Vendida um dia depois de Abril
Alvo da cobiça do capital privado, a Portucel passou a estar maioritariamente nas suas mãos após a venda no passado dia 26 – por sinal, um dia após o 30.º aniversário da Revolução de Abril – de mais trinta por cento do capital social.
O anúncio foi feito conjuntamente pelos ministros das Finanças e da Economia. O Governo fica agora detentor de apenas 25,72 por cento das acções da empresa.
Integrada no sector da produção de polpa e pasta de papel, dedica-se à exploração do eucalipto que tantos problemas ambientais tem causado ao nosso país devido à sua implantação extensiva, responsável pela seca de lençóis friáticos e dos terrenos onde é cultivado. O seu crescimento rápido é uma das causas do alastrar da monocultura desta espécie perigosa para o equilíbrio ambiental, mas bastante lucrativa para o sector das celuloses.
A passagem deste património para mãos privadas era uma velha aspiração do Governo, assumida pelo ministro da Economia, Carlos Tavares, para quem este sector não justifica a presença do Estado. Manifestou, inclusivamente, o desejo de a Portucel ter uma gestão privada «tão depressa quanto possível». Antes desta alienação, o principal accionista privado era a Sonae do magnata português, Belmiro de Azevedo. Segundo o Diário Económico de 27 de Abril, a escolha da Semapa, dominada pela família Queiroz Pereira, deveu-se ao facto de se tratar de um grupo privado português.
Detentora de cem por cento das cimenteiras Secil e Cimianto, a Semapa possui ainda 9 por cento da Cimpor e a Enersis.
À escolha da Semapa para a aquisição dos 30 por cento agora vendidos não foi alheio o seu comprometimento em lançar uma OPA – Oferta Pública de Aquisição – sobre a totalidade da Portucel. Já no princípio de Março, a Sonae tinha garantido a venda das suas participações na empresa, caso o concurso fosse ganho pela Semapa, a Mondi ou a Domtar. A 2 de Março, anunciou que venderia os seus 25 por cento do capital da Portucel, caso o vencedor se comprometesse em avançar com a OPA que se prevê acontecer em Junho próximo.
Por este motivo, foi evidente, ao longo de todo o processo, a cedência do Governo PSD/PP ao Grupo Sonae, que foi impondo condições para garantir que o comprador dos 30 por cento assumisse também o compromisso de adquirir as posições de Belmiro na Portucel. Prova disso mesmo é o facto de a proposta da Semapa ter estado sempre dependente, desde o início do concurso, de um acordo à priori, com a Sonae.
Assim que em Fevereiro anunciou a possibilidade de vir a alienar a sua parte na Portucel, as acções da Sonae atingiram um recorde máximo desde Junho de 2001, à semelhança da Portucel que alcançou um novo máximo, desde Abril de 2002.
A Semapa comprometeu-se a prosseguir com a reestruturação/integração da Portucel Soporcel, e diz ter investimentos previstos para esta área na ordem dos 700 milhões de euros. Neste momento encontra-se uma fábrica em fase de construção avaliada em cerca de 400 milhões. Comprometeu-se ainda a reduzir a dívida da empresa, actualmente de mil milhões de euros.
Com esta venda, o Estado encaixou cerca de 334 milhões de euros.
Consolidar para vender
Em 2003, segundo informação disponível no sítio do Grupo na Internet, a empresa viu os seus resultados líquidos chegar aos 66,8 milhões de euros e um volume de negócios que ultrapassou os mil milhões. Os resultados financeiros melhoraram em cerca de 13 milhões tendo o endividamento líquido reduzido em 70,7 milhões.
Também com a participação do Estado, ou seja, de todos nós, a Portucel Soporcel adquiriu a mais moderna máquina de papel do mundo que se prevê entrar em actividade no Verão de 2006. A expectativa da administração passa por tornar a empresa detentora de aproximadamente 20 por cento do mercado europeu, com uma capacidade de crescimento anual na ordem das 500 mil toneladas.
Salienta-se que a privatização agora em curso surge após, nas últimas duas décadas, a empresa ter conseguido tornar-se líder europeia na produção de papel de escritório.
O PCP e a Portucel
Determinados na defesa do património nacional, da sua riqueza e diversidade e de um sector empresarial do Estado forte e determinante nas opções económicas dos governos, o PCP tem um papel insubstituível na consciencialização dos trabalhadores para a defesa dos seus direitos.
Assim foi nos tempos do fascismo. Foi assim nos tempos da nacionalização. Foi também ao longo de todas as fases de alienação de parcelas consideráveis da Portucel Soporcel e é agora, quando a maior parte do seu capital passou para mãos privadas.
Vicente Merendas lembrou que, apesar das dificuldades, têm-se dado passos importantes no sentido do reforço da célula e da actividade partidária através da forma esclarecida como tem feito passar a sua mensagem: «o PCP sempre defendeu uma política de desenvolvimento sustentado exigente com o aproveitamento adequado das riquezas naturais com uma adequada gestão dos solos e o tratamento dos efluentes da indústria da pasta do papel. Trata-se de uma indústria de extrema importância para o País e é um dos sectores estratégicos fundamentais para o desenvolvimento da economia nacional. Tudo isso está posto em causa através desta nova fase de privatização», afirmou Vicente Merendas.
O PCP considera que a alienação em curso vai acabar por facilitar a entrega a grupos estrangeiros, «agravando ainda mais a subordinação da economia portuguesa ao capital estrangeiro, retirando ao Estado o poder de decisão relativo a aspectos fundamentais de orientação estratégica para o sector».
Reforçar o Partido
O PCP pretende reforçar a sua acção e influência na empresa através de um plano definido pela célula do Partido, dando prioridade à consciencialização sobre as consequências negativas da privatização da empresa que, «mais cedo ou mais tarde, far-se-ão sentir os efeitos sobre os trabalhadores», considerou Vicente Merendas. É muito importante dar uma maior projecção do Partido dentro da empresa, motivo pelo qual decidiram criar um boletim de célula.
O boletim, chamado «Com fibra», dá a conhecer a actividade do Partido e dos seus militantes em defesa do património, dos postos de trabalho e dos direitos dos trabalhadores. Na edição de Fevereiro revela uma recente iniciativa do Grupo Parlamentar comunista em defesa da Portucel Soporcel. Trata-se de um informe resumido da actividade da célula, criado com o propósito de recrutar novos militantes e dar a conhecer as posições dos comunistas da empresa.
Acção parlamentar
No passado dia 6 de Fevereiro, o Grupo parlamentar comunista apresentou, pela mão do deputado Lino de Carvalho, um requerimento sobre a privatização, onde recordou as anteriores tentativas de alienação. O PCP considera a manutenção da Portucel no sector público motivo de interesse nacional, até porque integra o sector florestal onde o País pode ter uma política de fileira. Por outro lado, os comunistas alertam para a falta de garantias respeitantes à manutenção dos postos de trabalho. Perante esta situação, o PCP perguntou ao Governo por que insistiu na privatização por meras razões de encaixe financeiro do Estado, que garantias dá o Governo para que a gestão da Portucel privada se integre numa estratégia nacional de salvaguarda da política de fileira no sector florestal, que garantias são dadas para que a empresa não passe para as mãos de multinacionais ou outras que possam transferir para fora do País os centros estratégicos de decisão da empresa e que garantias são dadas aos trabalhadores relativamente aos seus empregos e à manutenção dos seus direitos.
Já no dia 11 do mesmo mês, o mesmo deputado quis saber qual o valor por que foi avaliada a empresa, qual o valor patrimonial da Soporcel quando foi integrada na Portucel e qual a cotação em bolsa das acções nominativas da Portucel SA, à data da privatização.
Integrada no sector da produção de polpa e pasta de papel, dedica-se à exploração do eucalipto que tantos problemas ambientais tem causado ao nosso país devido à sua implantação extensiva, responsável pela seca de lençóis friáticos e dos terrenos onde é cultivado. O seu crescimento rápido é uma das causas do alastrar da monocultura desta espécie perigosa para o equilíbrio ambiental, mas bastante lucrativa para o sector das celuloses.
A passagem deste património para mãos privadas era uma velha aspiração do Governo, assumida pelo ministro da Economia, Carlos Tavares, para quem este sector não justifica a presença do Estado. Manifestou, inclusivamente, o desejo de a Portucel ter uma gestão privada «tão depressa quanto possível». Antes desta alienação, o principal accionista privado era a Sonae do magnata português, Belmiro de Azevedo. Segundo o Diário Económico de 27 de Abril, a escolha da Semapa, dominada pela família Queiroz Pereira, deveu-se ao facto de se tratar de um grupo privado português.
Detentora de cem por cento das cimenteiras Secil e Cimianto, a Semapa possui ainda 9 por cento da Cimpor e a Enersis.
À escolha da Semapa para a aquisição dos 30 por cento agora vendidos não foi alheio o seu comprometimento em lançar uma OPA – Oferta Pública de Aquisição – sobre a totalidade da Portucel. Já no princípio de Março, a Sonae tinha garantido a venda das suas participações na empresa, caso o concurso fosse ganho pela Semapa, a Mondi ou a Domtar. A 2 de Março, anunciou que venderia os seus 25 por cento do capital da Portucel, caso o vencedor se comprometesse em avançar com a OPA que se prevê acontecer em Junho próximo.
Por este motivo, foi evidente, ao longo de todo o processo, a cedência do Governo PSD/PP ao Grupo Sonae, que foi impondo condições para garantir que o comprador dos 30 por cento assumisse também o compromisso de adquirir as posições de Belmiro na Portucel. Prova disso mesmo é o facto de a proposta da Semapa ter estado sempre dependente, desde o início do concurso, de um acordo à priori, com a Sonae.
Assim que em Fevereiro anunciou a possibilidade de vir a alienar a sua parte na Portucel, as acções da Sonae atingiram um recorde máximo desde Junho de 2001, à semelhança da Portucel que alcançou um novo máximo, desde Abril de 2002.
A Semapa comprometeu-se a prosseguir com a reestruturação/integração da Portucel Soporcel, e diz ter investimentos previstos para esta área na ordem dos 700 milhões de euros. Neste momento encontra-se uma fábrica em fase de construção avaliada em cerca de 400 milhões. Comprometeu-se ainda a reduzir a dívida da empresa, actualmente de mil milhões de euros.
Com esta venda, o Estado encaixou cerca de 334 milhões de euros.
Consolidar para vender
Em 2003, segundo informação disponível no sítio do Grupo na Internet, a empresa viu os seus resultados líquidos chegar aos 66,8 milhões de euros e um volume de negócios que ultrapassou os mil milhões. Os resultados financeiros melhoraram em cerca de 13 milhões tendo o endividamento líquido reduzido em 70,7 milhões.
Também com a participação do Estado, ou seja, de todos nós, a Portucel Soporcel adquiriu a mais moderna máquina de papel do mundo que se prevê entrar em actividade no Verão de 2006. A expectativa da administração passa por tornar a empresa detentora de aproximadamente 20 por cento do mercado europeu, com uma capacidade de crescimento anual na ordem das 500 mil toneladas.
Salienta-se que a privatização agora em curso surge após, nas últimas duas décadas, a empresa ter conseguido tornar-se líder europeia na produção de papel de escritório.
O PCP e a Portucel
Determinados na defesa do património nacional, da sua riqueza e diversidade e de um sector empresarial do Estado forte e determinante nas opções económicas dos governos, o PCP tem um papel insubstituível na consciencialização dos trabalhadores para a defesa dos seus direitos.
Assim foi nos tempos do fascismo. Foi assim nos tempos da nacionalização. Foi também ao longo de todas as fases de alienação de parcelas consideráveis da Portucel Soporcel e é agora, quando a maior parte do seu capital passou para mãos privadas.
Vicente Merendas lembrou que, apesar das dificuldades, têm-se dado passos importantes no sentido do reforço da célula e da actividade partidária através da forma esclarecida como tem feito passar a sua mensagem: «o PCP sempre defendeu uma política de desenvolvimento sustentado exigente com o aproveitamento adequado das riquezas naturais com uma adequada gestão dos solos e o tratamento dos efluentes da indústria da pasta do papel. Trata-se de uma indústria de extrema importância para o País e é um dos sectores estratégicos fundamentais para o desenvolvimento da economia nacional. Tudo isso está posto em causa através desta nova fase de privatização», afirmou Vicente Merendas.
O PCP considera que a alienação em curso vai acabar por facilitar a entrega a grupos estrangeiros, «agravando ainda mais a subordinação da economia portuguesa ao capital estrangeiro, retirando ao Estado o poder de decisão relativo a aspectos fundamentais de orientação estratégica para o sector».
Reforçar o Partido
O PCP pretende reforçar a sua acção e influência na empresa através de um plano definido pela célula do Partido, dando prioridade à consciencialização sobre as consequências negativas da privatização da empresa que, «mais cedo ou mais tarde, far-se-ão sentir os efeitos sobre os trabalhadores», considerou Vicente Merendas. É muito importante dar uma maior projecção do Partido dentro da empresa, motivo pelo qual decidiram criar um boletim de célula.
O boletim, chamado «Com fibra», dá a conhecer a actividade do Partido e dos seus militantes em defesa do património, dos postos de trabalho e dos direitos dos trabalhadores. Na edição de Fevereiro revela uma recente iniciativa do Grupo Parlamentar comunista em defesa da Portucel Soporcel. Trata-se de um informe resumido da actividade da célula, criado com o propósito de recrutar novos militantes e dar a conhecer as posições dos comunistas da empresa.
Acção parlamentar
No passado dia 6 de Fevereiro, o Grupo parlamentar comunista apresentou, pela mão do deputado Lino de Carvalho, um requerimento sobre a privatização, onde recordou as anteriores tentativas de alienação. O PCP considera a manutenção da Portucel no sector público motivo de interesse nacional, até porque integra o sector florestal onde o País pode ter uma política de fileira. Por outro lado, os comunistas alertam para a falta de garantias respeitantes à manutenção dos postos de trabalho. Perante esta situação, o PCP perguntou ao Governo por que insistiu na privatização por meras razões de encaixe financeiro do Estado, que garantias dá o Governo para que a gestão da Portucel privada se integre numa estratégia nacional de salvaguarda da política de fileira no sector florestal, que garantias são dadas para que a empresa não passe para as mãos de multinacionais ou outras que possam transferir para fora do País os centros estratégicos de decisão da empresa e que garantias são dadas aos trabalhadores relativamente aos seus empregos e à manutenção dos seus direitos.
Já no dia 11 do mesmo mês, o mesmo deputado quis saber qual o valor por que foi avaliada a empresa, qual o valor patrimonial da Soporcel quando foi integrada na Portucel e qual a cotação em bolsa das acções nominativas da Portucel SA, à data da privatização.