Tangas

Jorge Cordeiro
Jura Sócrates não se dispor a reproduzir, como antes Durão fizera, o discurso da tanga perante o valor do défice. Para o efeito tanto faz. Com ou sem a assunção de discurso idêntico, o caminho e as opções assumidas por ambos convergem nas suas consequências: pôr os portugueses de tanga. O resto, como popularmente se usa em português menos erudito, são tangas. Uma e outra, — a que é sinónimo de peça de roupa rudimentar ou a que significa história mal contada —, expressões da imensa e versátil riqueza da língua portuguesa, convergem no caso presente.
Porque não passa de «uma tanga» esta encenada surpresa sobre um défice que, mais décima menos décima, não podia ser de todo desconhecido. A menos que se queira fazer crer que o Governador do Banco de Portugal anda a dormir, que não fala com os seus colegas de partido ou que um e outros ignoram os resultados previsíveis das suas políticas e receitas neoliberais.
E porque «ficar de tanga» é o destino reservado aos portugueses face às mesmas e miméticas soluções que, uma após outra nada resolvem, e tudo agravam. Há três anos atrás, em nome do défice, Durão aumentou o IVA de 17 para 19%, congelou os salários da administração pública, impôs novas condições para o acesso á reforma na administração pública. Agora, em nome do défice, Sócrates aumenta o IVA de 19 para 21%, congela a progressão de carreiras e de suplementos remuneratórios dos trabalhadores da administração pública, aumenta a idade da reforma dos 60 para os 65 anos.
Uma vez mais são os trabalhadores, os reformados, os pequenos e médios empresários os destinatários principais da factura apresentada por aqueles que são os principais responsáveis pela situação do país. Bem pode o governo adornar o pacote de medidas agora anunciadas com a promessa de tocar num ou noutro privilégio dos mais poderosos. A verdade é que tudo o que é dirigido contra os mesmos de sempre aí está para vigorar já e em força. Quanto ao resto fica a aguardar estudo para eventual concretização.
Diz-nos Sócrates que excepção feita ao aumento dos impostos, tornado inevitável por razão deste contratempo do défice, as suas promessas eleitorais são para cumprir. Procura-se e não se encontra a página do programa eleitoral do PS em que está inscrita esta nova e violenta ofensiva contra os direitos e salários dos trabalhadores da administração pública. Diz-nos Sócrates que esta ofensiva contra os trabalhadores é um acto de justiça destinado a pôr termo a supostos «privilégios inaceitáveis» de que, segundo o seu governo, os trabalhadores beneficiariam. E nós que, na brandura da inocência, julgávamos ver privilégios nos que no mar das dificuldades e sacrifícios enchem o saco de lucros ou nos que, como o actual ministro das finanças socialista, adicionou, em 2004, ao seu salário uma modesta reforma do Banco de Portugal de 114 mil euros!


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