A tortura
O Exército dos EUA anunciou que «repreendeu» os sete oficiais envolvidos em casos de abuso de prisioneiros iraquianos na cadeia de Abu Ghraib, em Bagdad, acrescentando que, para seis desses oficiais, a repreensão implicará «provavelmente» a expulsão das Forças Armadas.
(Evidencia-se, na crueza destes factos, por que se recusou a administração Bush a subscrever a criação do Tribunal Penal Internacional: quer impunidade total para os seus crimes.)
Segundo o Exército dos EUA, estas «repreensões» são o que «de mais severo» está previsto na lei administrativa militar dos EUA.
É pouco.
Tão escandalosamente pouco, como é escandalosamente muito o que se passou em Bagdad.
Rebobinemos o filme.
A administração Bush desencadeou a ofensiva militar contra o Iraque de Saddam Hussein com dois objectivos afirmados: o de encontrar e destruir «armas de destruição maciça» e o de substituir um regime tirânico e opressor por uma «democracia de tipo ocidental».
Vencida a «guerra» em poucas semanas – onde, estranhamente, o apregoado exército de Saddam quase se não viu e, como se esperava, a avassaladora avalancha bélica norte-americana tudo soterrou -, o mundo inteiro ficou suspenso do que se seguiria.
E o que se seguiu é, simplesmente, inacreditável.
Em relação às propaladas «armas de destruição maciça» - tão apregoadas, que o secretário de Estado Colin Powell as andou a descrever antecipadamente, de ponteiro em riste e filmes animados, num périplo europeu de monumental grotesco -, ninguém as viu ou encontrou, resumindo-se agora o imbróglio em determinar, nos EUA e na Grã-Bretanha, em que medida e extensão os respectivos serviços secretos «enganaram» os respectivos governos sobre a existência de tais armas, nos arsenais de Saddam.
Entretanto, sob tão fraudulento pretexto, invadiu-se um país, fez-se incontáveis milhares de mortos entre as populações civis, defenestrou-se toda a ordem internacional estabelecida, lançou-se em pé-de-guerra a vasta região do Golfo Pérsico, desarticulou-se completamente a sociedade iraquiana e abriu-se um conflito de resistência armada ao ocupante de contornos tão perigosos como imprevisíveis.
Em relação à substituição do regime tirânico de Saddam por uma «democracia tipo ocidental», o que se passou na cadeia de Abu Ghraib, em Bagdad, é escandalosamente muito.
Muito grave, muito chocante e, sobretudo, muito intolerável.
Não bastava a estulta presunção do actual Governo norte-americano em impor ao Iraque, pelas armas e em pouco mais de um ano, um regime e uma administração simultaneamente do agrado dos EUA e aprovados pelos iraquianos, apesar de agredidos, pilhados, destruídos e finalmente ocupados militar, política e culturalmente.
Não bastava a suprema arrogância dos actuais senhores do mundo em decidirem o que é a democracia e, ainda, onde e como ela se deve implantar para substituir regimes tirânicos.
Agora, também são as próprias forças militares dos EUA a mostrar que a sua «democracia» se constrói com tortura e sadismo a aplicar (discricionariamente, pois claro) aos prisioneiros que lhes der na veneta encarcerar.
Confirma-se o que já se sabia: a «força da democracia» da administração Bush é, cruamente, a «democracia da força».
Mas ao estilo de Saddam
(Evidencia-se, na crueza destes factos, por que se recusou a administração Bush a subscrever a criação do Tribunal Penal Internacional: quer impunidade total para os seus crimes.)
Segundo o Exército dos EUA, estas «repreensões» são o que «de mais severo» está previsto na lei administrativa militar dos EUA.
É pouco.
Tão escandalosamente pouco, como é escandalosamente muito o que se passou em Bagdad.
Rebobinemos o filme.
A administração Bush desencadeou a ofensiva militar contra o Iraque de Saddam Hussein com dois objectivos afirmados: o de encontrar e destruir «armas de destruição maciça» e o de substituir um regime tirânico e opressor por uma «democracia de tipo ocidental».
Vencida a «guerra» em poucas semanas – onde, estranhamente, o apregoado exército de Saddam quase se não viu e, como se esperava, a avassaladora avalancha bélica norte-americana tudo soterrou -, o mundo inteiro ficou suspenso do que se seguiria.
E o que se seguiu é, simplesmente, inacreditável.
Em relação às propaladas «armas de destruição maciça» - tão apregoadas, que o secretário de Estado Colin Powell as andou a descrever antecipadamente, de ponteiro em riste e filmes animados, num périplo europeu de monumental grotesco -, ninguém as viu ou encontrou, resumindo-se agora o imbróglio em determinar, nos EUA e na Grã-Bretanha, em que medida e extensão os respectivos serviços secretos «enganaram» os respectivos governos sobre a existência de tais armas, nos arsenais de Saddam.
Entretanto, sob tão fraudulento pretexto, invadiu-se um país, fez-se incontáveis milhares de mortos entre as populações civis, defenestrou-se toda a ordem internacional estabelecida, lançou-se em pé-de-guerra a vasta região do Golfo Pérsico, desarticulou-se completamente a sociedade iraquiana e abriu-se um conflito de resistência armada ao ocupante de contornos tão perigosos como imprevisíveis.
Em relação à substituição do regime tirânico de Saddam por uma «democracia tipo ocidental», o que se passou na cadeia de Abu Ghraib, em Bagdad, é escandalosamente muito.
Muito grave, muito chocante e, sobretudo, muito intolerável.
Não bastava a estulta presunção do actual Governo norte-americano em impor ao Iraque, pelas armas e em pouco mais de um ano, um regime e uma administração simultaneamente do agrado dos EUA e aprovados pelos iraquianos, apesar de agredidos, pilhados, destruídos e finalmente ocupados militar, política e culturalmente.
Não bastava a suprema arrogância dos actuais senhores do mundo em decidirem o que é a democracia e, ainda, onde e como ela se deve implantar para substituir regimes tirânicos.
Agora, também são as próprias forças militares dos EUA a mostrar que a sua «democracia» se constrói com tortura e sadismo a aplicar (discricionariamente, pois claro) aos prisioneiros que lhes der na veneta encarcerar.
Confirma-se o que já se sabia: a «força da democracia» da administração Bush é, cruamente, a «democracia da força».
Mas ao estilo de Saddam