Eles

Jorge Cadima

Os apelos cada vez menos subtis ao ódio racial e religioso

Os criminosos atentados de Londres deram azo a anúncios de novas medidas policiais e restrições a liberdades, e a artigos em linguagem de «cruzada final». Exemplo disso é a peça de Pacheco Pereira no Público de 14.7.05. Começando pelo terrorismo psicológico («Algures, perto de si, acabará por explodir uma bomba, flutuar uma doença, fluir um veneno») termina com um apelo à guerra sem quartel: «Ou nós, ou eles».
Mas quem são «nós» e quem são «eles»? P. Pereira vai semeando a perigosa conversa do «choque de civilizações», recheando o seu artigo de referências à «cultura ocidental», «incompatibilidade total de visões do mundo culturais e civilizacionais» e outras grandiloquências. Deixemos de parte o longo historial de crimes da «cultura ocidental» (o nazi-fascismo, a Inquisição, as chacinas atómicas, as guerras mundiais, a escravatura e colonização, o genocídio dos índios dos EUA,...). Olhemos apenas para o que mais directamente está aqui em causa.

Logo após o 11 de Setembro (15.9.01) a revista britânica The Economist lembrava que «a América pode ser tentada a esquecer um facto inconveniente. As suas próprias políticas no Afeganistão há mais de uma década ajudaram a criar quer Osama bin Laden, quer o regime fundamentalista talibã que o alberga». Eram os tempos em que o presidente Reagan comparava os fundamentalistas afegãos aos Pais Fundadores da nação americana, e os encharcava com dinheiro e armas. Eram os tempos em que o New York Times escrevia, e o Diário de Notícias reproduzia sem qualquer reparo crítico, os relatos das façanhas dos terroristas fundamentalistas no Afeganistão: «”Queriam mandar toda a gente às aulas deles, mesmo os velhos e as mulheres com 10 filhos. Portanto matámos o professor, que era comunista e fugimos” dizia-nos um guerrilheiro, explicando o que acontecera na sua aldeia» (DN, 27.2.80). O jornalista britânico Robert Fisk lembra que «em 1980 [...] um grupo de combatentes religiosos mujahedines tinha atacado uma escola porque o regime comunista estava a obrigar a que as raparigas fossem educadas nas mesmas salas que os rapazes. E portanto bombardearam a escola, mataram a mulher do director e cortaram a cabeça do seu marido. Era tudo verdade, mas quando o The Times publicou a história, o Foreign Office protestou [junto do jornal] que a minha peça apoiava os russos. Claro. Porque os combatentes afegãos eram os bons. Porque Osama bin Laden era o tipo bom» (The Independent, 23.9.01). Zbigniew Brzezinski, homem chave da política externa dos EUA, afirmou em entrevista ao Nouvel Observateur (15.1.98) que o auxílio militar dos EUA aos terroristas afegãos começou antes da entrada das tropas soviéticas, com o objectivo de as atrair para o país. O entrevistador quis saber se Brzezinski «não se arrependia de ter favorecido o integrismo islâmico, de ter dado armas, conselhos a futuros terroristas». Brzezinski foi claro: «o que é mais importante para a história do mundo? Os talibãs ou a queda do império soviético? Alguns islamistas exaltados ou a libertação da Europa Central e o fim da guerra fria?». Eis a «incompatibilidade total de visões do mundo culturais e civilizacionais» de que fala P. Pereira... Ele diz que é uma questão de «ou nós, ou eles». Mas afinal são todos «eles».

Os apelos à guerra e ao «sacrifício das liberdades» por parte de quem gerou Bin Laden, a guerra do Iraque e as suas mentiras, as torturas de Abu Graibe e Guantanamo, fazem parte da tentativa, por parte de classes dirigentes criminosas e corruptas, de resolver pela força a crise do capitalismo actual, de esmagar qualquer resistência aos seus planos de dominação mundial e de destruição das conquistas sociais de muitas décadas. Os apelos cada vez menos subtis ao ódio racial e religioso fazem lembrar os que acompanharam uma outra fase monstruosa dum capitalismo em profunda crise, a que gerou o nazi-fascismo. Qualquer que seja a sua origem, o terrorismo londrino faz parte desta engrenagem. E, sejam quem forem os seus mandantes, esses, estão a servir os interesses daqueles que continuam a centrar no medo, na guerra e no militarismo a essência das relações internacionais.


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