A guerra do «rapa o tacho»

Carlos Gonçalves
Mesmo tendo em conta a história do PPD-PSD, marcada pela sua natureza de partido-instrumento do grande capital e do imperialismo, dos «capitães do dinheiro» e lobbies, e pelas muitas e desvairadas golpadas dos interesses, mais ou menos opacos, e das clientelas, mais ou menos explícitas; mesmo tendo presente a sua interminável e inenarrável história de intrigas, traições e «assassínios políticos» entre «chefes», «barões e baronetes» e «tias», das chantagens de Sá Carneiro, dos negócios de Balsemão, dos tabus de Cavaco e da fuga premeditada de D.Barroso; esta «equipe» de P.Santana Lopes, conseguiu levar o respectivo partido a um «novo patamar de excelência», de prolongada e profunda degradação ética, democrática, institucional e funcional.
A luta dos trabalhadores e do povo contra a política de direita – de «ajuste de contas» e até de provocação reaccionária – prosseguida nestes meses, acentuou as debilidades congénitas da maioria (absoluta) de sustentação do Governo e catalizou o «vale tudo» pelo poder de P.Santana Lopes e seus correligionários. E sobretudo acabou por conduzir à sua derrota e demissão.
Para além do «caso Marcelo» e correlativos, são inúmeras as broncas intestinas do PSD – o rompimento de Herique Chaves com a falta de «lealdade e verdade» do P.Ministro; o saneamento de M.Ferreira Leite, tornada hoje bode expiatório do fracasso das políticas financeiras de D.Barroso, quando na altura foi apoiada por estes mesmos ministros (ou a caminho de o serem); o afrontamento evidente de Cavaco Silva, do género «matar a mãe para ir ao baile do orfanato», ou, dito de outra forma, livrar-se agora do PSD de P.Santana Lopes e da derrota anunciada, para manter aberta a possibilidade de candidatura a Belém.
E é a «guerra civil total» nas listas de candidatos, em Coimbra, Bragança, etc e no Porto, onde o «caso Pôncio Monteiro» e o que ficou dito sobre «facadas nas costas» e «traições», sintetiza o quadro interno e o conteúdo substantivo do projecto do PPD-PSD – o «vale tudo» e o tráfico de influências, entre política e cambalachos do futebol profissional, senhores do betão e etc.
Esta guerra sem quartel é a explicitação objectiva de que a direita vai perder as eleições e tem consciência desse facto, de que serão menos os «jobs» a dividir e serão outros os futuros «chefes» do PSD.
Por isso é tão brutal a guerra do «rapa o tacho».


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