Coisas & loisas

Pedro Campos
Nos EUA é proibido ser pobre.
Washington, capital do país mais rico do mundo, sente-se o umbigo do mundo, talvez porque é o de maior potencial militar. Mas isto de ser o país «mais rico do mundo», além de não significar o de maior desenvolvimento humano, muito menos quer dizer «ausência de pobreza».
Segundo Miriam´s Kitchen (A Cozinha da Miriam) – uma organização de solidariedade especializada em pequenos almoços grátis – durante os últimos anos aumentou em 30% o número dos sem tecto. Miriam’s Kitchen afirma que o preço das rendas de casa, a falta de serviços sociais e o elevado índice de pobreza, combinam-se de uma forma dramática para que Washington – onde a organização está sedeada – tenha «um dos maiores níveis de indigência per capita do país».
«Uma vez que ficas no meio da rua – informa Nan Roman, presidente da Aliança Nacional para o Fim da Indigência, outro grupo de solidariedade social – é muito difícil conseguir um novo alojamento, tais são as exigências de depósito, dois meses de arrendamento e a falta de boas referências como inquilino». Mas se não tens casa onde passar a noite, não penses dormir na rua. Tal como em muitos estados da União, em Washington também é proibido passar a noite sob um tecto de estrelas quando a tal a necessidade obriga e, para além do desprezo público, o que te espera é a perseguição policial e até mesmo a prisão. Esta política de criminalizar a pobreza – que já mereceu aos EUA várias críticas ao nível internacional
– é para o país mais rico do mundo – como se consegue essa riqueza é outra questão – a melhor maneira de acabar com a pobreza. Sem dúvida. Tal como nos diz Michael Moore, os EUA são os primeiros em número de milionários, e também de multimilionários, mas também são a primeira sociedade na qual a maior fatia de pobres corresponde às crianças.

A propósito da «coroação» de Bush II

Nunca segundas partes foram tão boas, e esta segunda presidência de George (War) Bush não vai ser melhor do que a primeira. O mundo sabe-o.
Uma sondagem recente da BBC aponta nesse sentido. Mais da metade dos entrevistados (58%) afirma que a reeleição de Bush tornou o mundo num lugar «mais inseguro». Conduzida em 21 países, a investigação revela que os sentimentos mais negativos se manifestaram na Europa Ocidental, América Latina e os países árabes, e que 47% dos consultados consideram «muito negativa» a influência de Washington, um sentimento desfavorável que atinge os norte-americanos em geral.
«É difícil pensar noutro momento no qual a opinião pública mundial fosse tão negativa em relação aos EUA», concluiu Daniel Lundo, director do Programa sobre Atitudes em Política Internacional (PIPA, nas iniciais em inglês), que conduziu a sondagem com a firma GlobeScan. Na Europa, a única nação com uma visão diferente é a Polónia, que, à escala mundial, é acompanhada pela Índia e pelas Filipinas. Os restantes países opinam
negativamente sobre a reeleição de Bush II. A Turquia, aliado militar de Washington e único país muçulmano membro da NATO, encabeça a lista (82%), seguida imediatamente de dois países da América Latina (no total, participaram quatro na sondagem): Argentina e Brasil, respectivamente com 79 e 78% de percepção negativa.
Os responsáveis pelo estudo mostram-se surpreendidos por estes números latino-americanos, porque a região tem sido objecto da intervenção directa da política exterior norte-americana. É o problema de olhar a América Latina somente desde uma perspectiva europeia. Os números são o que são precisamente como reacção dessas sociedades ao resultado dessa «intervenção directa», que tem tido efeitos desastrosos sobre as economias desses
países.
Finalizemos com este comentário de Doug Miller, executivo máximo de GlobeScan, quando afirma que os resultados da sondagem «apoiam a percepção de alguns estado-unidenses de que, se o governo não muda a sua política externa durante o segundo período, continuará a erodir o bom nome dos Estados Unidos e, como consequência, a sua habilidade para uma maior influência efectiva nos assuntos mundiais».
Fica-nos a consolação apontada por Michael Moore: O único aspecto positivo da reeleição de Bush é que já não poderá voltar a ser reeleito.


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