A coerência do senhor Presidente

José Casanova
A decisão do Presidente da República de, em bandeja de prata, servir o Governo a Santana Lopes e a Paulo Portas não surpreende. Pelo contrário: tal decisão encaixa de forma perfeita na normal prática presidencial –particularmente na que respeita ao actual mandato - havendo que relevar, isso sim, a enorme coerência demonstrada por Jorge Sampaio no exercício das suas funções presidenciais. Com efeito, multiplicam-se os exemplos demonstrativos do profundo apego de Jorge Sampaio a decisões da família da agora tomada. Relembremos: há cerca de dois anos (precisamente no dia 25 de Abril de 2002), mal o PSD e o CDS juntaram os trapinhos e ficaram em maioria na Assembleia, o PR incitou a dita Assembleia a levar por diante a «reforma do sistema político» (Nada melhor do que uma maioria de direita/extrema-direita para proceder a reformas democráticas, há-de ter pensado, no quadro da sua coerência, o Supremo Magistrado da Nação). Os incitados não se fizeram rogados e, um ano depois (precisamente no dia 25 de Abril de 2003), com o apoio dos deputados do PS (que, sublinhe-se, nestas matérias essenciais estão sempre, sempre com a direita), a Assembleia aprovou duas «leis» sinistras, as chamadas «leis dos partidos»: dois disparos à queima-roupa, com sinais de conteúdo fascizante e que têm como alvo exclusivo e cirúrgico o PCP e constituem um insulto a Abril, à democracia e à liberdade. O Presidente da República veio a público informar que considerava as ditas «leis» positivas. Ora, pergunto: tal postura é ou não é coerente com a entrega do Governo ao duo Santana/Portas? E respondo: claro que é.
E que dizer da coerência entre essa entrega do Governo e a entrega recente de uma condecoração a Frank Carlucci? Vejamos: o par Santana/Portas é o que é; Carlucci é um cavalheiro com largo currículo na luta contra a democracia e na história dos crimes contra a humanidade. Tendo iniciado a sua brilhante carreira no Congo ex-belga – onde teve papel de destaque na organização do golpe que levou ao assassinato de milhares de pessoas, entre as quais o primeiro primeiro-ministro eleito em todo a África: Patrice Lumumba –, o prestigiado criminoso de guerra cumpriu, depois, tarefas igualmente sangrentas e antidemocráticas no Brasil, no Chile e em Portugal. Portanto, só razões para o PR dar o ouro ao bandido, como fez – e para, cheio de coerência, dar o Governo a quem deu.


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