A caldeirada

Henrique Custódio
A 17 de Março de 2002, mal soube da vitória do PSD nas eleições legislativas desse dia (algo tangencial, aliás, com 40,12% dos votos contra os 37,85% obtidos pelo PS), Pedro Santana Lopes desfechou uma frase que, logo no dia seguinte, alegrou as páginas dos jornais.
«Os portugueses vão poder agora comer todos os dias uma caldeirada de qualidade», disse ele.
Sem dúvida que comeram.
Uma caldeirada enorme - de quase três anos vividos de Norte a Sul, do Continente às Ilhas, com toda a gente tragando uma caldeirada absolutamente diária e permanente.
Só que não era uma caldeirada de qualidade, pelo menos do ponto de vista culinário e degustável.
Diríamos, mesmo, que nesse aspecto corriqueiro das caldeiradas – o da sua avaliação eupéptica –, a coisa que o PSD serviu ao País, durante três anos, foi notoriamente indigesta.
Por outro lado, Santana Lopes foi mais uma vez prodigiosamente premonitório, qualidade sua que está devidamente assente desde, pelo menos, a altura em que garantiu publicamente que sabia ler nos astros.
«Está escrito nas estrelas que hei-de ser Primeiro-Ministro», foi então a sua frase.
E foi. Primeiro-Ministro. Anunciado nas estrelas e devidamente empossado. Pelo Presidente Sampaio, como deve ser.
Há três anos, com a frase da caldeirada, veio-lhe de novo a premonição.
Na verdade, se atendermos ao sentido figurado do termo - «porção de coisas misturadas; salgalhada», diz a Grande Enciclopédia Portuguesa Brasileira -, o PSD serviu de facto ao País uma caldeirada de alto coturno, que apurou exponencialmente quando Santana Lopes tomou conta do tacho.
Com ele, a «porção de coisas misturadas» dava para montar cem feiras da ladra por todo o País e a «salgalhada» dos seus seis meses de Governo, já nem a custo cabe no rectângulo continental.
Valeria, no lance, o tradicional desígnio marítimo da Pátria.
Mais uma vez, se necessário, o desígnio haveria de fornecer a vastidão do Atlântico às necessidades de espaço da salgalhada.
Felizmente, as eleições antecipadas cortaram caminho e puseram tudo em pratos limpos, no domingo passado.
A direita foi reduzida a fanicos na Assembleia da República, a coligação governamental PSD/PP viu, repentinamente, a sua maioria absoluta transformada em absoluta minoria, Paulo Portas saiu directamente da sua extraordinária «pose de Estado» para o seu habitual «estado de pose» e Santana Lopes foi liminarmente despejado com a sua caldeirada.
De enxurro e de sopetão, diga-se de passagem, transe que desta vez o premonitório Santana não deu sinais de prever na sua decifração dos astros, apesar de a coisa borboletear por tudo o que era sítio aos olhos de qualquer leigo, quanto mais nas estrelas e sob o escrutínio abalizado deste leitor cósmico.
Já que escrevemos sob a égide da caldeirada, palpita-nos que pouco mais haverá a dizer sobre os pratos deste cozinheiro.
Na verdade, se estes seis meses de governação confirmaram, sem margem para dúvidas, que Santana Lopes é um especialista em caldeiradas, revelaram igualmente que a caldeirada é a sua única, e solitária, especialidade.
Ora se isso é péssimo em qualquer cozinheiro, num líder é absolutamente inadmissível.
Seja como for, o País livrou-se inequivocamente de Santana e das suas caldeiradas.
Para continuar os estragos, agora só se for lá na cozinha do partido dele.


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