Um décimo

Henrique Custódio
No passado domingo, o Presidente da República inaugurou o novo teatro municipal de Almada, encomendado, construído e quase integralmente pago pela município local.
Compreende-se a presença do Chefe de Estado no evento: trata-se de uma obra com dimensões, valências e funções com evidente envergadura nacional e internacional: a boca de cena do auditório principal tem qualquer coisa como 30 metros de altura - apenas superada, nacionalmente, pela boca de cena do palco central do Centro Cultural de Belém -, enquanto o edifício, com cerca de mil metros quadrados de área útil, alberga ainda uma sala experimental, uma sala de ensaios, camarins, uma galeria de exposições, café-concertos, livraria, ludoteca, sala de vídeo, cafetaria e alojamentos.
Trata-se de um imóvel de grande valor arquitectónico, projectado pelos arquitectos Graça Dias e Egas Vieira, construído em quatro anos e tendo custado 10,6 milhões de euros, a maior parte dos quais – mais exactamente 8,1 milhões de euros – pagos pela autarquia, com o Estado a comparticipar com os restantes 2,5 milhões.
A completar esta breve apresentação do novo equipamento almadense, acrescente-se que é propriedade da Câmara Municipal – naturalmente, pois projectou-o, construiu-o e pagou-o quase na totalidade - e vai ser gerido pela Companhia de Teatro de Almada, que ali terá a sua residência permanente e nele promoverá as mais diversas programações culturais, num apoio institucional à actividade dramática e artística neste concelho que não tem paralelo no mundo autárquico português.
Todavia, não é em todo este rol de excelência e excepcionalidade que reside a notória singularidade deste equipamento inaugurado no passado domingo, em Almada.
A grande originalidade do novo Teatro Municipal de Almada resumiu-a, com a naturalidade dos relatos objectivos, um repórter televisivo que noticiou a inauguração.
Disse ele, num noticiário sobre o evento: «O novo Teatro Municipal de Almada tem as mesmas dimensões da Casa da Música, no Porto, com uma única e grande diferença: custou um décimo do que se gastou para construir o equipamento do Porto».
Repita-se o assombro.
No mesmo País, dois equipamentos em tudo semelhantes – seja em dimensão, capacidades, funções ou tempo de construção – apresentam uma única e substantiva diferença: um custou dez vezes mais que o outro.
Ou, se quiserem, um custou um décimo do outro.
Entretanto, ambos são obras construídas com dinheiros públicos.
A que derrapou dez vezes mais – sem que alguém seja responsabilizado ou, sequer, questionado - é da responsabilidade do poder central, tutelada directamente por sucessivos Governos do PS e da coligação de direita PSD/PP.
A que foi construída com tal rigor, que custou dez vezes menos – sem que alguém disso se gabe, embora tivesse toda a legitimidade para o fazer – é da responsabilidade do poder local, mais concretamente da Câmara Municipal de Almada.
Perante isto, calem-se de uma vez com a velha falácia de que as «obras públicas» derrapam sempre nos custos, qual fatalidade que dá muito jeito aos corruptos de todos os calibres.
O novo Teatro Municipal de Almada é, todo ele, também uma obra pública, só que de uma autarquia.
A grande e fundamental diferença é que se trata de uma câmara governada... por comunistas.


Mais artigos de: Opinião

Eles

Os criminosos atentados de Londres deram azo a anúncios de novas medidas policiais e restrições a liberdades, e a artigos em linguagem de «cruzada final». Exemplo disso é a peça de Pacheco Pereira no Público de 14.7.05. Começando pelo terrorismo psicológico («Algures, perto de si, acabará por explodir uma bomba, flutuar...

Defendamos a água pública

«Não há uma gota de água que passe a ser privada por via desta lei», sentenciou na Assembleia da República o ministro do Ambiente, Nunes Correia, respondendo a Grupo Parlamentar do PCP no debate dos projectos sobre a Lei da Água, no passado dia 1 de Julho.

Os direitos de Constâncio

Numa azáfama incontida, Governo e PS esforçam-se em tentar convencer o país da bondade das sua medidas. Percebe-se a impossibilidade da coisa perante a incoerência das atitudes, a inconsistência dos argumentos, a hipocrisia das explicações.Uma incoerência que tem no ministro das Finanças expressão maior e cópia...

O PS e a «deriva securitária»

Os actos de terrorismo brutal e criminoso que se abateram sobre Londres, constituíram mais um passo na espiral de violência hedionda em que o terrorismo de Estado e o terrorismo dito «fundamentalista islâmico» mergulharam o mundo de hoje - como sempre em conflito com os interesses dos trabalhadores e dos povos, a...

No país do sol

«A situação é grave e estrutural, mas os portugueses não estão mobilizados nem preocupados com a competitividade, querem é passar mais tempo na praia». A sentença é de Fernando Ulrich, presidente do BPI, que segundo o Expresso da semana passada defendeu, em recente conferência sobre «Fiscalidade e Competitividade», um...