Comentário

Uma vez mais...

Pedro Guerreiro
Decorria a campanha para as eleições autárquicas quando a maioria dos deputados do Parlamento Europeu (PE) deu o seu acordo à liberalização do transporte ferroviário de passageiros.
Na sua decisão, a maioria dos deputados do PE consegue ainda ir mais além do que a Comissão Europeia na fúria liberalizadora e privatizadora, pois enquanto esta propunha o prazo de 2010 para liberalizar o transporte ferroviário internacional de passageiros, o PE propõe a liberalização deste, já em 2008, assim como a liberalização do transporte ferroviário nacional de passageiros, já em 2012. Deste modo, a maioria do PE faz suas as exigências da UNICE (confederação do grande patronato na Europa).

A marosca

A Comissão Europeia e a maioria do Parlamento Europeu tendo consciência da resistência que os trabalhadores dos caminhos-de-ferro e as populações oporão à aplicação das suas intenções, procuram, de novo, esconder a privatização do transporte ferroviário, atrelando-a a iniciativas que, no fundamental, apenas procuram limitar as suas consequências negativas. Chega-se ao caricato de nos proporem, depois de terem ficado com «o que é nosso», o pagamento de indemnizações por falhas na prestação de serviços que venha a ser realizada no futuro. No fundo, tentam escamotear o essencial - a privatização de mais um património público -, procurando valorizar o acessório.
E, sem originalidade, houve mesmo quem, iludindo as suas profundas responsabilidades, chegasse a invocar a actual (e propositada) deterioração do serviço público de transporte ferroviário, prestado às populações e às actividades económicas, para justificar a sua destruição.

A firmeza

O PCP, através do seu grupo parlamentar no PE, defende a rejeição (tendo já apresentando uma proposta neste sentido) de mais uma tentativa destruição do transporte público de passageiros, que visa entregar de mão beijada ao grande capital a exploração deste sector. Grande capital que imporá a sua lei do lucro ao mesmo tempo que (pasme-se) passará a gerir infra-estruturas construídas à custa do erário público, recebendo avultadas subvenções do Estado. Sublinhe-se que são conhecidas as consequências do fim do serviço público de transporte ferroviário, seja quanto ao aumento e à degradação dos serviços prestados às populações, seja quanto ao ataque aos direitos e condições de trabalho dos seus profissionais.

Opções de classe

Os deputados do PS, PSD e CDS-PP no PE votaram contra a proposta de rejeição apresentada pelo PCP. E no voto final, PSD e CDS-PP e a maioria dos deputados do PS votaram favoravelmente a liberalização do transporte ferroviário de passageiros, seja internacional ou nacional. Obviamente o PCP votou contra.
Note-se que a generalidade da comunicação social dominante nem uma linha dispensou ao assunto. E não porque não tenha recebido informação. Talvez e apenas porque, no momento em que se realizava a campanha eleitoral para as autarquias locais, era oportuno esconder a evidência que PS, PSD e CDS-PP defendem e realizam a política de direita.

Sob a batuta do capital

Aliás, o entendimento e acordos entre a direita e a social-democracia (vulgo «socialistas») para praticar a política de direita é um dos traços que caracteriza desde sempre a União Europeia. Apenas como exemplo: na Comissão Europeia presidida por Durão Barroso, são os comissários da dita «família socialista» que dirigem a actual ofensiva capitalista nos assuntos económicos e monetários (PSOE - Espanha), no comércio internacional (Trabalhista britânico) ou na denominada «Agenda de Lisboa» (SPD - Alemanha).
Os recentes esforços e acordo entre a CDU-CSU (direita) e o SPD (social-democracia) para a formação de um governo na Alemanha são apenas mais um episódio desta já longa história. Após a verificação da impossibilidade de continuar a chamada «alternância» entre a direita e a social-democracia, a solução encontrada foi juntarem-se as duas para continuar a realizar a política de direita. Ou seja, em vez de mudar a banda, juntam-se as bandas. Para o grande capital alemão, o importante é que continue a mesma música, nem que para tal se tenha que afastar - momentaneamente... - um dos maestros.

O projecto e a esperança

Como a realidade comprova, é o PCP que protagoniza uma real alternativa política, uma política que dê uma real e urgente resposta aos graves problemas com que se confrontam os trabalhadores e o País. Uma política que rompa com a subordinação do PS, PSD e CDS-PP às imposições e ingerências da União Europeia. A política de esquerda, consubstanciada no projecto, nos valores, realizações e esperança aberta pela Revolução de Abril.


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