Morte censurada

Pentágono proíbe imagens de caixões

Só na primeira semana de Novembro morreram no Iraque 35 soldados norte-americanos. A Casa Branca proibiu a captação de imagens da chegada dos caixões.

O espectro da guerra do Vietname paira sobre a Casa Branca

Na tentativa de minorar o impacto que o crescente número de baixas está a provocar na opinião pública, o Pentágono proibiu a captação de imagens do momento em que os corpos dos soldados mortos são retirados dos aviões de transporte, na chegada às bases americanas.
A medida, sem precedentes na história do país, representa uma verdadeira censura à imprensa, como de resto se tem vindo a verificar no terreno. No passado domingo, as forças militares norte-americanas tentaram apreender as máquinas fotográficas dos correspondentes que registaram imagens do helicóptero derrubado a oeste de Bagdad, num atentado que provocou 16 mortos. Também na base aérea de Ramstein (Alemanha), para onde foram transportados os corpos, a imprensa só foi autorizada a registar o desembarque dos feridos menos graves resultantes do atentado.
A um ano das eleições, e com a popularidade de Bush em acentuada queda, é por demais evidente que a Casa Branca está preocupada com o impacto que tais imagens - elucidativas do preço em vidas humanas que os EUA estão a pagar pela ocupação do Iraque - pode ter nas ambições de Bush a um segundo mandato.
É igualmente sintomático que Bush tenha deixado de fazer referências específicas aos constantes atentados que flagelam as forças de ocupação, desdobrando-se em intervenções públicas sobre outras matérias, como a situação económica ou condenação do aborto, para desviar as atenções do Iraque.

O fantasma do Vietname

Numa semana negra para os EUA, o presidente norte-americano limitou-se a dizer que «os soldados estão a morrer por uma causa mais importante do que suas próprias vidas». De forma pouco convincente, o responsável da Casa Branca para a informação, Dan Bartlett, fez saber que a parcimónia de Bush se deve ao facto de não querer «dar mais importância a um sacrifício em particular do que a outros», e lembrou que «o presidente escreve uma carta a todas as famílias de soldados mortos e reúne-se com elas em particular em bases militares».
A explicação não convence e já ninguém esconde que o espectro da guerra do Vietname paira sobre a Casa Branca. Na semana passada, o chefe da minoria democrata na Câmara de Representantes, Tom Daschle, lembrou que o governo tem a responsabilidade de fazer com que «as pessoas entendam a enormidade do problema», e acusou Washington de estar a tentar que as homenagens aos mortos se realizem quase às escondidas.
Entretanto, em entrevista publicada no fim-de-semana pelo jornal italiano La Repubblica, a senadora Hillary Clinton acusou Bush de se comportar «como se tudo estivesse bem» e de não ser capaz de «ouvir as críticas».
Apesar de considerar que Bush «se enganou» em relação ao Iraque, dado que o país «não está directamente relacionado com a guerra ao terrorismo», a senadora entende que «o erro mais grave da actual administração é o de não ter sido capaz de preparar os passos seguintes», de preparar o pós-guerra.
Na entrevista, Hillary Clinton garante não estar na corrida às eleições presidenciais de 2004.

Atentado em Riad

Pelo menos 17 pessoas morreram e 122 ficaram feridas na explosão de um carro armadilhado registada no domingo, em Riad, capital da Arábia Saudita. A lista de vítimas mortais, que segundo a Al-Jazira pode chegar a 30, inclui, entre outros, sete libaneses, quatro egípcios, um saudita e um sudanês.
No mesmo dia chegou a Riad, vindo do Iraque, o subsecretário de Estado americano, Richard Armitage, que logo apontou a Al’Qaeda como possível autor do atentado.
«O objectivo da Al Qaeda é derrubar o governo saudita, mas também espalhar o medo e expandir o terror», afirmou Armitage, que se encontrou com o príncipe herdeiro, Abdalá ben Abdel Aziz, para discutir a estratégia a seguir na luta contra o terrorismo e «outras questões de interesse para ambos os países».
O ataque terrorista registou-se poucos dias depois de Bush reafirmar, em Washington, que o mundo estava «mais seguro» desde a ocupação do Iraque.
A tese da Casa Branca não convence nem os seus próprios seguidores. No início desta semana, em entrevista ao jornal britânico The Time, o administrador civil norte-americano no Iraque, Paul Bremer, disse acreditar que os ataques terroristas no país se vão intensificar nos próximos meses, embora atribuindo o facto ao alegado sucesso da reconstrução do Iraque e à infiltração de «muitas centenas» de terroristas.
A tese do sucesso é no entanto contrariada por um artigo recentemente publicado no jornal The Washington Post, segundo o qual os EUA estão cada vez mais decepcionados com o Conselho de Governo transitório iraquiano, em funções desde Julho passado, e já pensa em «alternativas» para o substituir.


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