Presos iraquianos sujeitos a sevícias e torturas
As imagens de iraquianos torturados e humilhados por soldados dos EUA chocaram o mundo. A Casa Branca desvaloriza o caso e a imprensa opta pelo silêncio.
«Quando vieram e viram o que fazíamos felicitaram-nos»
O escândalo veio a público no programa «60 Minutes II», da cadeia de televisão CBS, na semana passada, que apresentou fotografias de militares responsáveis pela prisão, na sua maioria reservistas, submetendo os presos a sevícias e torturas.
As imagens mostram prisioneiros encapuçados e despidos na prisão de Abu Ghraib, nos arredores de Bagdad, alguns com o corpo ligado a cabos eléctricos e outros obrigados a posar como se estivessem a fazer sexo oral ou a serem sodomizados, perante o olhar divertido dos militares.
O caso levou o Pentágono a suspender 17 soldados, seis dos quais foram enviados a tribunal militar. No início da semana era conhecida a sentença: uma repreensão escrita.
Tendo em conta as declarações vindas a público de um dos implicados, o sargento Ivan «Chip» Frederick, não é de estranhar a leveza da pena.
«Os serviços de espionagem militar disseram-nos para prepararmos física e emocionalmente os presos para os interrogatórios», afirma Frederick, acrescentando que «quando vieram e viram o que fazíamos felicitaram-nos pelo nosso trabalho».
O «trabalho», refere ainda, incluía também a intimidação dos prisioneiros com cães, espancamentos e aplicação de cabos
eléctricos nos órgãos genitais para os obrigar a falar, procedimentos que o sargento não identifica como tortura física.
Frederick afirma igualmente que pelo menos um prisioneiro morreu depois de torturado durante o interrogatório, e ilustra de forma lapidar o modo como são encarados os prisioneiros: «A mentalidade era que as pessoas que tínhamos a cargo não eram humanos. Isso não é consistente com os nossos valores. As pessoas que estavam a fazer isto passaram-se».
As declarações de Frederick corroboram as conclusões de um relatório militar entretanto divulgado pela revista «New Yorker», segundo o qual os detidos em Abu Ghraib foram sujeitos a «abusos criminosos, sádicos, flagrantes e gratuitos».
O general Antonio M. Tabuga, identificado pela revista como autor do relatório, refere no documento que alguns dos detidos pareciam ter sido «espancados e sodomizados», e admite que tais abusos tenham sido ordenados pelos serviços secretos para obter informações.
Até ao momento não foi castigado nenhum dos oficiais e agentes da CIA responsáveis pelos interrogatórios.
Falta de provas
O chefe do Estado-maior Interarmas norte-americano, general Richard Myers, questionado pela ABC, recusou comentar o relatório de Tabuga, alegando desconhecimento, mas garantiu que «não há provas de abusos sistemáticos» dos presos à ordem das forças da coligação, e que «a tortura não é um dos métodos que permitimos e usamos».
Segundo o jornal «Público», Myers disse ainda que estão a ser investigadas as alegações que responsabilizam os serviços secretos por instigar às torturas, sublinhando no entanto que ficaria «muito surpreendido se houvesse alguém dos serviços secretos a dizer “faz isto”, porque toda a gente sabe que isso está errado».
Myers também não parece preocupado com a alegada implicação de pessoal das empresas privadas de segurança - a segunda maior força no Iraque a seguir aos EUA -, garantindo que esses agentes, apesar de usados como tradutores, «nunca actuam por si».
Estas declarações contrariam as da coronel Jill Morgenthaler, do Comando Central americano, que afirma, segundo a edição de sexta-feira do jornal britânico «The Guardian», que um elemento de um dessas empresas privadas chegou a ser acusado pelo exército de violar um prisioneiro. A acusação viria a ser retirada por o indivíduo não estar sob a alçada do exército.
Tortura é prática generalizada
Tanto os EUA como a Grã-Bretanha classificaram de «intoleráveis» os abusos cometidos na prisão de Abu Ghraib, mas garantiram que se trata de «uma pequena quantidade» de casos.
Diferente é a opinião da Amnistia Internacional (AI), para quem as torturas cometidas naquela prisão reflectem a «real crise de liderança» que se vive no Iraque, onde predomina «uma dupla bitola e uma dupla linguagem no que respeita aos direitos humanos».
«As nossas investigações no Iraque dão a entender que não se trata de um incidente isolado», refere um comunicado da AI, acrescentando que «não basta que os EUA reajam apenas quando há imagens divulgadas na televisão».
A AI adverte ainda que «estas últimas evidências de torturas e maus tratos procedentes da prisão de Abu Ghraib vão exacerbar uma situação já por si frágil».
No último ano a AI recebeu frequentes denúncias de torturas ou maus tratos infligidos pelas forças da coligação aos prisioneiros, segundo as quais é prática comum os presos serem sujeitos a tratamentos cruéis, desumanos ou degradantes durante o período de detenção. Segundo a organização, entre os métodos denunciados constam a tortura do sono, os espancamentos, posturas incómodas e prolongadas combinadas por vezes com música estridente, e choques eléctricos. Nenhuma destas denúncias foi investigada seriamente pelas autoridades.
Lembrando que a prisão de Abu Ghraib «foi célebre durante o regime de Saddam Hussein e que não se deve permitir que o volte a ser», a AI sublinha que o «Iraque já viveu sob a sombra da tortura durante demasiado tempo», pelo que «a coligação deve deixar claro que a tortura não será tolerada em nenhuma circunstância e que o povo iraquiano poderá viver por fim livre de práticas tão brutais e degradantes».
«Deve haver uma investigação independente, imparcial e pública sobre todas as acusações de tortura», adverte a Amnistia Internacional, que considera que «se se quer que o Iraque tenha um futuro sustentável e em paz, os direitos humanos devem ser um componente central no caminho que se percorrer».
As imagens mostram prisioneiros encapuçados e despidos na prisão de Abu Ghraib, nos arredores de Bagdad, alguns com o corpo ligado a cabos eléctricos e outros obrigados a posar como se estivessem a fazer sexo oral ou a serem sodomizados, perante o olhar divertido dos militares.
O caso levou o Pentágono a suspender 17 soldados, seis dos quais foram enviados a tribunal militar. No início da semana era conhecida a sentença: uma repreensão escrita.
Tendo em conta as declarações vindas a público de um dos implicados, o sargento Ivan «Chip» Frederick, não é de estranhar a leveza da pena.
«Os serviços de espionagem militar disseram-nos para prepararmos física e emocionalmente os presos para os interrogatórios», afirma Frederick, acrescentando que «quando vieram e viram o que fazíamos felicitaram-nos pelo nosso trabalho».
O «trabalho», refere ainda, incluía também a intimidação dos prisioneiros com cães, espancamentos e aplicação de cabos
eléctricos nos órgãos genitais para os obrigar a falar, procedimentos que o sargento não identifica como tortura física.
Frederick afirma igualmente que pelo menos um prisioneiro morreu depois de torturado durante o interrogatório, e ilustra de forma lapidar o modo como são encarados os prisioneiros: «A mentalidade era que as pessoas que tínhamos a cargo não eram humanos. Isso não é consistente com os nossos valores. As pessoas que estavam a fazer isto passaram-se».
As declarações de Frederick corroboram as conclusões de um relatório militar entretanto divulgado pela revista «New Yorker», segundo o qual os detidos em Abu Ghraib foram sujeitos a «abusos criminosos, sádicos, flagrantes e gratuitos».
O general Antonio M. Tabuga, identificado pela revista como autor do relatório, refere no documento que alguns dos detidos pareciam ter sido «espancados e sodomizados», e admite que tais abusos tenham sido ordenados pelos serviços secretos para obter informações.
Até ao momento não foi castigado nenhum dos oficiais e agentes da CIA responsáveis pelos interrogatórios.
Falta de provas
O chefe do Estado-maior Interarmas norte-americano, general Richard Myers, questionado pela ABC, recusou comentar o relatório de Tabuga, alegando desconhecimento, mas garantiu que «não há provas de abusos sistemáticos» dos presos à ordem das forças da coligação, e que «a tortura não é um dos métodos que permitimos e usamos».
Segundo o jornal «Público», Myers disse ainda que estão a ser investigadas as alegações que responsabilizam os serviços secretos por instigar às torturas, sublinhando no entanto que ficaria «muito surpreendido se houvesse alguém dos serviços secretos a dizer “faz isto”, porque toda a gente sabe que isso está errado».
Myers também não parece preocupado com a alegada implicação de pessoal das empresas privadas de segurança - a segunda maior força no Iraque a seguir aos EUA -, garantindo que esses agentes, apesar de usados como tradutores, «nunca actuam por si».
Estas declarações contrariam as da coronel Jill Morgenthaler, do Comando Central americano, que afirma, segundo a edição de sexta-feira do jornal britânico «The Guardian», que um elemento de um dessas empresas privadas chegou a ser acusado pelo exército de violar um prisioneiro. A acusação viria a ser retirada por o indivíduo não estar sob a alçada do exército.
Tortura é prática generalizada
Tanto os EUA como a Grã-Bretanha classificaram de «intoleráveis» os abusos cometidos na prisão de Abu Ghraib, mas garantiram que se trata de «uma pequena quantidade» de casos.
Diferente é a opinião da Amnistia Internacional (AI), para quem as torturas cometidas naquela prisão reflectem a «real crise de liderança» que se vive no Iraque, onde predomina «uma dupla bitola e uma dupla linguagem no que respeita aos direitos humanos».
«As nossas investigações no Iraque dão a entender que não se trata de um incidente isolado», refere um comunicado da AI, acrescentando que «não basta que os EUA reajam apenas quando há imagens divulgadas na televisão».
A AI adverte ainda que «estas últimas evidências de torturas e maus tratos procedentes da prisão de Abu Ghraib vão exacerbar uma situação já por si frágil».
No último ano a AI recebeu frequentes denúncias de torturas ou maus tratos infligidos pelas forças da coligação aos prisioneiros, segundo as quais é prática comum os presos serem sujeitos a tratamentos cruéis, desumanos ou degradantes durante o período de detenção. Segundo a organização, entre os métodos denunciados constam a tortura do sono, os espancamentos, posturas incómodas e prolongadas combinadas por vezes com música estridente, e choques eléctricos. Nenhuma destas denúncias foi investigada seriamente pelas autoridades.
Lembrando que a prisão de Abu Ghraib «foi célebre durante o regime de Saddam Hussein e que não se deve permitir que o volte a ser», a AI sublinha que o «Iraque já viveu sob a sombra da tortura durante demasiado tempo», pelo que «a coligação deve deixar claro que a tortura não será tolerada em nenhuma circunstância e que o povo iraquiano poderá viver por fim livre de práticas tão brutais e degradantes».
«Deve haver uma investigação independente, imparcial e pública sobre todas as acusações de tortura», adverte a Amnistia Internacional, que considera que «se se quer que o Iraque tenha um futuro sustentável e em paz, os direitos humanos devem ser um componente central no caminho que se percorrer».