Os puros
No mesmo dia em que começava em Haia o julgamento simbólico, porque não vinculativo, da construção do «muro do apartheid» com que Israel está a isolar a Cisjordânia, em Portugal a comunidade judaica celebrava o que considera ser um acto de transcendente importância: a apresentação pública de um vinho «para judeus».
O acontecimento teve direito a reportagem televisiva e a declarações das entidades envolvidas no evento. Aparentemente, todos estão de parabéns. A adega cooperativa que produziu o vinho respira de satisfação por colocar no mercado um produto apetecido por uma camada importante de consumidores, dentro e fora do país; o representante diplomático de Israel regozija-se pelo que considera ser um acto de «reconciliação» com os judeus; e o dirigente religioso dá graças por o seu rebanho passar a dispor de um produto confeccionado como manda a sua religião.
Nada disto teria muita importância se não fosse um «pequeno» pormenor. O vinho agora posto à venda - e já com milhares de garrafas destinadas aos Estados Unidos - pode ser bebido por judeus porque é «puro». Não se trata, como legitimamente se poderia pensar, de nenhuma nova técnica da confecção do produto. Como o rabino fez o favor de explicar aos ignorantes telespectadores, a pureza que habilita os judeus a degustar o vinho português advém única e exclusivamente de, na sua confecção, desde o tratamento da uva até ao engarrafamento, intervirem apenas judeus.
Confesso que a perplexidade me impediu de perceber se foram judeus que cavaram a terra, cuidaram das videiras e apanharam os cachos que entraram na adega para produzir o precioso líquido, ou se a «pureza» só começou depois do trabalho sujo, quer dizer, do trabalho duro.
Por momentos, eu que nunca vindimei, fiquei a olhar para as minhas mãos perguntando-me o que tinham de impuras a ponto de impedir que outros consumissem o que porventura tivessem tocado. E senti-me ofendida, profundamente ofendida, por alguém no meu próprio país, que tem a mesma nacionalidade do que eu ou que aqui encontrou acolhimento, que beneficia dos mesmos direitos e deveres, se arrogue o direito de dizer, porque professa uma determinada religião, que só é «puro» e digno dos «eleitos» o que não for tocado pelas mãos sujas dos indígenas como eu.
Mais do que ofensivo, isto é uma manifestação de racismo, seja qual for o embrulho com que se apresente. Com um rótulo destes, qualquer vinho é um apelo à intolerância. Que desperdício!
O acontecimento teve direito a reportagem televisiva e a declarações das entidades envolvidas no evento. Aparentemente, todos estão de parabéns. A adega cooperativa que produziu o vinho respira de satisfação por colocar no mercado um produto apetecido por uma camada importante de consumidores, dentro e fora do país; o representante diplomático de Israel regozija-se pelo que considera ser um acto de «reconciliação» com os judeus; e o dirigente religioso dá graças por o seu rebanho passar a dispor de um produto confeccionado como manda a sua religião.
Nada disto teria muita importância se não fosse um «pequeno» pormenor. O vinho agora posto à venda - e já com milhares de garrafas destinadas aos Estados Unidos - pode ser bebido por judeus porque é «puro». Não se trata, como legitimamente se poderia pensar, de nenhuma nova técnica da confecção do produto. Como o rabino fez o favor de explicar aos ignorantes telespectadores, a pureza que habilita os judeus a degustar o vinho português advém única e exclusivamente de, na sua confecção, desde o tratamento da uva até ao engarrafamento, intervirem apenas judeus.
Confesso que a perplexidade me impediu de perceber se foram judeus que cavaram a terra, cuidaram das videiras e apanharam os cachos que entraram na adega para produzir o precioso líquido, ou se a «pureza» só começou depois do trabalho sujo, quer dizer, do trabalho duro.
Por momentos, eu que nunca vindimei, fiquei a olhar para as minhas mãos perguntando-me o que tinham de impuras a ponto de impedir que outros consumissem o que porventura tivessem tocado. E senti-me ofendida, profundamente ofendida, por alguém no meu próprio país, que tem a mesma nacionalidade do que eu ou que aqui encontrou acolhimento, que beneficia dos mesmos direitos e deveres, se arrogue o direito de dizer, porque professa uma determinada religião, que só é «puro» e digno dos «eleitos» o que não for tocado pelas mãos sujas dos indígenas como eu.
Mais do que ofensivo, isto é uma manifestação de racismo, seja qual for o embrulho com que se apresente. Com um rótulo destes, qualquer vinho é um apelo à intolerância. Que desperdício!