PODRIDÃO

Jorge Cadima

Os EUA são res­pon­sá­veis pela morte de mi­lhões de vi­et­na­mitas

A Câmara de Representantes dos EUA acaba de aprovar, por 323 votos contra 45, sanções económicas contra o Vietname. Um dos promotores desta decisão declarou: «o Vietname tem de sair da idade das trevas da repressão, da brutalidade e do abuso, e abraçar a liberdade, o estado de direito e o respeito pelos direitos humanos fundamentais» (As­so­ci­ated Press, 19.7.04). As sanções que os parlamentares (Republicanos e Democratas) querem impor ao Vietname são o cúmulo da falta de vergonha. Os EUA são responsáveis pela morte de milhões de vietnamitas, numa das mais criminosas guerras de agressão das últimas décadas. Utilizaram contra o povo vietnamita colossais quantidades de armas de toda a espécie. Incluíndo as tais armas de destruição massiva, como o Agente Laranja, cujas consequências ainda hoje se fazem sentir sob a forma de milhares de vítimas de malformações congénitas e no envenenamento de vastas zonas do país. A repressão, feita directamente pelas tropas de ocupação dos EUA, ou por interpostos regimes ditatoriais, foi responsável por centenas de milhares de mortos e torturados. Os nomes do Programa Phoenix ou da prisão de Con Son são disso simbólicos. Que descaramento falar agora em sanções ao Vietname libertado por «repressão, brutalidade e abusos»!

Mas o descaramento não está apenas no passado. O conceituado jornalista Seymour Hersh, da revista New Yorker, falou recentemente das prisões iraquianas perante o Congresso Anual da União Americana das Liberdades Cívicas (ACLU): «Vocês não co­nhecem al­gumas das pi­ores coisas que lá acon­te­ceram, OK? Estão gra­vadas em vídeo. [...] Há mu­lheres que trans­mitem men­sa­gens para fora da prisão a im­plorar que as ve­nham matar, por causa da­quilo que lá se passou. E, ba­si­ca­mente o que acon­teceu é que mu­lheres foram presas com jo­vens ra­pazes, cri­anças. E há casos, que estão gra­vados, desses ra­pazes a serem so­do­mi­zados, com as câ­maras a filmar. O pior é o som dos gritos desses ra­pazes». Seymour Hersh é um dos mais respeitados e bem informados jornalistas dos EUA. Ganhou o mais importante prémio de jornalismo dos EUA, o Pulitzer, pelas suas denúncias do massacre norte-americano na aldeia vietnamita de My Lai. Mas estas suas declarações perante a (igualmente famosa) ACLU não foram reproduzidas por nenhum dos principais órgãos de informação. Têm medo da sua própria podridão.

Igualmente ignorada foi esta notícia do jornal australiano Sidney Mor­ning He­rald (17.7.04): «Iyad Al­lawi, o novo Pri­meiro Mi­nistro do Iraque, puxou da pis­tola e exe­cutou seis ale­gados in­sur­rectos numa es­quadra da po­lícia de Bag­dade [...] de acordo com duas pes­soas que afirmam ter tes­te­mu­nhado as exe­cu­ções». As execuções sumárias, feitas na presença de quatro americanos, mereceram, segundo as testemunhas, os parabéns do “Ministro do Interior” iraquiano. «Uma das tes­te­mu­nhas afirmou que antes de matar os presos, o Dr. Al­lawi disse aos que o ro­de­avam que queria en­viar um sinal claro à po­lícia sobre como se devia lidar com os in­sur­rectos». Naturalmente que o “Dr. Allawi” nega tudo. Mas é conhecido o seu envolvimento em crimes anteriores, quer quando estava ao serviço de Saddam Hussein, quer quando se virou contra ele (mas sempre, sempre, ao serviço dos EUA). Chegará o dia em que também o “Dr. Allawi” deixará de ser útil aos mafiosos que governam nos EUA. Talvez então oiçamos a confirmação desta notícia.

E há ainda a notícia de que o governo dos EUA encomendou legislação especial que lhe permitirá suspender o processo eleitoral em caso de “grave ataque terrorista”, ao mesmo tempo que o director da CIA, John McLaughlin, afirma ter «informações muito, muito sólidas» de que terroristas preparam «algo em grande escala» contra os EUA. Não são de subestimar os perigos de que uma classe dirigente criminosa e aventureirista possa jogar a cartada da provocação pré-eleitoral para reafirmar o seu poder na maior potência imperialista do planeta.


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