Conto de natal
«É tempo de natal \ é tempo de ser bom \ a menina rica pôs um avental \ e deu um bodo aos pobres»: o poema de Sidónio Muralha vem à memória enquanto nas ruas repicam músicas festivas que convidam as pessoas a gastar o subsídio de natal (os que o têm) e também a entrar a crédito no salário do mês seguinte (os que podem: as condições do crédito são oferecidas com tanta ternura)....
É tempo de natal e à memória vêm contos, histórias escritas à volta do tema. Dickens contou-nos a história do usurário que na noite de natal, depois de uma vida inteira a espoliar os outros, tem um rebate de arrependimento e se torna generoso. E Andersen, num belo conto que li nos meus 10 anos e muitas vezes recordo, fala-nos de uma menina que caminhava na cidade coberta de neve, sozinha, com frio e fome, sem ter para onde ir, e tendo apenas na mão uma caixa de fósforos. Via as montras enfeitadas com belas coisas, pelas janelas das casas projectavam-se árvores de natal cobertas de prendas e lâmpadas multicores, viam-se mesas cobertas de comida, lareiras onde crepitava o calor de alegres chamas. Para se abrigar, a menina acolheu-se num vão de escada escuro onde o frio também se acolhia mas não havia neve batida pelo vento. E, para aquecer os dedos e ter um pouco de luz, acendeu um fósforo, que lhe deu momentos de conforto. Depois acendeu outro. E mais um, mais outro, mais um, procurando alguns instantes de luz e calor no seu natal de angustiada solidão. Na memória ficou-me a imagem final do conto, quando a menina acende o último fósforo e fica olhando a chama que se lhe extingue na ponta dos dedos, enquanto a escuridão avança à sua volta.
Mas – dirão agora os leitores do «Avante!» - a que propósito vem isto no «actual»?
Os processos do pensamento são complexos e as associações de ideias um dos seus segredos. Vê uma pessoa a movimentação deste período festivo, que não é só convite ao consumo, para o comércio enfrentar a crise, é também ocasião de encontro entre familiares - e não pode ignorar as lágrimas e angústias dos que recebem nestes dias a notícia de que vão ficar sem emprego (e são muitos, muitos mais do que aqueles que com frequência crescente temos podido ver na TV ). E o natal ganha então outros contornos, em que o que é actual se cola ao alegórico.
É que na vida real, a que continua à nossa volta, os usurários do conto de Dickens ainda não se arrependeram, os aventais das meninas ricas escondem muitas injustiças, e num mundo em que a pobreza nos últimos 12 anos duplicou, para muita gente já está a apagar-se o último fósforo.
E a nossa democracia, aquela menina que o nosso povo deu à luz do mundo na arrancada de Abril, não precisará também que lhe levemos archotes para os acendermos nos seus fósforos, iluminando o novo ano, de opções exigentes, que se aproxima?
Outros natais são possíveis. Para isso, é necessária intervenção dos que querem que as boas intenções se tornem realidades.
E se fizessemos deste natal uma exigência feliz? Com as nossas propostas quem se atreveria a dizer que não?
É tempo de natal e à memória vêm contos, histórias escritas à volta do tema. Dickens contou-nos a história do usurário que na noite de natal, depois de uma vida inteira a espoliar os outros, tem um rebate de arrependimento e se torna generoso. E Andersen, num belo conto que li nos meus 10 anos e muitas vezes recordo, fala-nos de uma menina que caminhava na cidade coberta de neve, sozinha, com frio e fome, sem ter para onde ir, e tendo apenas na mão uma caixa de fósforos. Via as montras enfeitadas com belas coisas, pelas janelas das casas projectavam-se árvores de natal cobertas de prendas e lâmpadas multicores, viam-se mesas cobertas de comida, lareiras onde crepitava o calor de alegres chamas. Para se abrigar, a menina acolheu-se num vão de escada escuro onde o frio também se acolhia mas não havia neve batida pelo vento. E, para aquecer os dedos e ter um pouco de luz, acendeu um fósforo, que lhe deu momentos de conforto. Depois acendeu outro. E mais um, mais outro, mais um, procurando alguns instantes de luz e calor no seu natal de angustiada solidão. Na memória ficou-me a imagem final do conto, quando a menina acende o último fósforo e fica olhando a chama que se lhe extingue na ponta dos dedos, enquanto a escuridão avança à sua volta.
Mas – dirão agora os leitores do «Avante!» - a que propósito vem isto no «actual»?
Os processos do pensamento são complexos e as associações de ideias um dos seus segredos. Vê uma pessoa a movimentação deste período festivo, que não é só convite ao consumo, para o comércio enfrentar a crise, é também ocasião de encontro entre familiares - e não pode ignorar as lágrimas e angústias dos que recebem nestes dias a notícia de que vão ficar sem emprego (e são muitos, muitos mais do que aqueles que com frequência crescente temos podido ver na TV ). E o natal ganha então outros contornos, em que o que é actual se cola ao alegórico.
É que na vida real, a que continua à nossa volta, os usurários do conto de Dickens ainda não se arrependeram, os aventais das meninas ricas escondem muitas injustiças, e num mundo em que a pobreza nos últimos 12 anos duplicou, para muita gente já está a apagar-se o último fósforo.
E a nossa democracia, aquela menina que o nosso povo deu à luz do mundo na arrancada de Abril, não precisará também que lhe levemos archotes para os acendermos nos seus fósforos, iluminando o novo ano, de opções exigentes, que se aproxima?
Outros natais são possíveis. Para isso, é necessária intervenção dos que querem que as boas intenções se tornem realidades.
E se fizessemos deste natal uma exigência feliz? Com as nossas propostas quem se atreveria a dizer que não?