Dúvidas e enganos

Leandro Martins
Parece não haver outro tema e, por muitas e boas razões que se tenha para eleger questões a merecer atenção, inevitavelmente se chega, nas conversas, ao que preocupa qualquer cidadão europeu - os acontecimentos em Espanha, a enormidade bárbara do atentado e as eleições, cujos resultados foram certamente influenciados pelo tratamento que o governo de Aznar deu à divulgação da sua autoria.
Do que pretendo falar, em primeiro lugar, não será da tentação de um herdeiro do fascismo em manipular a informação em proveito do seu poder. A coisa, para nós, é vista como «natural», dada a natureza do PP, do espanhol e dos outros. O mais aberrante, porém, foi ver o seguidismo de alguns media e de alguns políticos e personalidades, afirmando a pés juntos que não tinham dúvidas de que havia sido a ETA a deflagrar as bombas que assassinaram centenas e feriram mais de um milhar de pacíficos cidadãos, na sua maioria trabalhadores. Louçã, por exemplo - entre outros, entre outros... - espumava, e a sua face de seminarista arrependido mostrava um intenso ódio aos independentistas bascos que se encontram sob o fogo dos arrogantes centralistas de Madrid. Ele não tinha dúvidas, à hora em que as dúvidas já haviam chegado aos jornais e às televisões.
A indignação face à manipulação governamental deu os resultados que vimos. Aznar e o seu partido foram penalizados por, com a sua política belicista, terem atolado a Espanha numa guerra ao serviço dos interesses de Bush; e por haverem mentido, acusando a ETA. Zapatero e o PSOE ganharam... parece que a contragosto.
E logo os comentadores de direita, babando amargura ou raiva - como aquele repórter possesso, da SIC, que afirmava, em plena manifestação de vitória do «vermelho» PSOE, que ela havia sido conseguida com o vermelho do sangue dos assassinados, explicam a derrota: foi um erro. O periódico fascistóide o Diabo chega ao ponto de titular que a Al-Qaeda pôs o PSOE no poder!
É certo que os resultados em Espanha foram mais uma derrota da direita do que uma vitória da esquerda. Os empresários mostram-se «tranquilos» com Zapatero, que logo perdeu a sua verve de esquerda e já diz que as tropas espanholas voltarão do Iraque só em Junho ou... talvez depois. Os seus compromissos pós-eleitorais mostram uma fasquia muito mais baixa. Como se verá, este Zapatero não vai muito além da chinela de Aznar.


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