A dança dos tiranos
Porque é que a alegria esteve ausente quando chegou a notícia da captura de um tirano? Porque foi que me meteu nojo a exuberante explosão de júbilo que agitou os pseudo-jornalistas que aplaudiram, em Bagdad, o anúncio, em bom «americano», de um fulano que disse ao microfone já preparado: «Ladies and gentlemen, we got him» - Senhoras e senhores, apanhámo-lo? Porque é que me repugnou espreitar - a convite televisivo - para a boca de um ex-tirano hirsuto e amansado pelos seus captores que o teriam encontrado num covil, acompanhado de detritos e de um baú de dólares?
Revi outras imagens intensas que marcaram a última década do século que passou. Por exemplo a do assassinato de Ceausescu e da mulher, cobardemente fuzilados pelos seus captores, sem julgamento, no culminar de um processo em que os novos senhores, prontamente aliados ao Ocidente, se arvoraram em juizes, júris e executores da nova ordem que levou ao extremo da miséria um povo que já não vivia lá muito bem. De Ceausescu - com as devidas distâncias - também não guardo boas recordações, sujeito e objecto do culto da personalidade que era, e o seu jogo político aproximava-o já muito mais dos americanos que dos soviéticos, mais de Israel que dos palestinianos, mais de Mário Soares que de Álvaro Cunhal, mais do «capitalismo de Estado» que do socialismo pelo qual os comunistas lutam. Mas tratava-se ali, nessas imagens cruas, da substituição de uma tirania. Uma substituição de que o mundo se deu conta demasiado lentamente.
Hoje, no Iraque, consolida-se, nesse acto de captura de um tirano, o processo de uma nova tirania. Já não a de Saddam, que mandava assassinar não apenas os comunistas do seu país mas todos os que se lhe opunham. Mas a tirania estrangeira, imperial, dos Estados Unidos.
Na saudação à captura do ex-ditador, falaram primeiro os lacaios. Só Durão Barroso esperou que Bush dissesse o que disse. E sobre as palavras jubilosas dos lacaios nem me parece necessário que alguém se pronuncie.
O curioso, porém, é que, no chorrilho já tradicional das intervenções de Bush, estas foram as palavras mais assisadas que me foi dado ouvir-lhe. Disse ele que não é de esperar que a violência no Iraque vá acabar só porque Saddam foi apanhado.
Tem muita razão. A luta pela liberdade ainda mal começou.
Revi outras imagens intensas que marcaram a última década do século que passou. Por exemplo a do assassinato de Ceausescu e da mulher, cobardemente fuzilados pelos seus captores, sem julgamento, no culminar de um processo em que os novos senhores, prontamente aliados ao Ocidente, se arvoraram em juizes, júris e executores da nova ordem que levou ao extremo da miséria um povo que já não vivia lá muito bem. De Ceausescu - com as devidas distâncias - também não guardo boas recordações, sujeito e objecto do culto da personalidade que era, e o seu jogo político aproximava-o já muito mais dos americanos que dos soviéticos, mais de Israel que dos palestinianos, mais de Mário Soares que de Álvaro Cunhal, mais do «capitalismo de Estado» que do socialismo pelo qual os comunistas lutam. Mas tratava-se ali, nessas imagens cruas, da substituição de uma tirania. Uma substituição de que o mundo se deu conta demasiado lentamente.
Hoje, no Iraque, consolida-se, nesse acto de captura de um tirano, o processo de uma nova tirania. Já não a de Saddam, que mandava assassinar não apenas os comunistas do seu país mas todos os que se lhe opunham. Mas a tirania estrangeira, imperial, dos Estados Unidos.
Na saudação à captura do ex-ditador, falaram primeiro os lacaios. Só Durão Barroso esperou que Bush dissesse o que disse. E sobre as palavras jubilosas dos lacaios nem me parece necessário que alguém se pronuncie.
O curioso, porém, é que, no chorrilho já tradicional das intervenções de Bush, estas foram as palavras mais assisadas que me foi dado ouvir-lhe. Disse ele que não é de esperar que a violência no Iraque vá acabar só porque Saddam foi apanhado.
Tem muita razão. A luta pela liberdade ainda mal começou.