Provocador nato
São cada vez mais ténues as diferenças entre a direita que Durão Barroso representa e a extrema-direita representada por Paulo Portas. Por vezes, distingue-os apenas o sorriso e o tom: no caso do primeiro, uma ironia e um humor tão primários que chegam a provocar comiseração; no caso do segundo, o habitual ricto de raiva contida, desvendando sonhadas desforras e vinganças, agora com a inovação do rilhar frenético da pastilha elástica. E momentos há em que nem com fortíssima lupa é possível assinalar qualquer vestígio de diferença entre os dois. Foi assim na Sexta feira passada, na Assembleia da República, por ocasião do denominado «debate mensal». Face a uma série de perguntas – todas de pertinência incontestável – colocadas pela deputada Isabel Castro, do PEV, Durão Barroso em vez de, como era seu dever democrático, responder, optou não apenas por fugir às respostas (o que lhe resolveu momentaneamente um problema) mas por desencadear um irado ataque à referida deputada e ao partido que ela representa (o que lhe permitiu, pensa ele, matar dois coelhos com uma só cajadada). E de tal forma o fez, a tais argumentos recorreu, tão longe foi na dimensão do despautério, da arrogância insultuosa e da boçalidade trauliteira, que a intervenção produzida se traduziu num insulto extensivo ao PCP, à CDU, à Assembleia da República, à democracia.
Substituindo-se à legislação sobre a matéria – que, aliás, ameaçou ir amoldar aos seus desígnios, leia-se: aos interesses do seu partido mesmo que esses não sejam coincidentes com os interesses da democracia – Durão Barroso decretou que o PEV, porque concorre às eleições integrando uma coligação, «não representa nada nem ninguém». Isto é: ou o PEV aceita e cumpre a lei de Barroso, ou Barroso muda a lei.
E, sempre decretando à margem da lei, sempre ostentando a arrogância e a prepotência típicas de dono da democracia – e sempre, insista-se, furtando-se a responder às pertinentes perguntas que lhe haviam sido feitas por Isabel Castro, Barroso, confirmando-se como provocador nato, lá foi conduzindo a sua diatribe pelos atalhos da praxe que viriam a desembocar, como é hábito nessas circunstâncias, no beco enlameado da acusação tradicional de o PEV ser «uma sucursal do Partido Comunista» – com o que desvia as atenções do facto, esse sim verdadeiro, de ser chefe de um governo que é uma sucursal do imperialismo norte-americano e dos grandes da Europa.
Substituindo-se à legislação sobre a matéria – que, aliás, ameaçou ir amoldar aos seus desígnios, leia-se: aos interesses do seu partido mesmo que esses não sejam coincidentes com os interesses da democracia – Durão Barroso decretou que o PEV, porque concorre às eleições integrando uma coligação, «não representa nada nem ninguém». Isto é: ou o PEV aceita e cumpre a lei de Barroso, ou Barroso muda a lei.
E, sempre decretando à margem da lei, sempre ostentando a arrogância e a prepotência típicas de dono da democracia – e sempre, insista-se, furtando-se a responder às pertinentes perguntas que lhe haviam sido feitas por Isabel Castro, Barroso, confirmando-se como provocador nato, lá foi conduzindo a sua diatribe pelos atalhos da praxe que viriam a desembocar, como é hábito nessas circunstâncias, no beco enlameado da acusação tradicional de o PEV ser «uma sucursal do Partido Comunista» – com o que desvia as atenções do facto, esse sim verdadeiro, de ser chefe de um governo que é uma sucursal do imperialismo norte-americano e dos grandes da Europa.