«Sondagens» e manipulação

Carlos Gonçalves
As primeiras sondagens eleitorais credíveis remontam aos anos trinta do século XX, sendo G.Gallup um pioneiro na matéria. Desde então muito se caminhou no domínio científico, técnico e tecnológico, e no estudo dos perigos inerentes ao respectivo enviesamento. Mas, mesmo sem muitas explicações de manual, importa lembrar que as sondagens só permitem uma previsão aproximada da realidade eleitoral - em todos os casos no intervalo de valores determinado pela margem de erro – e isto se for utilizado o método aleatório, amostras estratificadas, criteriosamente seleccionas e de dimensão adequada, e métodos de inquirição fiáveis e se os procedimentos de estimação complementares - relativos à abstenção e à distribuição dos não respondentes e indecisos - estiver conforme à realidade em análise.
Vem isto a propósito das presidenciais, e das assim chamadas «sondagens» que por aí abundam.
Objectivamente, das 18 dadas a público desde 28.10, pelo menos 9 são feitas pelo método de quotas, isto é sem que seja possível aferir do rigor das estimativas – casos do C.Manhã e DN/TSF – curiosamente aquelas em que o resultado bruto de Cavaco é dos mais elevados, próximo ou superior a 50%, e em que as estimativas finais rondam ou passam os 60%.
Ao todo 17 destes «estudos» foram efectuados por entrevista telefónica, geralmente considerado um método «enganoso».
Dez «sondagens» registam 0% (zero) de abstenções e votos brancos e nulos, o que lhes retira qualquer credibilidade, e outras 5 - entre as quais as desta semana do DN/TSF/Marktest – registam números sem sentido entre os 5 e os 7%, sobram 2 «estudos» da Católica/RDP/RTP/Público e 1 do D.Coimbra em que a abstenção anda nos 12%, longe da realidade, mas daí resulta, significativamente, um voto bruto em Cavaco entre os 38 e os 41,7%.
Finalmente todas estas 18 «sondagens» chegam à estimativa do resultado final de Cavaco, atribuindo-lhe a mesma proporção de não respondentes e indecisos, que obteve nos que expressaram intenção de voto. Ora se há coisa evidente é que isto não é verdadeiro, a massa dos hesitantes está no PS e os não respondentes estão à esquerda. Aliás a Católica reconhece, nas letrinhas que ninguém lê, que «estas estimativas têm valor meramente indicativo, dado que diferentes métodos de estimação poderão gerar resultados diferentes».
Mas todos sabemos como esta «sondagem» foi manipulada nos media - «Cavaco com 60% vence à primeira volta».
Está tudo claro. E como há dez anos, é possível derrotar Cavaco. Votando Jerónimo. Com determinação e confiança.


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