A benefício do inventário
Quem tenha acompanhado a vida política nacional nas últimas semanas - e poucos terão sido os que conseguiram escapar ao dilúvio - terá certamente pensado que o agitar das águas provocado pelo insólito desaguisado entre um ministro da maioria e um professor/comentador encartado da mesma maioria ia dar lugar a barrela nunca vista.
De repente, guardiões das boas consciências de todos os azimutes fizeram tocar os sinos a rebate dizendo que estava em perigo um dos pilares da democracia, se não a sua própria essência, pelo que havia que atalhar caminho e já, antes que fosse demasiado tarde.
Escreveram-se crónicas e editoriais, proferiram-se comentários, organizaram-se fóruns e mesas redondas, promoveram-se almoços e jantares, concederam-se audiências, fizeram-se declarações ao País... tudo com carácter de urgência e de natureza muito séria, que ponderosa era a questão em apreço.
Em causa estava, nem mais nem menos, a liberdade de expressão e opinião, o pluralismo, a isenção, a independência dos órgãos de comunicação, tudo coisas que, como é sabido, em Portugal se pratica há 30 anos sem reparos de maior e sem que passe pela cabeça seja de quem for que possa ser de outro modo.
Muito naturalmente, estando as coisas neste ponto, e enquanto ainda se esgrimiam argumentos de um lado ao outro do espectro político-partidário, a televisão pública entendeu levar a cabo um debate sobre a esquerda e a direita em Portugal, onde todos dissessem de sua justiça. Todos, ponto e vírgula. Todos os mesmos de sempre, que são sempre os mesmos, diferentes no acessório e iguais no essencial, modernos e europeus, pragmáticos e muito, muito democráticos.
Do ilustre painel do debate não constava nenhum representante do PCP, nem no palco nem na assistência. Estranho? Talvez não. Depende do ponto de vista. Se se tiver em conta a temática abordada e o contexto em que se realizou o debate, mandava o mais elementar bom senso que desta vez não houvesse exclusões. Se se tiver em conta a praxis, nada mais natural do que a discriminação, useira e vezeira no que ao PCP diz respeito.
Os pluralistas, os democratas, os guardiões do templo - de Belém a São Bento, do Rato ao Caldas, da Travessa do Fala Só à Porcalhota - não deram por nada. Todos diferentes, todos iguais.
Para que conste, a benefício do inventário, a reportagem sobre Mora introduzida a despropósito no debate, a mostrar o bom trabalho dos comunistas nas autarquias, e que nem um reparo suscitou, foi feita expressamente para o programa. Um remendo em peúga sem préstimo ou, para ser mais claro, discriminação premeditada.
De repente, guardiões das boas consciências de todos os azimutes fizeram tocar os sinos a rebate dizendo que estava em perigo um dos pilares da democracia, se não a sua própria essência, pelo que havia que atalhar caminho e já, antes que fosse demasiado tarde.
Escreveram-se crónicas e editoriais, proferiram-se comentários, organizaram-se fóruns e mesas redondas, promoveram-se almoços e jantares, concederam-se audiências, fizeram-se declarações ao País... tudo com carácter de urgência e de natureza muito séria, que ponderosa era a questão em apreço.
Em causa estava, nem mais nem menos, a liberdade de expressão e opinião, o pluralismo, a isenção, a independência dos órgãos de comunicação, tudo coisas que, como é sabido, em Portugal se pratica há 30 anos sem reparos de maior e sem que passe pela cabeça seja de quem for que possa ser de outro modo.
Muito naturalmente, estando as coisas neste ponto, e enquanto ainda se esgrimiam argumentos de um lado ao outro do espectro político-partidário, a televisão pública entendeu levar a cabo um debate sobre a esquerda e a direita em Portugal, onde todos dissessem de sua justiça. Todos, ponto e vírgula. Todos os mesmos de sempre, que são sempre os mesmos, diferentes no acessório e iguais no essencial, modernos e europeus, pragmáticos e muito, muito democráticos.
Do ilustre painel do debate não constava nenhum representante do PCP, nem no palco nem na assistência. Estranho? Talvez não. Depende do ponto de vista. Se se tiver em conta a temática abordada e o contexto em que se realizou o debate, mandava o mais elementar bom senso que desta vez não houvesse exclusões. Se se tiver em conta a praxis, nada mais natural do que a discriminação, useira e vezeira no que ao PCP diz respeito.
Os pluralistas, os democratas, os guardiões do templo - de Belém a São Bento, do Rato ao Caldas, da Travessa do Fala Só à Porcalhota - não deram por nada. Todos diferentes, todos iguais.
Para que conste, a benefício do inventário, a reportagem sobre Mora introduzida a despropósito no debate, a mostrar o bom trabalho dos comunistas nas autarquias, e que nem um reparo suscitou, foi feita expressamente para o programa. Um remendo em peúga sem préstimo ou, para ser mais claro, discriminação premeditada.