Amêndoas amargas

Leandro Martins
Em Portugal é assim. Espremem-se as notícias até fartar e, de vez em quando, um deserto de novidades leva os media a esgaravatar nos sacos velhos e a ressuscitar antigos e amarelecidos sucessos que rapidamente retombam no esquecimento se um evento maior os afoga. Depois há as «quadras». Na quadra do Natal há as «solidariedades» várias, mais o presépio e o Papa. Na Páscoa íamos ficando pelo Papa, de morte anunciada todos os dias, num afã macabro. Só o também anunciado passamento do príncipe Rainier salvou João Paulo II de ser enterrado vivo por uma mão cheia de jornais e têvês. Nas quadras festivas, a morte parece reinar sobre todas as coisas, com os acidentes de estrada a que nenhum Código consegue pôr cobro. E, apesar de o balanço de acidentes, mortos e feridos ter sido melhor do que antes, a tónica foi colocada sobre o sofrimento.
O sofrimento é, aliás, o tema forte das notícias ribombantes. As novidades boas apenas aparecem, na generalidade dos casos, quando servem de propagandas com intuitos mais escuros. É assim que, mais uma vez, um sismo veio abanar os media que, enquanto as imagens não chegavam, fartaram-se de mostrar aquelas do maremoto de há meses, enquanto entrevistavam um «pai aflito». Até o rapto da mãe de um futebolista foi mais badalada que a sua libertação.
Amêndoas amargas, portanto, entre a semana santa e a Páscoa. Depois de uma quaresma cheia de jejuns e de cinzas, não há aleluias que valham a este vale de lágrimas. Certamente para que o consumidor de notícias se vá acostumando - as coisas vão mal pelo mundo fora, é melhor que a gente se mentalize...
Mas nem só o passado é preocupante. Repetem-nos todos os dias que o PS, no Governo, não tem oposição à sua direita. E culpam disso a desorientação reinante no PSD e no PP, após a estrondosa derrota. Então, para que o futuro lhe volte a sorrir, já há receitas e conselhos. Marcelo Rebelo de Sousa, por exemplo, se calhar a pensar em si mesmo, afirma que as eleições presidenciais vão ser vitais para o futuro do PSD. É curioso que, antes de arrumar a casa destelhada por um tsunami tão devastador, o PSD olhe tão para diante. Talvez a desorientação o tenha deixado mesmo tonto. O que explicaria a escolha de um «independente» para encabeçar a lista autárquica de Santarém. Arrisca-se, com um tal Moita, personagem escorregadia que vem fazendo um longo caminho sempre no sentido da direita, que um dia acordem com um presidente do... CDS. Seria uma boa ou uma má notícia?


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