Tempo de esperança no Uruguai

Albano Nunes

«A lição principal a reter é a de que lutar vale sempre a pena»

No Uruguai vivem-se momentos de grande esperança numa viragem à esquerda na vida nacional. Neste pequeno país do Cone Sul de pouco mais de três milhões e meio de habitantes e o mais envelhecido da América Latina, centenas de milhares de pessoas, na sua maioria jovens, desceram às ruas no dia 1 de Março para festejar a tomada de posse de Tabaré Vasquez como presidente da República Oriental do Uruguai. Em Montevideu, onde decorreram as cerimónias oficiais em que o PCP esteve como convidado, tiveram lugar impressionantes comícios populares para ouvir o novo presidente e vitoriar a Frente Ampla, a coligação de forças democráticas e de esquerda que, por maioria absoluta, vencera as eleições presidenciais e legislativas de 31 de Outubro, pondo finalmente fim a mais de cem anos de condomínio dos partidos burgueses Colorado e Nacional.”Y ya lo és, y ya lo és, el presidente és Tabaré”, slogan entusiasticamente gritado tanto na rua como na própria Assembleia Legislativa onde teve lugar o principal acto oficial, traduz a profunda alegria e legítimo orgulho por uma vitória tão duramente conquistada.

Nenhum avanço libertador existe que não tenha sido conquistado, palmo a palmo, às classes dominantes. Para aqui chegar, os trabalhadores e o povo do Uruguai tiveram de percorrer um longo percurso, criar um forte movimento operário e sindical corporizado na PIT/CNT, a central única dos trabalhadores uruguaios, erguer um influente Partido Comunista de que Rodney Arismendi, um grande amigo do PCP, foi dirigente internacionalmente prestigiado, desenvolver formas criativas de organização unitária de que a Frente Ampla fundada em 1971 é a principal expressão e, sobretudo, desenvolver um amplo movimento popular de massas que alcançou vitórias de importância internacional, como no caso recente do referendo que impediu a privatização da água. E foi necessário enfrentar e derrotar a ditadura militar fascista imposta ao povo uruguaio entre 1973 e 1985, com o seu criminoso cortejo de torturas, assassinatos e desaparecidos, questão que ainda hoje comove e mobiliza a sociedade para que se apure toda a verdade sobre esse tempo sinistro e seja feita justiça. As garantias solenemente dadas nesse sentido pelo presidente Tabaré foram, de entre os compromissos pública e solenemente assumidos, dos que mais aplauso suscitaram.

Depois da vitória eleitoral de 31 de Outubro e da explosão de alegria popular que se expressou em manifestações cuja espectacular dimensão surpreendeu o mundo, as celebrações de 1 de Março evidenciam de modo impressionante a profunda vontade de mudança do povo uruguaio. Mudança sem dúvida difícil no actual contexto internacional, que exigirá uma política consequentemente de esquerda e patriótica e que de modo algum pode prescindir do apoio e mobilização das massas populares, cujos interesses e aspirações terão de estar firmemente no centro da política do novo Governo, no qual participam também os comunistas, à frente de um novo Ministério responsável pelo Plano de Emergência com que se pretende atacar os mais graves e urgentes problemas sociais. Claro que é muito cedo para adiantar previsões. Não é tranquilizador o que consta sobre a personalidade de ministros como o da Economia. Entretanto os compromissos solenemente assumidos pelo novo presidente em matéria de combate às injustiças e desigualdades sociais, de direitos democráticos e política externa, foram bem acolhidos. Tem um particular significado que os presidentes Chávez da Venezuela, Lula da Silva do Brasil e Kirchner da Argentina tenham tido tratamento oficial e acolhimento popular especialmente destacado. E sobretudo que o primeiro acto oficial do novo governo em matéria de política externa tenha sido o restabelecimento das relações diplomáticas com Cuba, relações que haviam sido provocatoriamente cortadas pelo governo de direita anterior.

Da experiência uruguaia, como sempre, a lição principal a reter é a de que lutar vale sempre a pena. E a luta dos trabalhadores e do povo do Uruguai continua e para com ela tem de continuar a nossa atenção e a nossa solidariedade


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