O sabor do professor
Antes dos portugueses irem a votos, a SIC resolveu «mimar» os eleitores com uma série de entrevistas aos candidatos presidenciais.
O estilo – entre a sobremesa, servida logo após o Jornal da Noite, e o aperitivo para as duas últimas semanas de campanha eleitoral – prometia dispor na mesa um olhar mais descontraído sobre a origem, os hábitos, alguns gostos e ideias dos cinco principais candidatos.
Como tantas vezes acontece quando debicamos pedacinhos da vida alheia, um dos «pratos fortes» soube a esturro, a comida de plástico de tal forma azeda que nem uma confecção certamente cuidada nos «temperos» conseguiu disfarçar.
Esticada a passadeira, perdão, a toalha na tv Balsemão, aparece o professor no escritório, coberto com um manto de homem de rigor, determinado, conhecedor e sabido das voltas do novo mundo e seus mais distintos obreiros, pessoa dada ao cumprimento da palavra, salteado com as boas graças de personalidades influentes na história ocidental contemporânea. Porque os olhos também comem, decora-se com Mitterrand, Helmut Kohl, o ex-Papa e os Clinton, na sua «residência privada», sublinhou o professor com ares de compincha da família, instituição que muito preza, esclareceu mais à frente.
Já com o estômago a dar voltas mas determinado a provar as vitualhas da nouvelle cuisine televisiva, decido-me por mais uma dentada.
Desta feita o prato serve-se mais casual e desprendido. O professor surge embrulhado com outra aparência, mostrando o regaço do lar, contando como a esposa abdicou da carreira para se dedicar à construção do sucesso do homem que diz nunca se enganar e raramente ser assolado pela dúvida, mas que no fundo gosta das coisas simples, da terra onde nasceu, das arribas algarvias onde passeia, do ping-pong e dos matraquilhos, actividades bem mais interessantes que o golf. Pelo meio uma pitada de cultura, conceito que o professor apimenta com colheradas de modernidade. Com o mar no horizonte, ofereceu-nos mais uma pérola e acrescentou que basta ir ao Google para se perceber do que se trata afinal isso de ter ou não cultura.
Tudo isto cheira a mofo de tão artificial, ainda para mais sabendo que procura apagar da memória a imagem de um ex-primeiro-ministro que depois de dez anos a cortar na ração dos portugueses surgiu sôfrego pelo bolo rei. Os odores deste cozinhado cheiram ao tempo em que nos obrigavam a comer e calar, enquanto uns quantos se enfartavam no fausto da exploração. Do professor de boas contas, recatado num canto da pátria onde sente o pulsar das medidas necessárias, com mão segura para levar os desígnios da nação a bom porto, está o povo farto até à náusea.
Mais, é importante que todos percebam que apesar de tão cuidados «ingredientes», nada mais é possível descortinar do seu recheio de ideias. O que pensa dos tachos e panelas que emergem cada vez que se troca de governo? O que se lhe apraz dizer do regabofe das privatizações? E os direitos de quem trabalha ou já trabalhou, são para continuar a emagrecer até que nada mais reste senão uma magra côdea de Abril?
Este professor deixou muitos amargos de boca, e, a julgar pelo que pensa mas não diz, prepara-se para repetir a dose. O sabor do professor é o da política de direita, pobre em nutrientes democráticos. Compete ao povo rejeitar esta receita, antes que ela tome conta do País deixando-o faminto de justiça social.
O estilo – entre a sobremesa, servida logo após o Jornal da Noite, e o aperitivo para as duas últimas semanas de campanha eleitoral – prometia dispor na mesa um olhar mais descontraído sobre a origem, os hábitos, alguns gostos e ideias dos cinco principais candidatos.
Como tantas vezes acontece quando debicamos pedacinhos da vida alheia, um dos «pratos fortes» soube a esturro, a comida de plástico de tal forma azeda que nem uma confecção certamente cuidada nos «temperos» conseguiu disfarçar.
Esticada a passadeira, perdão, a toalha na tv Balsemão, aparece o professor no escritório, coberto com um manto de homem de rigor, determinado, conhecedor e sabido das voltas do novo mundo e seus mais distintos obreiros, pessoa dada ao cumprimento da palavra, salteado com as boas graças de personalidades influentes na história ocidental contemporânea. Porque os olhos também comem, decora-se com Mitterrand, Helmut Kohl, o ex-Papa e os Clinton, na sua «residência privada», sublinhou o professor com ares de compincha da família, instituição que muito preza, esclareceu mais à frente.
Já com o estômago a dar voltas mas determinado a provar as vitualhas da nouvelle cuisine televisiva, decido-me por mais uma dentada.
Desta feita o prato serve-se mais casual e desprendido. O professor surge embrulhado com outra aparência, mostrando o regaço do lar, contando como a esposa abdicou da carreira para se dedicar à construção do sucesso do homem que diz nunca se enganar e raramente ser assolado pela dúvida, mas que no fundo gosta das coisas simples, da terra onde nasceu, das arribas algarvias onde passeia, do ping-pong e dos matraquilhos, actividades bem mais interessantes que o golf. Pelo meio uma pitada de cultura, conceito que o professor apimenta com colheradas de modernidade. Com o mar no horizonte, ofereceu-nos mais uma pérola e acrescentou que basta ir ao Google para se perceber do que se trata afinal isso de ter ou não cultura.
Tudo isto cheira a mofo de tão artificial, ainda para mais sabendo que procura apagar da memória a imagem de um ex-primeiro-ministro que depois de dez anos a cortar na ração dos portugueses surgiu sôfrego pelo bolo rei. Os odores deste cozinhado cheiram ao tempo em que nos obrigavam a comer e calar, enquanto uns quantos se enfartavam no fausto da exploração. Do professor de boas contas, recatado num canto da pátria onde sente o pulsar das medidas necessárias, com mão segura para levar os desígnios da nação a bom porto, está o povo farto até à náusea.
Mais, é importante que todos percebam que apesar de tão cuidados «ingredientes», nada mais é possível descortinar do seu recheio de ideias. O que pensa dos tachos e panelas que emergem cada vez que se troca de governo? O que se lhe apraz dizer do regabofe das privatizações? E os direitos de quem trabalha ou já trabalhou, são para continuar a emagrecer até que nada mais reste senão uma magra côdea de Abril?
Este professor deixou muitos amargos de boca, e, a julgar pelo que pensa mas não diz, prepara-se para repetir a dose. O sabor do professor é o da política de direita, pobre em nutrientes democráticos. Compete ao povo rejeitar esta receita, antes que ela tome conta do País deixando-o faminto de justiça social.