O «day after»

Carlos Gonçalves
Os partidos de direita no governo sofreram nestas eleições uma derrota pesada, perderam doze pontos percentuais, vinte e nove mandatos, meio milhão de votos e juntos obtiveram a mais baixa percentagem de sempre em legislativas. A dimensão desta derrota é a expressão clara da profunda exigência duma mudança real no rumo das políticas prosseguidas.
As causas da derrota são bem mais fundas que as incontáveis «trapalhadas» referidas por certa «opinião publicada» – que sempre minorou as trafulhices, desaforos e traições do P.Ministro – e têm a ver com o repúdio massivo do cerne das políticas de direita de D.Barroso, P.S.Lopes, P.Portas, M.F.Leite, Bagão F. e etc., muitas delas idênticas a orientações dos anteriores Governos PS e a anos e anos de «vira o disco e toca a mesma».
E é significativo que, agora mesmo, J.Sócrates insista no «pessimismo» e no «estilo» de P.S.Lopes como as questões fundamentais a «rever» e que, a coberto da maioria absoluta, abra caminho à continuação das políticas de direita mais essenciais.
O «dia seguinte» das forças políticas de direita nasceu sombrio e com a crise profundamente instalada.
No PSD não parece que a demissão de P.S.Lopes impeça o ajuste de contas e um Congresso de «guerra civil», com os barões perfilados e as ambições desenfreadas, talvez não tanto pela liderança, mas pelos «tachos», as autarquias e as presidenciais (com Cavaco e P.S.Lopes pré candidatos). E quase tudo é possível, conforme aquele velho princípio laranja de que o matricídio só é legítimo para ir ao «baile do orfanato», ou seja, por qualquer ambição pessoal ou serviço dos interesses.
No CDS também vai haver Congresso, e o alastrar da guerra intestina só está à espera de se saber se as «lágrimas de crocodilo» da demissão de P.Portas são mera manobra recorrente do velho projecto de liderança de toda a direita.
E veremos se P.S.Lopes e P.Portas estão sintonizados em objectivos complementares, ou se implode o «pacto de silêncio» das pulhices da direita que nos (des)governou.
Assim, importa relevar três ideias. A primeira é que a crise dos partidos de direita ainda agora começou. A segunda é que a direita dos interesses, apesar da vontade de mudança expressa nas eleições, tudo fará para que este PS se confirme como instrumento da continuidade das suas políticas de classe. E a terceira, e mais importante, é que o PCP e a CDU estão neste «day after» em bem melhores condições de prosseguir a luta por uma mudança a sério.


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