O Mundo um ano depois do XVII Congresso

Manuela Bernardino (Membro do Secretariado do CC do PCP)
Passado praticamente um ano sobre a realização do XVII Congresso do Partido, uma rápida e parcelar visão sobre a evolução da situação internacional, vem confirmar as principais análises e teses então discutidas e aprovadas.

Há condições para avançar para uma ampla frente anti-imperialista

Aliás basta olhar para acontecimentos dos últimos dias/semanas para nos darmos conta não só da incapacidade do capitalismo em resolver gritantes problemas com que a Humanidade se defronta – destacamos o direito ao trabalho, a uma vida digna e mesmo à própria sobrevivência, de que quer a «deportação» dos imigrantes da África subsahariana pelas autoridades espanholas e marroquinas quer a recente explosão social protagonizada por filhos de imigrantes árabes e africanos em França são exemplos – como se agudiza a profunda crise em que se debate.
Milhões de seres humanos de todos os continentes, homens, mulheres e jovens são hoje considerados «excedentários» no actual quadro de relações de produção capitalistas. Enquanto o processo de «globalização» facilita a máxima concentração de capital – que se alcança à custa das deslocalizações, dos baixos salários, da liquidação de postos de trabalho, da flexibilidade de funções e do horário, - liquida, por outro lado, o sistema público de segurança social retirando protecção e segurança a quem trabalha. Tal caminho, que contraria importantes conquistas do movimento operário do século XX, evidencia o carácter desumano e parasitário do capitalismo e a sua natureza exploradora. A que se associa uma extraordinária agressividade, nomeadamente, por parte do imperialismo norte-americano que pretende impor o seu domínio a todo o mundo.
Apesar do estrondoso fracasso político e militar que a resistência iraquiana tem imposto à ocupação norte-americana, os EUA mantêm-se no Iraque, reforçaram posições no Afeganistão, ameaçam a Síria, o Irão, a Coreia do Norte e outros países, prosseguindo uma política de ingerência e de guerra assente no militarismo, na ameaça e numa intensa batalha ideológica. A «luta contra o terrorismo», que recentemente passou por Lisboa através duma Conferência promovida pela Gulbenkian, tem servido de pretexto para a limitação de direitos democráticos, assim como o revisionismo histórico acompanhou as comemorações do 60.º aniversário da Vitória, procurando denegrir o papel da URSS e dos comunistas. Enquanto se banaliza a guerra e a violência, prosseguem descaradas campanhas anti-comunistas em que a U.E. também tem papel activo e no Conselho da Europa a sua Assembleia Parlamentar agendou para Janeiro a tentativa de criminalização do comunismo.

Socialismo é a opção

Face à crise económica e à ofensiva política, social, militar e ideológica do capital, a resistência dos trabalhadores e dos povos desenvolveu-se, como confirmam grandes lutas sociais e greves gerais em diversos países, enquanto se aprofundaram importantes afirmações de resistência e soberania, como é o caso de Cuba socialista e da Venezuela bolivariana - países que têm dado um contributo inestimável para contrariar o projecto neocolonial do ALCA que Bush viu mais uma vez adiado na recente Cimeira das Américas. Na UE, a rejeição da dita «Constituição» pelos «Não» francês e holandês teve um profundo significado e atirou para diante um processo federalista que o grande capital queria a todo o custo concretizar a breve prazo. A esta crise veio juntar-se o impasse político-governamental na Alemanha que terá também repercussões no «projecto europeu». Tudo isto vem comprovar que o grande capital não tem as mãos totalmente livres para impor os seus desígnios.
Neste tempo de acumulação de forças por parte dos trabalhadores e dos povos tem enorme importância que países em vias de desenvolvimento assumam posições concertadas e independentes face às orientações de organismos internacionais, como é o caso da Índia, do Brasil e daqueles que se associaram no Grupo dos 22, enquanto a China se afirma pelo seu crescimento económico e a sua cooperação com países de todos os continentes. São aspectos que, no quadro das actuais rivalidades e contradições inter-imperialistas, contribuem para a estabilidade e segurança internacionais, e que importa realçar, tanto mais que a instrumentalização da ONU, como mostram as tentativas da sua «reforma», continua na mira do imperialismo.
Persistem grandes perigos e dificuldades para a paz, a democracia e a justiça social. Mas também há condições para avançar na construção duma ampla frente anti-imperialista. Tarefa que se desenvolverá articulando a luta no plano nacional com o reforço da solidariedade internacionalista, cujos conteúdos e formas deverão ser adequados à situação actual e livres de exigências institucionais, e em que os comunistas, combatendo tendências oportunistas e liquidacionistas, contribuirão para a acção comum ou convergente com outras forças de esquerda para fazer face à violenta ofensiva do imperialismo, projectando o socialismo como única opção de progresso e justiça para a Humanidade.


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