À coca

Aurélio Santos
Os abutres nem estavam à espera. Estupefactos da sorte a cair-lhes nos braços (ou já estavam à espera?), incrédulos ainda da vitória de bolso - e da Bolsa - que se contiveram com frases de conveniência tiradas à medida da ocasião: um presidente eleito pela esquerda aderindo, em decisão inédita, a uma coligação de direita!
Mas disse que ficava à coca.
Responsabilizou-se pelo agravamento da situação política e social. Mais: solidarizou-se com esse agravamento e suas consequências previsíveis. As lágrimas vertidas ante alguns casos mais pungentes apagaram-se no lenço.
Mas disse que ficava à coca.
Sabia, até por ter ouvido dizer por aí, que o eleitorado não votou na política governamental destes dois anos. Votou em promessas não cumpridas. E desejava eleições para mudança de política. Ouviu cérebros de fio a pavio que o aconselharam. Foi só um faz de conta?
Sempre dizendo que estava à coca.
E a malta, à espera, dizia à boca cheia que era impossível haver regular funcionamento das instituições democráticas quando os problemas mais graves se agravaram e se vão agravando dia a dia.
Mas se ele estava à coca, tudo se poderia arranjar...
O pior foi quando ele, naquela noite negra, veio dizer que o voto de há dois anos é que era legítimo, válido, perfeito, servia muito bem para formar novo governo, nem eram necessárias novas eleições. A política seguida era boa e devia continuar.
Mais acrescentou que ficava à coca. Livrassem-se estes novos governantes de alterar as políticas dos anteriores! E acentuou que na Europa, na política externa, na defesa, na justiça, ou continuava tudo como tem sido feito até agora ou ele, que fica à coca, então sim, utiliza todos os seus poderes constitucionais para repor tudo nos conformes...
Ai! Ele até era respeitado, mas agora qualquer decisão, boa (ah!) ou má que o governo venha a tomar, colar-se-lhe-á à pele. Fez uma tatuagem indelével que ninguém de bom senso conseguirá apagar. Entre as duas setas atravessou num coração a frase comovente: «amor coligado».
E os abutres acariciam-lhe respeitosamente o punho direito tatuado, esperando assinaturas em documentos burocráticos para a «continuidade na involução», enquanto murmuram gravemente: «Assim é que é, vá ficando à coca»...
E andou-se tanto a falar de auto-estima...
Até agora, muita gente dizia que vivíamos numa república de bananas. A partir desta transmissão dinástica, em que o ex-1.º designa o sucessor, bem podem dizer que estamos numa monarquia de bananas.


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