Os relatos

Henrique Custódio
Como se esperava, a quase generalidade dos órgãos de comunicação social, seja da escrita ou do audiovisual, fizeram uma cobertura do 17.º Congresso do PCP onde o preconceito mais ou menos descarado e a manipulação sempre deliberada marcaram uma presença no mínimo tão destacada como o próprio acontecimento a relatar.
Para ilustrar o preconceito, basta dar uma vista de olhos pelos jornais de expansão nacional e espreitar os títulos e os artigos que os polvilham para se verificar que, na maioria dos pretensos relatos, o que contava não era a realidade que acontecia no pavilhão de Almada, mas o que as cabecinhas dos respectivos escribas transportavam elas próprias, sobre o assunto, para o Congresso.
Foi assim, por exemplo, que um Nuno Sá Lourenço titulava no «Público» a bombástica informação «Delegados com a tese bem estudada» (explicando no texto que «a impressão que fica é que não parece haver grandes diferenças entre o que a direcção e as bases pensam» e garantindo que «não será entre os delegados ao Congresso que a direcção vai encontrar críticas às suas teses»), enquanto no mesmo local onde se realizava o Congresso, Pedro Correia, do Diário de Notícias, apenas via «uma plateia vasta mas sonolenta», onde, também ele e apenas ele igualmente descortinava «discípulos do velho Vladimir Ilitch Ulianov» que (pasme-se!) «um século depois sonham recriar a Revolução de Outubro na ponta mais ocidental da Europa».
Quanto ao que de concreto se passou no pavilhão de Almada nas suas dezenas de intervenções - passando a pente fino as realidades do País com as suas dificuldades sociais objectivas e os problemas precisos, ou as análises feitas, as propostas avançadas, as críticas expressas, os balanços e sínteses aplicados à vida interna do Partido ou à realidade nacional ou internacional, e etc., etc. -, nada disso chamou a atenção destes indómitos repórteres, ocupados com outras coisas muito mais importantes como a de que «ninguém falou de improviso» e «ninguém tirou sequer os olhos do papel», como garantia ainda o extraordinário Pedro Correia.
Muitos outros exemplos poderiam ser convocados, mas fiquemos por aqui.
Quanto à manipulação deliberada, basta igualmente citar as páginas inteiras de jornais e os abundantes noticiários televisivos e de rádio que se ocuparam das duas intervenções de Lopes Guerreiro e Fernando Vicente, em tal extensão e insistência e ignorando de tal modo todas as outras que se julgaria que o Congresso se concentrara nos escassos minutos daquelas solitárias intervenções, cujo «interesse jornalístico» se resumia, afinal, ao facto de serem «contestatárias».
Nestas distorções grosseiras e visões fantasmagóricas do Congresso dos comunistas portugueses, o mais grave entretanto é a manipulação fria e calculada com que são realizadas.
Para o exemplificar, basta recorrer mais uma vez a Pedro Correia, esse escriba fatal, que interroga: «Debate? Qual debate? Em boa verdade, nem um sussurro de polémica perpassou ontem no Pavilhão dos Desportos de Almada.»
Isto diz o homem de um debate que (devia sabê-lo) não durou apenas os três dias do Congresso, começou onze meses antes e foi discutido em centenas de reuniões por muitos milhares de comunistas, em todo o território nacional e desencadeando milhares de emendas e alterações, processo de discussão único no País, exaustivo e democrático como nenhum outro.
Em boa verdade, quanta mentira se diz e escreve sobre o PCP...
Com toda a objectividade, evidentemente.


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