O encarte

Anabela Fino
A poucos dias do final do ano e da porta da rua por onde hão-de sair sem deixar saudades, os membros do Governo acotovelam-se uns aos outros no frenesim de sacudir a água - que digo eu? a catarata! - do capote no respeitante às suas responsabilidades quanto ao estado deplorável a que o País chegou.
É caso para dizer que quanto mais se abaixam mais se lhe vê a roupa suja, que de resto não desdenham em trazer para a praça pública no mais confrangedor espectáculo a que nos foi dado assistir nas últimas décadas.
Os exemplos são tantos que a única dificuldade está na escolha.
Ele é um secretário de Estado a atirar-se intempestivamente aos bombeiros a seguir ao sismo (o telúrico, não o político) que recentemente se fez sentir em Portugal, e o ministro da tutela a apagar fogos com a desculpa da impetuosidade juvenil do seu subordinado, num caso que levou um antigo responsável dos «soldados da paz» a comentar, muito educadamente, se a memória não me falha, que «a ignorância é muito impertinente».
Ele é o demissionário primeiro-ministro, que já se havia auto classificado de «encubado», a queixar-se aos microfones radiofónicos - no melhor estilo das novelas mexicanas - das «cicatrizes» que tem nas costas das «facadas» que levou dentro e fora de casa e a garantir «chega!», não aceita mais golpes, ao que parece por falta de espaço.
Ele é o Bagão das Seguradoras e das missas, imbuído do mais profundo espírito natalício, a destilar veneno contra a sua antecessora nas Finanças, Manuela Ferreira Leite, a quem acusa de ter deixado uma cratera de três mil milhões de euros nas contas públicas, o que transforma em missão impossível a manutenção do défice orçamental de 2004 abaixo dos 3% como manda Bruxelas.
Ele é o folhetim da venda dos imóveis do Estado que afinal não eram para vender mas para ceder temporariamente à banca a fim de arrecadar uma receita extra, expediente recebido com um coro de protestos a nível interno e mais um «chumbo» da Europa.
Ele é o Paulinho das Feiras a falar de 800 postos de trabalho na Amadora como coisa certa e segura graças a um acordo que vai-se a ver nem sequer existe no papel.
Ele é... ele é uma canseira só para acompanhar o despautério deste desgoverno, que pensando bem deve ser o fruto da vingança de Durão Barroso, agora José Barroso e europeu, que deu à sola deixando o partido e o País armadilhado, a mostrar como não foi em vão o tempo passado nos radicalismos ditos esquerdistas, doença senil do capitalismo.
Ele é, enfim, mas seguramente não por último pois até 20 de Fevereiro muita água suja passará por debaixo das pontes, o despudorado encarte ontem distribuído com o Diário de Notícias a publicitar as pretensas maravilhas do Orçamento do Estado para 2005, isto é, a dizer aos contribuintes, que pagam o folheto, como irá ser bem aplicado o dinheiro dos impostos e que bom vai ser viver em Portugal sob a batuta da nova AD de opereta. Não se trata de propaganda à custa dos contribuintes, garante o executivo, com a mesma convicção com que assegura o crescimento, o rigor, o bem-estar, a eficácia, a coesão e tudo o mais que soe dizer-se quando se trata de enganar o Zé povinho.
Bem vistas as coisas, é a política do encarte quando já toda a gente anseia pelas badaladas da meia-noite a anunciar o dia do descarte.


Mais artigos de: Opinião

O DILEMA

O dilema do início das negociações sobre a adesão da Turquia à União Europeia lançou o nervosismo na classe governante, nos partidos e nas instituições políticas alemãs. Chegou a hora de fazer as contas e verificar se a exploração da Turquia, dos seus mercados, riquezas naturais e força de trabalho pelos bancos e grandes...

<em>Nunca mais me enganam</em>

São um milhão, ou talvez mais, os que, votando ora no PS ora no PSD, decidem qual o partido mais votado em cada eleição. Pelo menos, assim tem sido até agora, ao longo de sucessivos actos eleitorais. Recorde-se. Fartos da política do governo PS/Mário Soares, no qual haviam votado, consideraram-se enganados e juraram a si...

Bonzinhos e mauzões

Quem estiver mais atento já terá percebido que, na generalidade da comunicação social, está em curso uma espécie de folhetim em torno dos que seriam uns bonzinhos e dos que seriam uns mauzões face a um provável futuro Governo do PS.No quadro deste folhetim, mais baseado em duvidosas deduções do que em declarações...

Conto de natal

«É tempo de natal \ é tempo de ser bom \ a menina rica pôs um avental \ e deu um bodo aos pobres»: o poema de Sidónio Muralha vem à memória enquanto nas ruas repicam músicas festivas que convidam as pessoas a gastar o subsídio de natal (os que o têm) e também a entrar a crédito no salário do mês seguinte (os que podem:...

Mobilizar, organizar e esclarecer

O XVII Congresso confirmou um Partido que não renega a sua história, a sua memória e a sua luta. Mas confirmou também, e por isso mesmo, um Partido que, consciente das dificuldades, está disposto a ir à luta para as vencer.