Urnas não escondem a guerra
Dezenas de ataques provocaram pelo menos 44 mortos no domingo «eleitoral» no Iraque, marcas de uma guerra que nem as urnas conseguem esconder.
Poucos são os eleitores que conhecem a lista de candidatos
Apesar das fortes medidas de segurança impostas pelas forças ocupantes no Iraque – entre as quais o recolher obrigatório, o impedimento da circulação automóvel no centro de Bagdad e principais vias de acesso à capital e ligações às fronteiras – a violência marcou o acto eleitoral no país.
Entretanto, a contagem dos votos prossegue revelando a falta de fidelidade dos dados provisórios avançados durante o dia de domingo.
As contradições começaram com a divulgação dos números referentes à afluência nas assembleias de voto. Inicialmente, a comissão eleitoral e o governo provisório indicavam que 72 por cento dos eleitores registados haviam exercido o seu direito, estimativa desmentida mais tarde e corrigida para cerca de 60 por cento.
A dúvida permanece como outras, entre as quais a base de dados apontada como registo eleitoral ou as razões pelas quais muitas assembleias de voto não abriram as portas.
No Norte e Sul do país, zonas de maioria Curda e Xiita, a taxa de participação foi significativa e as autoridades religiosas funcionaram como fulcro mobilizador, mas poucos são os eleitores que podem dizer que conhecem a lista de candidatos ou o programa do partido em que votaram.
No centro do Iraque, onde prevalece a população de ascendência Sunita e Assíria, as autoridades não arriscam avançar números, embora seja seguro afirmar que em cidades como Ramadi ou Fallujah as «eleições» não se fizeram sentir.
A confiança de Al-Allawi na «democracia» iraquiana não lhe permitiu, no entanto, sair da chamada zona verde de Bagdad, perímetro de segurança máxima onde o executivo colaboracionista coabita com o comando das forças ocupantes e as embaixadas dos EUA e da Grã-Bretanha.
A prova de que a guerra continua é que anteontem o chefe do governo veio dizer que seria «um completo disparate pedir às tropas para partirem, neste caos e vazio de poder», deixando absolutamente incerta a data de assunção de plenos poderes por parte do novo executivo «eleito»
Combates continuam
Antes das «eleições», a embaixada dos EUA em Bagdad foi atacada por um carro armadilhado, cenário que se repetiu no sábado quando vários morteiros caíram junto das representações diplomáticas norte-americana e britânica e o centro da capital foi palco de uma intensa troca de tiros.
No dia das «eleições», um avião militar britânico foi atacado a norte de Bagdad. As queda do aparelho provocou a morte a uma dezena de soldados, um quadro de combates que se repetiram em bairros da capital como Al-Sadr, Al-Mansur e Al-Yamea e contribuíram para o balanço diário de mais de 40 mortos.
Informações apuradas pela BBC, com base em dados do ministério da Saúde iraquiano, revelam que nos últimos seis meses do ano passado, dois terços dos civis mortos no Iraque resultaram de operações militares, ou seja, mais de duas mil pessoas.
Passos perdidos
É neste contexto que os EUA pretendem manter a aparência de um processo de «transição democrática», ao mesmo tempo que não se sabe nem quando abandonarão o Iraque ou devolverão a soberania sobre os recursos petrolíferos.
Os passos previstos são a distribuição proporcional dos 275 lugares da Assembleia Nacional (AN), órgão que irá eleger por maioria de dois terços o presidente e dois vice-presidentes. A estes caberá designar o executivo governamental, sujeito à aprovação da NA mas desta feita por maioria simples.
A NA irá igualmente elaborar uma constituição e submete-la a referendo, acto que a realizar-se nos mesmos moldes contará com a supervisão dos 100 mil militares norte-americanos que Bush pretende manter no Iraque em nome da «democracia».
Sobre as «eleições» no Iraque
(Nota do Secretariado do CC do PCP)
A propósito das «eleições» no Iraque, o Secretariado do Comité Central do PCP divulgou uma nota, que a seguir se transcreve na íntegra, denunciando a «escandalosa farsa» de fazer passar por «livres e justas» umas eleições efectuadas sob ocupação militar.
1. O PCP denuncia o escandaloso coro de mistificação e de manipulação mediática em torno das «eleições» de 30 de Janeiro no Iraque, que procura fazer passar por algo de internacionalmente aceitável e benéfico para o povo iraquiano aquela que é uma escandalosa farsa, imposta pela força das armas, montada pelos EUA com outras forças invasoras.
2. Falar de «triunfo da democracia» é uma mistificação e um insulto à inteligência que tem de ser firmemente rejeitado.
Sem o fim da ocupação e a retirada das forças invasoras do Iraque não pode haver eleições minimamente dignas desse nome.
Admiti-lo seria contribuir para legitimar a perigosa prática intervencionista que os EUA, arvorando-se em «libertadores de tiranias», pretendem impor ao mundo.
A inquietante afirmação de Bush de que se «trata de um momento de triunfo para quem quer que se esforce para levar a democracia ao Médio Oriente», não deixa margem para dúvidas quanto aos objectivos opressores e expansionistas inerentes à operação de 30 de Janeiro no Iraque.
3. Neste quadro a inaceitável e vergonhosa declaração feita pelo Primeiro-ministro em exercício, Santana Lopes, de que se tratam de «eleições livres e justas» adquire tons de obscenidade. Trata-se de um novo e degradante acto de seguidismo em relação ao imperialismo norte-americano que reforça a exigência de imediato regresso da força da GNR e o fim do envolvimento de Portugal na guerra de ocupação do Iraque.
1.2.2005
O Secretariado do Comité Central do PCP
Entretanto, a contagem dos votos prossegue revelando a falta de fidelidade dos dados provisórios avançados durante o dia de domingo.
As contradições começaram com a divulgação dos números referentes à afluência nas assembleias de voto. Inicialmente, a comissão eleitoral e o governo provisório indicavam que 72 por cento dos eleitores registados haviam exercido o seu direito, estimativa desmentida mais tarde e corrigida para cerca de 60 por cento.
A dúvida permanece como outras, entre as quais a base de dados apontada como registo eleitoral ou as razões pelas quais muitas assembleias de voto não abriram as portas.
No Norte e Sul do país, zonas de maioria Curda e Xiita, a taxa de participação foi significativa e as autoridades religiosas funcionaram como fulcro mobilizador, mas poucos são os eleitores que podem dizer que conhecem a lista de candidatos ou o programa do partido em que votaram.
No centro do Iraque, onde prevalece a população de ascendência Sunita e Assíria, as autoridades não arriscam avançar números, embora seja seguro afirmar que em cidades como Ramadi ou Fallujah as «eleições» não se fizeram sentir.
A confiança de Al-Allawi na «democracia» iraquiana não lhe permitiu, no entanto, sair da chamada zona verde de Bagdad, perímetro de segurança máxima onde o executivo colaboracionista coabita com o comando das forças ocupantes e as embaixadas dos EUA e da Grã-Bretanha.
A prova de que a guerra continua é que anteontem o chefe do governo veio dizer que seria «um completo disparate pedir às tropas para partirem, neste caos e vazio de poder», deixando absolutamente incerta a data de assunção de plenos poderes por parte do novo executivo «eleito»
Combates continuam
Antes das «eleições», a embaixada dos EUA em Bagdad foi atacada por um carro armadilhado, cenário que se repetiu no sábado quando vários morteiros caíram junto das representações diplomáticas norte-americana e britânica e o centro da capital foi palco de uma intensa troca de tiros.
No dia das «eleições», um avião militar britânico foi atacado a norte de Bagdad. As queda do aparelho provocou a morte a uma dezena de soldados, um quadro de combates que se repetiram em bairros da capital como Al-Sadr, Al-Mansur e Al-Yamea e contribuíram para o balanço diário de mais de 40 mortos.
Informações apuradas pela BBC, com base em dados do ministério da Saúde iraquiano, revelam que nos últimos seis meses do ano passado, dois terços dos civis mortos no Iraque resultaram de operações militares, ou seja, mais de duas mil pessoas.
Passos perdidos
É neste contexto que os EUA pretendem manter a aparência de um processo de «transição democrática», ao mesmo tempo que não se sabe nem quando abandonarão o Iraque ou devolverão a soberania sobre os recursos petrolíferos.
Os passos previstos são a distribuição proporcional dos 275 lugares da Assembleia Nacional (AN), órgão que irá eleger por maioria de dois terços o presidente e dois vice-presidentes. A estes caberá designar o executivo governamental, sujeito à aprovação da NA mas desta feita por maioria simples.
A NA irá igualmente elaborar uma constituição e submete-la a referendo, acto que a realizar-se nos mesmos moldes contará com a supervisão dos 100 mil militares norte-americanos que Bush pretende manter no Iraque em nome da «democracia».
Sobre as «eleições» no Iraque
(Nota do Secretariado do CC do PCP)
A propósito das «eleições» no Iraque, o Secretariado do Comité Central do PCP divulgou uma nota, que a seguir se transcreve na íntegra, denunciando a «escandalosa farsa» de fazer passar por «livres e justas» umas eleições efectuadas sob ocupação militar.
1. O PCP denuncia o escandaloso coro de mistificação e de manipulação mediática em torno das «eleições» de 30 de Janeiro no Iraque, que procura fazer passar por algo de internacionalmente aceitável e benéfico para o povo iraquiano aquela que é uma escandalosa farsa, imposta pela força das armas, montada pelos EUA com outras forças invasoras.
2. Falar de «triunfo da democracia» é uma mistificação e um insulto à inteligência que tem de ser firmemente rejeitado.
Sem o fim da ocupação e a retirada das forças invasoras do Iraque não pode haver eleições minimamente dignas desse nome.
Admiti-lo seria contribuir para legitimar a perigosa prática intervencionista que os EUA, arvorando-se em «libertadores de tiranias», pretendem impor ao mundo.
A inquietante afirmação de Bush de que se «trata de um momento de triunfo para quem quer que se esforce para levar a democracia ao Médio Oriente», não deixa margem para dúvidas quanto aos objectivos opressores e expansionistas inerentes à operação de 30 de Janeiro no Iraque.
3. Neste quadro a inaceitável e vergonhosa declaração feita pelo Primeiro-ministro em exercício, Santana Lopes, de que se tratam de «eleições livres e justas» adquire tons de obscenidade. Trata-se de um novo e degradante acto de seguidismo em relação ao imperialismo norte-americano que reforça a exigência de imediato regresso da força da GNR e o fim do envolvimento de Portugal na guerra de ocupação do Iraque.
1.2.2005
O Secretariado do Comité Central do PCP