O Ângelo

Henrique Custódio
Ângelo Correia, militante «histórico» do PSD, ganhou estatuto de «barão» do seu partido ao longo de uma minuciosa e aplicada trajectória de promoção pessoal, onde chegou a ser ministro num Governo da longínqua «AD», para em breve se entregar a uma, certamente, mais rentável carreira: a de empresário para toda a folha, que é como quem diz «administrador de empresas» por grosso e atacado.
Pelo meio foi-se estabelecendo como comentador televisivo especialista no que calhasse, em geral convocado pelo canal público RTP, onde curiosamente nunca faltaram responsáveis editoriais empenhados a difundir as suas opiniões, sempre torrenciais e infalivelmente anunciadas por «pontos» cuja totalidade, por acaso e com frequência, ele esquece enquanto os vai desbobinando.
Inicialmente - porventura rentabilizando uma sua falada comissão militar em Timor quando a guerra colonial destroçava vidas por Angola, Moçambique e Guiné -, exprimia-se amiúde como «especialista» em matérias de Defesa, o que com o tempo o transformou num robusto perito em assuntos militares e geoestratégia em geral, quer se falasse dos fardamentos da tropa fandanga ou das «mísseis inteligentes» no Iraque. Quem não se lembra das suas vibrantes e copiosas explicações sobre a tragédia de Timor-Leste na ocupação indonésia, supostamente um território do seu traquejo como expedicionário colonial, durante o fascismo, longe da pátria (e também dos tiros da guerra)?
E assim chegou a «barão» no PSD, ao que dizem hoje muito escutado e, mesmo, respeitado nos sempre resvaladiços meandros deste partido.
Daí a importância das suas palavras há dias proferidas numa entrevista, onde decretou: «Este PSD não é o meu. Este PSD, sobretudo os quadros fundamentais, esperam por quem lhes dê o poder».
Pior: segundo Ângelo Correia, «Santana Lopes embrulhou-se com aquela gente do barrosismo, que é uma gente sem qualidade nenhuma», enquanto «a concubinagem, a miscigenação total e completa entre o aparelho distrital do PSD e o Governo da República foi obtida com o barrosismo».
Coisa rara e nunca vista, estamos de acordo com Ângelo Correia: é público e notório o assalto descabelado e vergonhoso ao poder no aparelho de Estado levado a cabo pela coligação dita «barrosista».
Mas eis que surge uma curiosa ressalva no discurso demolidor ao tal «barrosismo»: segundo Ângelo Correia, os actuais ministros António Mexia e Álvaro Barreto são «de alto nível», ao contrário do restante elenco governativo.
Ora o ministro António Mexia veio directamente da Petrogal, onde desde o último Governo de António Guterres tem conduzido a privatização acelerada desta estratégica empresa.
Por outro lado, Ângelo Correia está ligado, nas suas lides de administrador, a um consórcio internacional que, durante o tal «barrosismo», perdeu na corrida à privatização da Petrogal.
Assim sendo, deixa de ser intrigante a súbita animosidade deste ilustre «barão» contra o actual PSD, com ressalva do ministro Mexia.
Afinal de contas, continuamos com o nosso Ângelo Correia de sempre.
O mesmo que, na sua já longínqua passagem pelo ministério da Administração Interna, ficaria célebre como o ministro que inventou a «insurreição dos pregos».
Por essas e por outras é que, já nessa altura, também havia ministros e Governos do PSD cheios de gente «sem qualidade nenhuma».
Ângelo Correia é que não dava então por isso.


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