O melhor do mundo…

Hugo Janeiro
«Mas o melhor do mundo são as crianças» é uma das muitas frases que, tal como tantas outras germinadas no bojo dos poetas, foram apropriadas pelos hábitos senso-comunais de transmissão oral e perduraram no tempo, escondendo o rasto do verbo original, porque «com o tempo tudo se esquece».
Repetidas quotidianamente com nuances de ternura sincera ou com o azedume dos dias sempre iguais, também não é menos verdade que existem ideias às quais poucos seres humanos poderão dizer que ficam alheios, e as crianças serem «o melhor do mundo», como escreveu Fernando Pessoa, é uma delas.
Mas pior do que contabilizar os tais «poucos» que ficam alheios é reflectir nos muitos que cinicamente fingem partilhar a expressão, ao mesmo tempo que fazem do mundo o seu parque de diversões cruéis, espalhando a fome, a doença e os «danos colaterais» que, por muito que queiram, nem o tempo poderá fazer esquecer.
De Nagasaki e Hiroshima às florestas pantanosas do Vietname, passando pela Jugoslávia, Iraque e pelos mártires continentes africano e sul-americano, milhares de crianças ficaram marcados pela crueza do verdadeiro crivo imperial, para quem o «melhor do mundo» foi, é e será o tom verde das notas de dólar, o perfume abundante dos barris de petróleo e o brilho luxuriante do ouro e das pedras preciosas.
Os acontecimentos das últimas duas semanas no Afeganistão, donde se destaca tragicamente a morte de 15 crianças, provam o que digo.
Depois do comandante das tropas alemãs em Cabul ter admitido publicamente que entendia necessário prolongar «pelo menos por mais 14 anos» a presença militar no país, supostamente para «fazer crescer uma geração de afegãos educada em clima de paz», dois bombardeamentos aéreos clarificaram as declarações e desmistificaram o que os «aliados» entendem por «paz» e «educação».
Entendem que «paz» é fazer a guerra longe de casa e que «educação» é castigar definitivamente 15 meninos, cujo «erro» foi não terem fugido a tempo da «cirúrgicas» bombas lançadas pelos caças norte-americanos.
Estão tão convictos das suas certezas que deram nota do incidente em curtas declarações militares.
Secamente qualificaram o sucedido de «danos colaterais» e arrumaram o assunto de vez, pelo menos a julgar pelo feedback das instituições internacionais, dos «porta-vozes» dos direitos humanos, dos representantes da «democracia» e seu lacaios na comunicação social dominante.
Exagero! – dirá o leitor. Infelizmente não. Tudo isto é tão certo como o Pai Natal ser uma vantagem comercial da Coca-Cola, que à conta da exploração da cândida imagem de um velhinho com barbas brancas, vestido de vermelho, passou de reles elixir gástrico descalcificante, a imagem de marca dos mais rasgados sorrisos infantis.
Sorrisos de meninos afegãos, também, mas que nunca mais voltaremos a ver arrotar com prazer o excesso de gás do refrigerante, esgrimir argumentos de campeão da carica ou assobiar alegremente com a garrafinha ondulante.
Para os norte-americanos, as crianças que morreram não tinham qualquer significado e constarão na história oficial como mais um número a somar aos erros de percurso do imperialismo, que se diz o melhor do mundo.


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