A luta de um povo
Desde o dia 16 de Agosto, centenas de pessoas concentram-se, todos os dias, junto ao Centro de Saúde do Redondo, em protesto contra a redução do horário de funcionamento daquele serviço.
O povo unido jamais será vencido
A pacatez de uma das mais bonitas e históricas cidades alentejanas, o Redondo, está a ser esmagada, mais uma vez, pela política que direita insiste em propagar. Para além das baixas reformas, da destruição da agricultura, da falta de emprego, entre muitas outras, agora, a Administração Regional da Saúde (ARS) do Alentejo decidiu alterar o horário do Serviço de Atendimento Permanente (SAP), que deixou de funcionar das 12 às 24 horas para passar a atender das 9 às 21 horas. Os redondenses não concordam com esta decisão e desde esse dia têm-se reunido, todos os dias, diante do centro de saúde, impedindo, infrutiferamente, o encerramento daquela unidade de saúde, no seu novo horário.
Segunda-feira não foi diferente dos restantes dias. Como já vem sendo hábito, motivados pela força da razão, centenas de pessoas, começam a afluir, por volta das 20 horas, em frente ao Hospital Concelhio do Redondo para manifestar o seu desacordo à medida tomada pela ARS.
«O povo unido jamais será vencido» e «A luta continua, a médica não vem para a rua» foram algumas das palavras entoadas, por entre homens e mulheres, jovens e menos jovens, doentes e não doentes, que se concentravam, mais uma vez, para defender um direito há não muito conquistado e que agora lhe querem retirar. Na iniciativa estavam ainda os presidente da Câmara, da Assembleia Municipal, da Junta de Freguesia e vários outros autarcas da CDU.
Quando faltava poucos minutos para as 21 horas, o protesto ficou marcado pela presença, não muito bem vinda, da GNR local que, como já vem sendo hábito, é chamada para encerrar as portas daquela unidade hospitalar. Por entre os apupos às forças de segurança, aconteceu um episódio um tanto ou quanto insólito: uma criança, brincado com os seus amigos, aleijou-se num olho, sendo impedida de tratamento. «Não me deixam entrar. Agora tenho de ir para o Hospital de Évora?», interrogava a mãe, desesperada com o filho ao colo, ao agente da GNR. «Se fosse o seu filho, gostava de ver o que fazia», disse uma outra pessoa, em solidariedade com a jovem mãe.
Em conversa com um dos populares, foi ainda relatado, para ilustrar a falta que aquele equipamento faz, uma história que havia ocorrido há bem pouco tempo atrás: «No outro dia, um senhor já de idade morreu a caminho de Évora. Apenas precisava de soro, veja lá», contou, com um ar triste.
Os protesto terminaram uma hora depois, quando a médica, acompanhada pelos GNRs, saiu das instalações do SAP e se dirigiu para o seu carro. As pessoas, de uma forma tranquila e pacifica, bateram as palmas, demonstrando desta forma o seu descontentamento. No entanto, prometeram, que, até as suas reivindicações serem acolhidas, reunir-se-ão ali todas as noites.
Repressão policial
A Administração Regional de Saúde (ARS) do Alentejo admitiu encerrar as urgências do Centro de Saúde do Redondo por poder tornar-se «extremamente difícil» garantir o seu funcionamento perante os protestos populares diários. Em comunicado, difundido sexta-feira, a ARS repudia as concentrações, garantindo que o novo horário de funcionamento do SAP visava assegurar «uma melhor qualidade dos cuidados de saúde dos utentes».
Opinião diferente tem o presidente da Junta de Freguesia do Redondo, João Portela, que, em conversa com o Avante!, apontou os aspectos negativos desta medida. «A pessoa que precise de cuidados médicos, a partir da 21 horas, vai ter de se deslocar a Évora, e nós sabemos como é que está o serviço de urgências daquele hospital», denunciou o autarca da CDU, sublinhando que, consoante a urgência, «a pessoa é capaz de passar lá uma noite, por uma coisa que no Centro de Saúde do Redondo era capaz de se resolver em cinco ou dez minutos». Mais, «considerando que este concelho não é muito populoso, não podemos esquecer que, em contrapartida, esta região é constituída por muitos idosos, que precisam de muitos cuidados médicos, o que acarreta de facto uma situação diferente de outras zonas do País».
João Portela falou ainda dos incidentes que ocorreram, na passada semana, entre a população e os membros das forças policiais, que segundo contou eram mais do que os manifestantes. «Quando já não estava ninguém no Centro de Saúde, sem razão alguma, apareceram centenas de GNRs e polícias de intervenção com o intuito de acabar com o protesto. Com um megafone, deram cinco minutos para que dispersassem, alegando que a manifestação não estava legalizada. De repente, entram pelo recinto dentro e começaram a afastar brutalmente as pessoas», relatou.
O presidente da Junta do Redondo destacou ainda a presença de vários outros polícias à paisana, com gravadores e máquinas fotográficas, numa tentativa de intimidar os populares. «Já estamos como nos tempos antes do 25 de Abril de 1974. Com pessoas daquelas ali, a população sente-se constrangida, incomodada e isto cria um grande mal estar, uma grande revolta», conclui.
PCP com os utentes
Esta história foi subscrita por Maria Patinha, com quase 70 anos de idade, uma das presentes em todos os protestos, e que assistiu a tudo. «Houve até um policia que me agarrou e eu disse-lhe “Olhe lá, ainda homem nenhum me agarrou a não ser o meu marido, e não quero que mais nenhum me agarre”», contou, dizendo: «Eles não tinham nada que nos pôr dali para fora, aquilo também é nosso. Se estivesse com o primeiro-ministro, mesmo sem forças, dava-lhe um valente puxão de orelhas por nos estar a fazer isto. Tanto que a gente lutou para o 25 de Abril e agora estamos a perder todos os nossos direitos».
Felicitando a população por esta tão nobre luta, em conversa com o Avante!, Angela Sabino, deputada do PCP, eleita pelo círculo de Évora, informou que os comunistas tudo farão para que esta situação seja resolvida o mais rapidamente possível. «Entregámos um requerimento na Assembleia da República, mas até hoje não tivemos resposta. Não satisfeitos com esta situação, a CDU e a Comissão Concelhia do PCP de Évora solicitou uma reunião com a ARS, onde nos foi dito que em relação à diminuição do horário de nocturno, nada estava planeado. O que o Governo tinha decidido é que ia tentar racionalizar os meios para tentar descentralizar alguns serviços», relatou, denunciando: «Mentiram-nos como mentiram à população».
Em sua opinião, a população, não só precisa deste centro de saúde, como do antigo horário de funcionamento. «O Governo não está a resolver os problemas das pessoas, mas sim a ver se conseguem desmobilizar, desacreditar a luta da população».
Segunda-feira não foi diferente dos restantes dias. Como já vem sendo hábito, motivados pela força da razão, centenas de pessoas, começam a afluir, por volta das 20 horas, em frente ao Hospital Concelhio do Redondo para manifestar o seu desacordo à medida tomada pela ARS.
«O povo unido jamais será vencido» e «A luta continua, a médica não vem para a rua» foram algumas das palavras entoadas, por entre homens e mulheres, jovens e menos jovens, doentes e não doentes, que se concentravam, mais uma vez, para defender um direito há não muito conquistado e que agora lhe querem retirar. Na iniciativa estavam ainda os presidente da Câmara, da Assembleia Municipal, da Junta de Freguesia e vários outros autarcas da CDU.
Quando faltava poucos minutos para as 21 horas, o protesto ficou marcado pela presença, não muito bem vinda, da GNR local que, como já vem sendo hábito, é chamada para encerrar as portas daquela unidade hospitalar. Por entre os apupos às forças de segurança, aconteceu um episódio um tanto ou quanto insólito: uma criança, brincado com os seus amigos, aleijou-se num olho, sendo impedida de tratamento. «Não me deixam entrar. Agora tenho de ir para o Hospital de Évora?», interrogava a mãe, desesperada com o filho ao colo, ao agente da GNR. «Se fosse o seu filho, gostava de ver o que fazia», disse uma outra pessoa, em solidariedade com a jovem mãe.
Em conversa com um dos populares, foi ainda relatado, para ilustrar a falta que aquele equipamento faz, uma história que havia ocorrido há bem pouco tempo atrás: «No outro dia, um senhor já de idade morreu a caminho de Évora. Apenas precisava de soro, veja lá», contou, com um ar triste.
Os protesto terminaram uma hora depois, quando a médica, acompanhada pelos GNRs, saiu das instalações do SAP e se dirigiu para o seu carro. As pessoas, de uma forma tranquila e pacifica, bateram as palmas, demonstrando desta forma o seu descontentamento. No entanto, prometeram, que, até as suas reivindicações serem acolhidas, reunir-se-ão ali todas as noites.
Repressão policial
A Administração Regional de Saúde (ARS) do Alentejo admitiu encerrar as urgências do Centro de Saúde do Redondo por poder tornar-se «extremamente difícil» garantir o seu funcionamento perante os protestos populares diários. Em comunicado, difundido sexta-feira, a ARS repudia as concentrações, garantindo que o novo horário de funcionamento do SAP visava assegurar «uma melhor qualidade dos cuidados de saúde dos utentes».
Opinião diferente tem o presidente da Junta de Freguesia do Redondo, João Portela, que, em conversa com o Avante!, apontou os aspectos negativos desta medida. «A pessoa que precise de cuidados médicos, a partir da 21 horas, vai ter de se deslocar a Évora, e nós sabemos como é que está o serviço de urgências daquele hospital», denunciou o autarca da CDU, sublinhando que, consoante a urgência, «a pessoa é capaz de passar lá uma noite, por uma coisa que no Centro de Saúde do Redondo era capaz de se resolver em cinco ou dez minutos». Mais, «considerando que este concelho não é muito populoso, não podemos esquecer que, em contrapartida, esta região é constituída por muitos idosos, que precisam de muitos cuidados médicos, o que acarreta de facto uma situação diferente de outras zonas do País».
João Portela falou ainda dos incidentes que ocorreram, na passada semana, entre a população e os membros das forças policiais, que segundo contou eram mais do que os manifestantes. «Quando já não estava ninguém no Centro de Saúde, sem razão alguma, apareceram centenas de GNRs e polícias de intervenção com o intuito de acabar com o protesto. Com um megafone, deram cinco minutos para que dispersassem, alegando que a manifestação não estava legalizada. De repente, entram pelo recinto dentro e começaram a afastar brutalmente as pessoas», relatou.
O presidente da Junta do Redondo destacou ainda a presença de vários outros polícias à paisana, com gravadores e máquinas fotográficas, numa tentativa de intimidar os populares. «Já estamos como nos tempos antes do 25 de Abril de 1974. Com pessoas daquelas ali, a população sente-se constrangida, incomodada e isto cria um grande mal estar, uma grande revolta», conclui.
PCP com os utentes
Esta história foi subscrita por Maria Patinha, com quase 70 anos de idade, uma das presentes em todos os protestos, e que assistiu a tudo. «Houve até um policia que me agarrou e eu disse-lhe “Olhe lá, ainda homem nenhum me agarrou a não ser o meu marido, e não quero que mais nenhum me agarre”», contou, dizendo: «Eles não tinham nada que nos pôr dali para fora, aquilo também é nosso. Se estivesse com o primeiro-ministro, mesmo sem forças, dava-lhe um valente puxão de orelhas por nos estar a fazer isto. Tanto que a gente lutou para o 25 de Abril e agora estamos a perder todos os nossos direitos».
Felicitando a população por esta tão nobre luta, em conversa com o Avante!, Angela Sabino, deputada do PCP, eleita pelo círculo de Évora, informou que os comunistas tudo farão para que esta situação seja resolvida o mais rapidamente possível. «Entregámos um requerimento na Assembleia da República, mas até hoje não tivemos resposta. Não satisfeitos com esta situação, a CDU e a Comissão Concelhia do PCP de Évora solicitou uma reunião com a ARS, onde nos foi dito que em relação à diminuição do horário de nocturno, nada estava planeado. O que o Governo tinha decidido é que ia tentar racionalizar os meios para tentar descentralizar alguns serviços», relatou, denunciando: «Mentiram-nos como mentiram à população».
Em sua opinião, a população, não só precisa deste centro de saúde, como do antigo horário de funcionamento. «O Governo não está a resolver os problemas das pessoas, mas sim a ver se conseguem desmobilizar, desacreditar a luta da população».