Opção pela direita

Jorge Cordeiro
Dir-se-ia que a crise acabou. A direita suspira de alívio, os grandes grupos económicos exultam, a UGT em descanso por dever cumprido, Jardim de regresso á ilha, os Luises Delgados cá da praça postos em sossego depois do dever que os mandaram cumprir. Olhando por esse lado, o país parece ter voltado á normalidade, os «golpes de estado» (o que ameaçava o PSD segundo Ferreira Leite, e o que pairava sobre o país segundo João Jardim) afastados. E, conquista suprema, a estabilidade — essa oitava maravilha do mundo e exaltante desígnio nacional — finalmente regressada. Registe-se na ocasião os que aplaudem e as razões porque fundadamente o fazem. Não porque tenha triunfado a estabilidade do país, mas porque foi garantida a estabilidade dos seus interesses económicos. Não por qualquer razão sobre o alegado respeito para com o programa sufragado há dois anos mas por razão de quererem ver assegurado o prosseguimento de uma política que, colocadas de lado as promessas eleitorais, melhor cumpre na ocasião o caderno de encargos do grande capital.
A estabilidade não é um conceito neutro, despido de conteúdo e á margem dos interesses de classe a quem, de momento, serve. Aquela estabilidade que agora triunfou, a que os do costume identificavam como sinónimo do prosseguimento da desastrosa política de Durão Barroso, não é seguramente a estabilidade a que a esmagadora maioria dos portugueses e portuguesas aspiravam. Será seguramente a estabilidade dos interesses instalados, da acumulação brutal de lucros à conta da especulação financeira e do leilão do património nacional, da oportunidade de negócio com a mercantilização das funções sociais do Estado. Mas não é certamente a estabilidade a que, justa e legitimamente aspiravam, os milhares de portugueses confrontados com a perda progressiva do seu poder de compra, os baixos salários, as reformas de miséria, o encerramento das empresas ou a expropriação de direitos.
Quem agora, como o Presidente da República, decidiu por uma contra a outra, não pode fugir a esse julgamento: a de ter decidido em nome dos mais poderosos, dos interesses económicos dominantes e das ambições inesgotadas de uma direita que, agora revigorada com o apoio e legitimidade recebidas às suas políticas, mais arrogante e perigosa se assumirá; a de ter decidido pela instabilidade da imensa maioria dos portugueses em nome e a favor da estabilidade de interesses de uns poucos; a de ter decidido por dar a mão á direita num momento em que, independentemente das motivações diversas que uniam um vasto campo democrático de forças e personalidades, ela se encontrava isolada e derrotada.


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