Sobre o «Jardinismo» e outras «dicas»

Carlos Gonçalves
Sem pretensões a coleccionar os dislates de A. João Jardim (AJJ) – tarefa descomunal – vale lembrar que, nos tempos mais recentes, por duas vezes o «figurão» foi devidamente «tratado» nesta coluna. Primeiro quando afirmou (sem contestação): «sou uma velha meretriz, já perdi a vergonha» e esconjurou «manobras comunistas» duma ONG que alertara para o perigo da «pedofilia internacional recrutar crianças na Madeira». Depois quando chamou «golpe de Estado» à possível convocação de eleições antecipadas pelo PR (verificada mais tarde) e ameaçou «fazer cair isto tudo, desacreditar o regime e nem pôr os pés em eleições».
Desta feita, AJJ, no espaço mediático da sua inqualificável «tournée» de inaugurações do governo/comícios do PSD, ameaçou os madeirenses que elejam autarquias «desafectas» de passarem a viver de «maneira marginalmente diferente», sem «dinheiro do governo regional», e reagiu ao inquérito da Comissão Nacional de Eleições, a que já chamou «nova PIDE» - «no dinheiro da região mando eu». E na mesma semana, enquanto surgiam novas provas de manipulação do «Jornal da Madeira» e ardia o carro(!) dum candidato do PS, AJJ trocava bravatas com J. Coelho e bradava velhas ameaças contra jornalistas da RTP - «há-de ser tudo saneado».
São apenas mais dois casos «absurdos» em que AJJ se coloca fora do regime democrático. Mas essa é apenas a «normal» arrogância e autoritarismo do PSD e do Governo regionais - uma direita populista e clientelar, de raiz na «outra senhora» e perfil «Flamista» -, expressão da sua tutela asfixiante na vida e cidadania na Madeira - na economia, emprego, habitação, cultura - e reafirmação do seu modelo de sociedade, deserto de justiça social, regressão e eliminação de direitos colectivos e de liberdades e garantias essenciais.
Esta semana, também, foi publicada uma entrevista de V. Ruymbeke, juiz francês dos casos de grande corrupção Elf-Aquitaine e Halliburton (envolvendo Dick Cheney - ex-vice Presidente dos USA), em que aponta os off shores como «placa giratória» dos lucros da economia de casino, da fuga ao fisco e de todas as actividades criminógenas e em que «a Madeira aparece cada vez mais como um local de branqueamento de capitais».
É a «outra face», discretamente óbvia, do «regime Jardinista», que não se combate com os «mimos» de J. Coelho, por mais justos que sejam, e que exige outra política económica e fiscal e outro empenhamento democrático do Governo da República.
Que ninguém o esqueça no dia 9.


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