O Super-Comissário

Rui Paz

A maior parte destes Estados foram já invadidos pelo modelo neoliberal

A cimeira que na semana passada reuniu em Berlim Schröder, Chirac e Blair veio confirmar que à medida que o processo de integração europeia avança, este se revela cada vez mais como um projecto de carácter colonial, autoritário e antidemocrático
«Bruxelas vai ter um Super-Comissário», rejubilou o orgão dos banqueiros de Frankfurt «Faz» referindo-se ao encontro, enquanto o «Handelsblatt» de Düsseldorf intitulava na 1° página que «a Cimeira exige um vice-presidente forte», explicando que aqueles três estadistas «defendem uma orientação para a União Europeia mais de acordo com os interesses da indústria». E, como se a União Europeia tivesse sido até agora uma organização inimiga da oligarquia industrial e financeira, propõem a criação de um «vice-presidente da Comissão responsável pela economia com poderes de coordenação sobre os pelouros de outros comissários». O verdadeiro motivo da iniciativa, prossegue o diário de Düsseldorf, reside «no receio do Governo e da indústria de que o alargamento da comissão para 25 membros...possa constituir uma fonte de dificuldades para a economia». Depois de terem tentado pôr fim às presidências semestrais rotativas entre estados e procurado impedir que todos os países tenham direito a um comissário, o directório volta a atacar com uma proposta extremamente original: reduzir o presidente da comissão a um corta-fitas (situação que já se verifica de facto mas que ainda não está institucionalizada) e colocar o poder efectivo nas mãos de um «vice-presidente» ou «super-comissário» da confiança das grandes potências.

A Alemanha desejaria ver neste posto de «governador» das novas colónias, o actual comissário para o alargamento G. Verheugen, o homem que tem andado a convencer os Mários Soares, os Cavacos e Silvas, os Guterres e os Durões Barrosos do Leste a venderem as suas pátrias ao «Deutsche Bank». Em Maio de 2000, num discurso prenunciado na Universidade Humbolt em Berlim, o ministro dos Negócios Estrangeiros Fischer confirmou que para a Alemanha o alargamento da U.E. «corresponde aos seus superiores interesses nacionais» e que «o alargamento vai permitir à economia alemã realizar grandes lucros para os empresários». Desde 1989 sobretudo os grandes monopólios alemães desencadearam uma ofensiva de exportação para aqueles países, o que aumentou consideravelmente a sua dependência face ao mercado da União Europeia. Todos os países candidatos à UE apresentam uma balança comercial negativa, isto é, importam mais (sobretudo da Alemanha) do que exportam. A desvalorização das moedas nacionais e a liquidação das respectivas indústrias pela concorrência ocidental, enfraqueceu-as ainda mais perante a Europa do Directório.

A maior parte destes Estados foram já invadidos pelo modelo neoliberal, mas, quando, com a entrada na UE, se concretizar a liquidação total do que ainda resta da indústria e da agricultura e o número de desempregados atingir um nível insuportável, a situação social e política vai agravar-se de uma forma extrema. Por isso, os monóplios da Europa do Directório exigem que as grandes potências conservem o poder de decisão. A mensagem de Berlim aos futuros e actuais membros da U.E. é clara: Vocês façam o que quiserem, quem manda somos nós.


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