Nem o Bush diria melhor

José Casanova
No «canto direito» do Ex­presso, está, indubitavelmente, uma voz de direita. No «canto esquerdo», está um blo­quista. Um e outro, repetem, semanalmente, ideias com barbas, travestidas de originalidade.
No último Ex­presso, Daniel Oliveira, o «canto esquerdo», escreveu sobre Cuba. Isto é: trans­creveu sobre Cuba: repetiu o que a comunicação social dominante, repetindo o paleio dos propagandistas dos EUA, tem escrito sobre os «jornalistas, intelectuais e escritores» que «há dois anos, o regime castrista» prendeu.
Monocórdico, monótono, repetitivo, o «canto esquerdo» explicou «a razão» pela qual, «em todo o mundo, uma parte significativa da esquerda apoia Fidel Castro». «A razão» são duas, segundo ele: «uma certa nostalgia pela estética revolucionária» (seja lá isso o que for, esta é nova, reconheça-se); e a admiração por alguém que faz frente «à omnipotência do vizinho americano.»
Ora – e era aí que ele queria chegar - ensina o «canto esquerdo», didáctico, sábio, com um talento a caminho de todo ele ser testa: «Há lições que, definitivamente, levam tempo a aprender: os inimigos dos nossos inimigos não são, necessariamente, os mais recomendáveis dos amigos» - com isto querendo dizer, como mais adiante se verá, que os inimigos dos inimigos dele, «canto esquerdo», esses sim, é que são amigos «recomendáveis».
Mas antes de lá chegar, não quis o «canto esquerdo» deixar de repetir a inovadoríssima tese segundo a qual o bloqueio a Cuba só tem vantagens para o regime cubano. Claro: por isso mesmo é que o bloqueio – mais os tradicionais actos terroristas que provocaram a morte de milhares de cubanos – dura há mais de quarenta anos.
No final, o «canto esquerdo» abre à direita com um cântico de louvor aos opositores de Fidel Castro - «gente de direita», escreve ele, assim no jeito de quem diz: os inimigos dos meus inimigos cubanos meus amigos são… e dos EUA. Porquê?: porque esta «gente de direita», apesar de querer impor em Cuba uma ditadura ao gosto dos EUA, é «quem, no seu país, corre todos os riscos pela decência e pela liberdade»: clama, épico, o «canto esquerdo».
E, sempre de olho na direita, numa cavalgada à rédea solta, desfraldando aos ventos a liberdade, a democracia e os direitos humanos made in USA, o «canto esquerdo» proclama hípico, referindo-se à «gente de direita», que, paga em dólares, se opõe ao regime cubano: «São a minha gente».
Ora bem. Está tudo dito. Tão bem dito que nem o Bush diria melhor.


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