Discursos
Na passada segunda-feira o Primeiro-Ministro Santana Lopes falou ao País, o que levanta um problema.
Não porque o que haja dito suscite dúvidas à hora em que foi ouvido – cada intervenção daquele homem tem um absoluto rigor facial: vale exactamente o que naquele momento afirma.
O pior é o depois.
Ou seja, o grande problema está no dia seguinte, nos dias seguintes, às vezes até nas simples horas imediatamente depois, constituindo tudo vastas possibilidades para este nosso Primeiro-Ministro dizer não apenas novas coisas ou coisas diferentes mas, se lhe parecer ensejado – e parece-lho frequentemente -, garantir coisas absolutamente contrárias, flagrantemente opostas ou até brilhantemente irreais, como os famosos concertos de violino de Chopin ou os seus agradecimentos «pessoais» ao escritor Machado de Assis por este, via D. Quixote, lhe ter «ofertado um livro» (para darmos apenas dois exemplos com sustância).
Pelo que nos arriscamos a fazer comentários que, ao saírem a público três dias depois da oração do Primeiro-Ministro, enfrentem desactualizações, contradições e outras reflexões entretanto proferidas pelo próprio - risco de que desde já nos pomos a salvo optando por falar apenas do que é mais ou menos perene (embora nunca indubitável, já se vê) nas intervenções de Pedro Santana Lopes.
Uma, é que, em definitivo, o homem não sabe ler.
Se desta vez não se engasgou ou perdeu na confusão das páginas - como lhe ocorreu nos discursos da tomada de posse ou da apresentação na Assembleia da República -, manifestamente não estava à vontade no fio da leitura, cedendo mesmo ao excesso de animar a monotonia com os fatais meneios do indicador, típicos das oratórias quer autoritárias, quer analfabetas. Só a espaços – quando improvisava buchas – a voz se lhe acendia e o rosto se iluminava, confirmando que na oralidade é que se entende.
Outra, é que continua um mestre na arte da promessa, que nele já chegou ao requinte de dispensar a máscara da verosimilhança com que todos os demagogos credibilizam as suas vigarices: com Santana Lopes o faz-de-conta é literal e já toda a gente prevê à partida que as suas promessas não são para levar a sério: foi assim, há dois meses e tal, com a «desconcentração dos ministérios» ou a «governação por teleconferência», continuou assim na passada segunda-feira com o seu anúncio das descidas no IRS e subidas nas pensões e nos ordenados da Função Pública para o próximo ano, desmentindo despreocupadamente o que toda a gente já garantira - desde o seu ministro das Finanças ao presidente do Banco de Portugal -, ou seja, que não há «margem financeira» nem para descida de impostos nem para aumentos de salários e pensões.
Finalmente, confirmou-se ainda a grande independência de Santana Lopes face aos poderes da República que lhe tutelam a função, ao ser o primeiro Chefe de Governo que, no regime democrático, saltou por cima da Assembleia da República – por acaso a quem deve a legitimação nas suas actuais funções – para apresentar ao País, em directo e em primeira mão nas televisões, o que lá na sua ideia vai ser o próximo Orçamento de Estado.
É claro que o problema maior é um político assim estar à frente da governação do País – e é um problema tão grande que a instabilidade já, notoriamente, se instalou por todo o lado.
Agora só falta é o Presidente da República vê-la...
Não porque o que haja dito suscite dúvidas à hora em que foi ouvido – cada intervenção daquele homem tem um absoluto rigor facial: vale exactamente o que naquele momento afirma.
O pior é o depois.
Ou seja, o grande problema está no dia seguinte, nos dias seguintes, às vezes até nas simples horas imediatamente depois, constituindo tudo vastas possibilidades para este nosso Primeiro-Ministro dizer não apenas novas coisas ou coisas diferentes mas, se lhe parecer ensejado – e parece-lho frequentemente -, garantir coisas absolutamente contrárias, flagrantemente opostas ou até brilhantemente irreais, como os famosos concertos de violino de Chopin ou os seus agradecimentos «pessoais» ao escritor Machado de Assis por este, via D. Quixote, lhe ter «ofertado um livro» (para darmos apenas dois exemplos com sustância).
Pelo que nos arriscamos a fazer comentários que, ao saírem a público três dias depois da oração do Primeiro-Ministro, enfrentem desactualizações, contradições e outras reflexões entretanto proferidas pelo próprio - risco de que desde já nos pomos a salvo optando por falar apenas do que é mais ou menos perene (embora nunca indubitável, já se vê) nas intervenções de Pedro Santana Lopes.
Uma, é que, em definitivo, o homem não sabe ler.
Se desta vez não se engasgou ou perdeu na confusão das páginas - como lhe ocorreu nos discursos da tomada de posse ou da apresentação na Assembleia da República -, manifestamente não estava à vontade no fio da leitura, cedendo mesmo ao excesso de animar a monotonia com os fatais meneios do indicador, típicos das oratórias quer autoritárias, quer analfabetas. Só a espaços – quando improvisava buchas – a voz se lhe acendia e o rosto se iluminava, confirmando que na oralidade é que se entende.
Outra, é que continua um mestre na arte da promessa, que nele já chegou ao requinte de dispensar a máscara da verosimilhança com que todos os demagogos credibilizam as suas vigarices: com Santana Lopes o faz-de-conta é literal e já toda a gente prevê à partida que as suas promessas não são para levar a sério: foi assim, há dois meses e tal, com a «desconcentração dos ministérios» ou a «governação por teleconferência», continuou assim na passada segunda-feira com o seu anúncio das descidas no IRS e subidas nas pensões e nos ordenados da Função Pública para o próximo ano, desmentindo despreocupadamente o que toda a gente já garantira - desde o seu ministro das Finanças ao presidente do Banco de Portugal -, ou seja, que não há «margem financeira» nem para descida de impostos nem para aumentos de salários e pensões.
Finalmente, confirmou-se ainda a grande independência de Santana Lopes face aos poderes da República que lhe tutelam a função, ao ser o primeiro Chefe de Governo que, no regime democrático, saltou por cima da Assembleia da República – por acaso a quem deve a legitimação nas suas actuais funções – para apresentar ao País, em directo e em primeira mão nas televisões, o que lá na sua ideia vai ser o próximo Orçamento de Estado.
É claro que o problema maior é um político assim estar à frente da governação do País – e é um problema tão grande que a instabilidade já, notoriamente, se instalou por todo o lado.
Agora só falta é o Presidente da República vê-la...