O regresso da tortura

Rui Paz

O re­gresso ime­diato a Por­tugal do con­tin­gente da GNR es­ta­ci­o­nado no Iraque impõe-se

As recentes revelações sobre a prática sistemática da tortura e de atentados à dignidade humana perpetrados pelas tropas norte-americanas no Iraque confirmam mais uma vez que os Estados Unidos não só são um Estado desencadeador de guerras de ocupação terroristas, mas continuam a praticar os piores crimes contra a humanidade, reveladores de um profundo desprezo pelos valores humanos e civilizacionais.
A agressão e ocupação norte-americana do Iraque atraíu à Babilónia uma escória de torturadores, esquadrões da morte, agentes racistas do apartheid, bandos de mercenários e tudo o que o imperialismo até hoje produziu de mais repugnante. No passado domingo um especialista norte-americano teve o descaramento de defender no programa «Spiegel TV» (RTL) o emprego de formas de tortura «eficazes», como por exemplo «espetar agulhas nos dedos debaixo da unhas». «Não mata mas provoca dores terríveis» acrescentou aquele guardião da civilização norte-americana.

As imagens dos corpos nus desumanizados recolhidas na prisão de Abu Ghureib e que várias cadeias de TV nos Estados Unidos tentaram reter por razões de «interesse nacional» e de «patriotismo» fazem lembrar Ausschwitz. A brutalidade e o divertimento da soldadesca do Pentágono são em tudo idênticos ao comportamento dos «SS» nos campos de concentração nazis. Os métodos de tortura que a CIA e as academias militares norte-americanas durante décadas transmitiram aos generais fascistas latino-americanos invadiram o Iraque: «um prisioneiro iraquiano com um saco enfiado na cabeça, está de pé em cima de uma caixote. Nos seus braços abertos estão suspensos cabos eléctricos. Os torturadores dizem-lhe que se ele cair será fulminado pela corrente eléctrica» (Der Spiegel, 3.5.04). São fotografias que já não se viam desde os tempos de Pinochet, Costa e Silva, Strössner ou Videla.

Dinastias de militares e agentes dos serviços secretos norte-americanas têm-se destacado na imposição de sofrimentos inauditos aos povos do Médio Oriente e de todos os continentes. Basta recordar que coube ao general Schwarzkopf-pai a tarefa de organizar a máquina de tortura da terrível SAWAK - a polícia política do Xá da Pérsia, antigo cão de guarda dos interesses petrolíferos dos Estados Unidos e da Inglaterra no Irão - e que foi o general Schwarzkopf-filho que comandou em 1991, as tropas da NATO que criminosamente contaminaram o Iraque com armas de urânio.
O semanário «Der Spiegel» salienta duas firmas norte-americanas, a «Titan» e a «CACI», que se dedicam ao recrutamento de torturadores. A última com 7600 funcionários, procura abertamente com anúncios nos jornais «especialista em interrogatórios» para o Iraque, Afeganistão e Kosovo.

No início de Abril foi abatido pela resistência iraquiana o mercenário recista sul- africano Gray Branfiel. Branfiel iniciou a carreira como polícia e membro de um bando de paramilitares na antiga Rodésia. Após a independência do Zimbabwe foi para a África do Sul tendo-se integrado no «Civil Cooperation Bureau» (CCB), um esquadrão da morte secreto, especializado no assassínio de activistas do movimento anti-apartheid. No Iraque, Branfiel trabalhava para a firma inglesa de mercenários «Hart Group». Segundo o diário alemão «Junge Welt» dos 20 000 mercenários que actualmente trabalham para o Pentágono no Iraque 3 000 são antigos racistas sul-africanos.
Perante esta situação não é admissível que no Portugal de Abril forças militares portuguesas voltem a fazer parte de um exército de ocupação colonial ao lado de uma fauna de torturadores, racistas e assassinos profissionais. O regresso imediato a Portugal do contingente da GNR estacionado no Iraque impõe-se como uma medida urgente de higiene moral e de salvaguada da Dignidade Nacional.


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