À espera que chova

Anabela Fino
O Diário Económico (DE) informava no início da semana que a Companhia das Lezírias, a maior propriedade agrícola em Portugal, saiu da lista das privatizações e voltou para a tutela do Ministério da Agricultura.
Boas notícias, dirão os que entendem que aqueles 20 mil hectares devem permanecer no património público, e agora com maioria de razões dado ter conseguido resultados correntes de exploração positivos. Segundo o DE, a empresa registou em 2004 um resultado líquido de 1570 mil euros, 60% dos quais - 942 mil euros - revertem para o Estado, sendo os restantes 628 mil aplicados em reservas de investimento da própria Companhia.
O jornal não explica os motivos que levaram o executivo de Sócrates a retirar a Companhia das Lezírias da lista de existências «a privatizar» de Durão Barroso, mas adianta que, em termos gerais, a conjuntura vai mal para as privatizações.
O interregno que se regista nesta matéria deve-se a condições pouco favoráveis do mercado o que significa que, a menos que o Governo esteja disposto a vender o património público ao desbarato - como de resto já sucedeu no passado, em negociatas para amigos -, não compensa vender.
Não era esse o entendimento de Bagão Félix, o ministro das Seguradoras, que esperava conseguir receitas na ordem dos mil milhões de euros em 2005, ano previsto para o regresso às privatizações, de cujo pacote constavam - e ainda constam - a EDP, a Galp, a TAP e as Águas de Portugal, só para citar algumas.
Seja como for, o facto é que o actual ministro das Finanças, Luís Campos e Cunha, reduziu para metade (1,2%) a previsão de crescimento deste ano, prevendo um cenário menos optimista do que o inscrito por Bagão no Orçamento do Estado (2,4%). Ou seja, a perspectiva é que por cá a coisa vai continuar se não preta pelo menos cinzenta.
Após uma década em que os sucessivos governos PS e PSD/PP venderam património de sectores chave da economia para encaixar 14 mil milhões de euros, o equivalente a 10% do PIB como informa o DE, sem resultados que se vissem em termos de desenvolvimento do País, eis que Sócrates entende que é preciso ter calma.
Dirão os optimistas tratar-se de uma boa notícia, de um sinal de que se vai mudar de rumo e de estratégia. Posso estar enganada, mas receio bem que não. Cá por mim, está só a ver se chove. É que a seca, à qual não escapou a Companhia das Lezírias já afectada em pelo menos 350 mil euros, também se faz sentir no mercado de capitais.


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