Casa Branca Dixit

Ângelo Alves

Todos os pre­textos usados para ocupar o Iraque caíram por terra

A Casa Branca anunciou no passado dia 12 que as buscas de armas de destruição massiva no Iraque tinham terminado. O resultado das pesquisas já tinha sido anunciado num relatório entregue ao Congresso norte-americano em Setembro último pelo Iraq Survey Group (ISG). Não foram encontradas quaisquer provas que sustentassem as mentiras difundidas para justificar a invasão do Iraque há 22 meses atrás. Ou seja, desde 30 de Setembro de 2004 que, oficialmente, o ISG está no Iraque à procura de... nada! Mas se isso é uma evidência desde Setembro é importante frisar que foi essa a estratégia da administração Bush desde o início. Primeiro lançou a acusação com base em «informações de fontes seguras», apesar de negadas pelos inspectores da ONU. Segundo, invadiu o Iraque, objectivo central, e terceiro enviou uma equipa de 1000 funcionários norte-americanos da CIA para fazer o mesmo trabalho dos anteriores inspectores, mas com uma diferença: sabiam que não iam encontrar nada.

O que este anúncio vem revelar, mais uma vez, é que a missão do ISG, foi tentar dar, durante o tempo necessário, alguma credibilidade às falsas acusações pelo simples facto de «procurar» as armas. Tal não aconteceu e os EUA tentam agora pôr um ponto final no assunto. Não porão contudo um ponto final na memória dos que desde o início estiveram contra a guerra e denunciaram o carácter conspirador e maniqueísta das acusações, dos que disseram que mesmo que as armas existissem a guerra não era a solução. Há quem continue a lembrar-se das declarações de Bush, Blair, Aznar, Barroso, ou Portas, regressado da sua visita à Casa Branca. Todos sabiam a verdade e todos mentiram! Todos sabiam que tais acusações careciam de prova e foram fabricadas pelo Pentágono em conjunto com organizações como o Congresso Nacional Iraquiano, com sede em Washington e financiado pela CIA, apoiado nos media norte-americanos ao seu serviço.

Este é mais um exemplo das grandes dificuldades da administração norte-americana em continuar a justificar a guerra do Iraque. A juntar à condenação pública e generalizada da ocupação, ao fracasso do chamado processo de «transição» e à inexistência de quaisquer condições para a realização de eleições, o aumento das acções de resistência armada no terreno provoca agora novos desenvolvimentos nos próprios EUA. No passado dia 14 de Janeiro, dezasseis congressistas solicitaram a Bush a retirada das tropas do Iraque argumentando que a invasão provocou, no Iraque e demais países árabes, um acrescido sentimento anti-americano; que o Iraque é hoje um país menos seguro e que a melhor forma de ajudar as tropas norte-americanas é retirar. Mas não é só do Partido Democrata que chegam sinais de uma situação insustentável para o imperialismo. Brent Scowcroft (Secretário da Defesa de Bush pai) declarou recentemente que a continuação da insurreição impõe a discussão de quando «deveremos sair». Sinais dos tempos...

No próprio exército há sinais. Só em 2004, segundo o Pentágono, quase 3 000 soldados recusaram-se a combater e os pedidos de abandono do Exército, segundo a Reuters, quase duplicaram e superam os 3 mil mensais.
Todos os pretextos usados para ocupar o Iraque caíram por terra e já não são só os que estiveram contra a invasão que o dizem. Sobre armas de destruição massiva estamos conversados, Casa Branca dixit. Sobre libertação, democracia e segurança do Iraque ouvem-se agora os normalmente calados democratas. E falam por si os mais de 100 000 mortos desta guerra, os massacres norte-americanos, as torturas, a saída de 53 partidos políticos e 30 candidatos da farsa eleitoral programada para dia 30, o recolher obrigatório anunciado para este período ou ainda os comícios eleitorais «sob a supervisão de Washington», leia-se sob o olhar atento dos «marines» e suas armas.


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