteve acesa a chama da candidatura de Cavaco Silva, durante os quase dez anos que o ex-primeiro-ministro esteve «retirado da vida política». Foram umas e outra quem o catapultou para a posição de, mais que favorito, vencedor antecipado.
É sabido que os comunistas são, em regra, desfavorecidos pelas sondagens. Até estão apontados alguns motivos plausíveis, do ponto de vista sociológico, para que assim seja. Mas apenas nos protestos contra tal «regra» é denunciado que esta é uma forma de pressionar os eleitores, para não «desperdiçarem» o voto em quem «vai perder». Esclarecedor tem sido Jerónimo de Sousa, quando lembra o contraste entre as previsões catastróficas, para a CDU, de sondagens em algumas autarquias (como na Moita), e o reforço de posições que os votos ditaram em Outubro.
Também há, sobre estas matérias, contagens. Não são tão faladas, mas têm um valor bem mais seguro que as sondagens: retratam o sucedido. Umas e outras até podem nascer do labor de uma mesma empresa de estudos de opinião. É o caso da Marktest, mais frequentemente referida por lhe terem sido encomendadas sondagens diárias sobre as presidenciais.
A empresa disponibiliza na Internet (em marktest.com) as contas da cobertura televisiva dos candidatos. Essas contas mostram que, na primeira semana deste mês de eleições, Cavaco Silva «protagonizou o maior número de notícias, com 55 matérias», e Jerónimo de Sousa «foi o que menos notícias protagonizou» nos quatro canais (RTP1, :2, SIC e TVI). Os números, por ordem decrescente, falam ainda mais claro: 55 notícias de Cavaco, 50de Louçã, 48 para Soares e 48 para Alegre, 20 (vinte!) para Jerónimo.
Semelhante é a contagem do tempo de duração dessas notícias (quase três horas para Cavaco, pouco mais de duas horas e vinte para Soares e quase o mesmo para Alegre, duas horas e nove minutos para Louçã, e trinta e três minutos para Jerónimo) e quanto à duração média (as notícias sobre Cavaco ultrapassaram os três minutos, sobre Soares e Alegre quase chegaram aos três minutos, sobre Louçã passaram os dois minutos e meio, sobre Jerónimo ocuparam, em média, um minuto e 38 segundos).
Essa semana teve uma novidade, pelo que ali se vê: foi a primeira em que Cavaco surgiu à frente, no número de notícias (não no tempo que lhe foi dedicado). Mas, ao primeiro olhar sobre a síntese das semanas decorridas desde as eleições autárquicas, sobressai imediatamente a posição do candidato comunista, repetidamente na parte inferior da tabela.
Quando apresenta os candidatos «ordenados por data de anúncio de candidatura», a empresa «estudou» (provavelmente com algum dos decisores da comunicação social) a forma de colocar no fim da lista Jerónimo de Sousa, que foi o primeiro a dar esse passo: a ordem é... a inversa, permitindo, de uma assentada, que Cavaco apareça antes que todos os outros.
Com um voto que se exige livre e consciente, os eleitores darão, domingo, a resposta definitiva. Temos fortes motivos para crer que, mais uma vez, as sondagens acabarão por ser desmentidas, apesar dos esforços em sentido contrário patentes nas contagens da discriminação mediática.


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