EUA apostam em novas armas nucleares
O Senado dos EUA aprovou a semana passada o novo orçamento para Defesa, num total de 447 mil milhões de dólares. As armas nucleares contam da lista.
«EUA abrem as portas ao desenvolvimento de novas armas nucleares»
Os EUA violam flagrantemente o Tratado de Não-Proliferação Nuclear ao prosseguirem o desenvolvimento de novas armas nucleares. Na passada semana, o Senado aprovou o novo orçamento para Defesa, um total de 447 mil milhões de dólares, que inclui despesas para o programa de defesa contra mísseis (a nova versão da 'Guerra das Estrelas'), e para o desenvolvimento dos 'destruidores de bunkers' (conhecidos em inglês como «Robust Nuclear Penetrators», ou informalmente como «Bunker Busters») e de ‘mini-nukes' (designados em inglês como «Advance Nuclear Weapons Concepts» e referidos como «low-yield battlefield nuclear weapons»).
O programa faz parte da estratégia nuclear agressiva da administração Bush, delineada na Revisão da Postura Nuclear, divulgada à imprensa no início de 2002, na qual é contemplado o uso de armas nucleares contra inúmeros países.
As novas armas nucleares, segundo a administração Bush, terão efeitos «toleráveis» e são «necessárias» para destruir bunkers subterrâneos, que não são destruídos por armas convencionais.
Armas de destruição maciça
A verdade é que os 'destruidores de bunkers' têm o efeito de armas de destruição maciça. Para evitar a produção de uma nuvem de radioactividade seria necessário que uma bomba de uma kilotonelada (um décimo da bomba de Hiroshima) penetrasse 76 metros antes de explodir. Presentemente, os cones de míssil mais resistentes permitem uma penetração de apenas dez metros. Se uma tal arma for usada contra um bunker contendo armas de destruição maciça - um cenário admitido pela administração Bush - a explosão poderá dispersar os agentes químicos ou biológicos para a superfície.
A administração Bush argumenta, por outro lado, que os seus adversários não são intimidados por armas nucleares convencionais, sendo necessário uma arma nuclear, como os 'mini-nukes', de menos de 5 kilotoneladas, que os líderes estrangeiros acreditem possa vir a ser usada num cenário de guerra. Mas mesmo uma arma nuclear de baixo rendimento tem efeitos destrutivos duradouros demasiado terríveis.
Corrida aos armamentos
Estrategicamente, tais armas são inúteis contra organizações terroristas dispersas e móveis, como Al’Qaeda. Mas devido ao seu menor tamanho, os 'mini-nukes' serão mais susceptíveis de roubo por terroristas. Por outro lado, países «inimigos» serão coagidos a desenvolver as suas próprias armas nucleares, para atingirem o estado de détente com os EUA.
Ao acabar com a divisão entre armas nucleares e convencionais, os EUA destroem décadas de relativo sucesso de não proliferação e redução de arsenais, e abrem as portas ao desenvolvimento de novas armas nucleares por parte de outros países. Existem indícios de que a Rússia e a Índia procuram também desenvolver armas nucleares com menos de uma kilotonelada.
Mohamed El Baradei, director geral da Agência de Energia Atómica Internacional, disse recentemente que não se «surpreenderia se víssemos mais países adquirindo armas nucleares».
O regresso do terror
«Pude ver uma nuvem castanha horizontal envolvendo a cidade. Do centro, saltava uma coluna vertical, efervescendo cores do arco-íris - roxos, laranjas, vermelhos -, cores cujo brilho havia visto apenas uma vez e nunca veria de novo». Foi assim que Charles Sweeney descreveu a explosão da bomba atómica em Nagasaki a 9 de Agosto, 1945. Setenta mil pessoas morreram instantaneamente.
Sweeney era então o jovem piloto do bombardeiro B-29 e defendeu o bombardeamento até o seu falecimento no passado dia 18. Mas manteve esperança de que a sua missão fosse a última desse tipo.
Durante a Guerra Fria, um delicado equilíbrio de poderes foi mantido entre potências nucleares. Devido ao seu tremendo potencial destrutivo e à inevitabilidade de destruição mútua, a posse de arsenais nucleares contribuiu para um clima de détente.
Finda a Guerra Fria, o perigo nuclear passou brevemente para segundo plano, apenas para regressar num novo contexto.
O país detentor do maior arsenal nuclear e até à data o único que fez uso destas armas contra civis, os EUA, atemoriza agora a sua população com a possibilidade de organizações e estados terroristas estarem a desenvolver e poderem fazer uso de armas nucleares. Esse foi um dos argumentos centrais na caminhada para a guerra contra o Iraque. Bush arguiu que contra um inimigo sem escrúpulos e «doido», a détente não funciona.
Os factos porém demonstram o contrário. Não foi só o Iraque de Saddam que foi contido; o ataque «preventivo» ao Iraque mostrou a outros países apontados como fazendo parte do «Eixo do Mal», como a Coreia do Norte e o Irão, que para evitar a invasão pelos EUA convém possuir armas nucleares. Com as portas diplomáticas fechadas, a Coreia do Norte reanimou o seu programa nuclear, e a resposta tímida e evasiva dos EUA confirmou o valor estratégico da posse de arsenal nuclear.
O programa faz parte da estratégia nuclear agressiva da administração Bush, delineada na Revisão da Postura Nuclear, divulgada à imprensa no início de 2002, na qual é contemplado o uso de armas nucleares contra inúmeros países.
As novas armas nucleares, segundo a administração Bush, terão efeitos «toleráveis» e são «necessárias» para destruir bunkers subterrâneos, que não são destruídos por armas convencionais.
Armas de destruição maciça
A verdade é que os 'destruidores de bunkers' têm o efeito de armas de destruição maciça. Para evitar a produção de uma nuvem de radioactividade seria necessário que uma bomba de uma kilotonelada (um décimo da bomba de Hiroshima) penetrasse 76 metros antes de explodir. Presentemente, os cones de míssil mais resistentes permitem uma penetração de apenas dez metros. Se uma tal arma for usada contra um bunker contendo armas de destruição maciça - um cenário admitido pela administração Bush - a explosão poderá dispersar os agentes químicos ou biológicos para a superfície.
A administração Bush argumenta, por outro lado, que os seus adversários não são intimidados por armas nucleares convencionais, sendo necessário uma arma nuclear, como os 'mini-nukes', de menos de 5 kilotoneladas, que os líderes estrangeiros acreditem possa vir a ser usada num cenário de guerra. Mas mesmo uma arma nuclear de baixo rendimento tem efeitos destrutivos duradouros demasiado terríveis.
Corrida aos armamentos
Estrategicamente, tais armas são inúteis contra organizações terroristas dispersas e móveis, como Al’Qaeda. Mas devido ao seu menor tamanho, os 'mini-nukes' serão mais susceptíveis de roubo por terroristas. Por outro lado, países «inimigos» serão coagidos a desenvolver as suas próprias armas nucleares, para atingirem o estado de détente com os EUA.
Ao acabar com a divisão entre armas nucleares e convencionais, os EUA destroem décadas de relativo sucesso de não proliferação e redução de arsenais, e abrem as portas ao desenvolvimento de novas armas nucleares por parte de outros países. Existem indícios de que a Rússia e a Índia procuram também desenvolver armas nucleares com menos de uma kilotonelada.
Mohamed El Baradei, director geral da Agência de Energia Atómica Internacional, disse recentemente que não se «surpreenderia se víssemos mais países adquirindo armas nucleares».
O regresso do terror
«Pude ver uma nuvem castanha horizontal envolvendo a cidade. Do centro, saltava uma coluna vertical, efervescendo cores do arco-íris - roxos, laranjas, vermelhos -, cores cujo brilho havia visto apenas uma vez e nunca veria de novo». Foi assim que Charles Sweeney descreveu a explosão da bomba atómica em Nagasaki a 9 de Agosto, 1945. Setenta mil pessoas morreram instantaneamente.
Sweeney era então o jovem piloto do bombardeiro B-29 e defendeu o bombardeamento até o seu falecimento no passado dia 18. Mas manteve esperança de que a sua missão fosse a última desse tipo.
Durante a Guerra Fria, um delicado equilíbrio de poderes foi mantido entre potências nucleares. Devido ao seu tremendo potencial destrutivo e à inevitabilidade de destruição mútua, a posse de arsenais nucleares contribuiu para um clima de détente.
Finda a Guerra Fria, o perigo nuclear passou brevemente para segundo plano, apenas para regressar num novo contexto.
O país detentor do maior arsenal nuclear e até à data o único que fez uso destas armas contra civis, os EUA, atemoriza agora a sua população com a possibilidade de organizações e estados terroristas estarem a desenvolver e poderem fazer uso de armas nucleares. Esse foi um dos argumentos centrais na caminhada para a guerra contra o Iraque. Bush arguiu que contra um inimigo sem escrúpulos e «doido», a détente não funciona.
Os factos porém demonstram o contrário. Não foi só o Iraque de Saddam que foi contido; o ataque «preventivo» ao Iraque mostrou a outros países apontados como fazendo parte do «Eixo do Mal», como a Coreia do Norte e o Irão, que para evitar a invasão pelos EUA convém possuir armas nucleares. Com as portas diplomáticas fechadas, a Coreia do Norte reanimou o seu programa nuclear, e a resposta tímida e evasiva dos EUA confirmou o valor estratégico da posse de arsenal nuclear.