A conversa

Henrique Custódio
No momento em que escrevemos, o professor Marcelo Rebelo de Sousa ainda não foi ouvido pela Alta Autoridade para a Comunicação Social (AACS), no âmbito das audições que a dita está a realizar com todos os envolvidos no chamado «caso do professor Marcelo» que, como se sabe, foi desencadeado pela demissão deste como comentador da TVI, após um encontro com o presidente desta estação televisiva, Paes do Amaral, e na sequência de críticas directas (e grosseiras) do ministro Rui Gomes da Silva contra os seus comentários televisivos.
Como é sabido, o professor Marcelo há muito que joga ao milímetro na administração das suas deambulações políticas, pelo que dirá isto, aquilo ou o seu contrário na tal audição, ou seja, tanto poderá admitir abertamente o que, até agora, apenas tem deixado subentendido (as pressões que sofreu por parte da administração da TVI para «moderar» as críticas ao Governo), como lhe poderá dar para fugir de novo à questão enquanto deixa cair, ou não, novos subentendidos.
Tanto faz e pouco importa.
O que interessa, no caso, são as declarações entretanto proferidas pelo presidente da TVI, o inefável «industrial da comunicação» Paes do Amaral, aos deputados da Assembleia da República.
Começando por frisar que o seu encontro com Marcelo Rebelo de Sousa não passara de uma «conversa de amigos», espalhou o jogo garantindo que a única vez em que ele próprio fora pressionado tinha sido durante um Governo de Cavaco Silva onde, «no início da década de 90, durante mais de um ano, inspectores da Direcção Geral de Contribuições e Impostos estiveram instalados nas minhas empresas pessoais e na SOCI – que detém o Independente – no que pressupus uma tentativa clara de condicionar a linha editorial do jornal».
Anotemos não apenas a ligeireza e facilidade com que esta gente usa ou acusa a máquina do Estado para as suas maquinações, mas, sobretudo, que Paes do Amaral se refere ao tempo em que Paulo Portas dirigia o Independente e o utilizava numa espécie de «cruzada pessoal» anti-cavaquista, tal como Paes do Amaral só faz esta denúncia hoje, quando no poder está Pedro Santana Lopes com o seu também conhecido «anti-cavaquismo» movido pelas já famosas «ambições presidenciais» de ambos, Santana e Cavaco.
Após o que devemos observar a frase final de Paes do Amaral sobre a tal «conversa de amigos» com Marcelo.
«A razão da conversa», confessa ele com toda a candura, «não tinha a ver com os comentários do professor Marcelo Rebelo de Sousa, mas com um pedido de conselhos sobre temas estratégicos para a Media Capital, de curto e médio prazo, que não posso revelar por se tratar de informação privilegiada».
Dando de barato por que carga de água um comentador político se havia de demitir por causa de um «pedido de conselhos» feito pelo presidente da TVI seu «amigo e familiar», convém aqui recordar que as acusações de pressão governamental no «caso Marcelo» sobre a mesma TVI, lidas na imprensa, tinham como moeda de troca exactamente negócios «de curto e médio prazo» para que o consórcio de Paes do Amaral precisava de assinaturas e anuências do Executivo de Santana Lopes.
Pelo que a conversa com Marcelo nem precisava de «ter a ver com os seus comentários»: para os «moderar» - aos comentários e ao comentador -, obviamente bastava a Paes do Amaral pedir os tais «conselhos» ao professor sobre uns negócios «a curto e médio prazo»...


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