Libertação à bomba
Ao fim de quinze dias de intensos bombardeamentos as cidades iraquianas ainda resistem. No terreno contam-se os mortos. Nos EUA, Bush fala em «vitória».
«Nós sabemos que, por agora, somos vistos como vilões»
«Cada dia nos aproximamos mais de Bagdad e da vitória», afirmou Bush, no início da semana, durante um discurso em Filadélfia. Segundo o presidente dos EUA, as tropas britânicas e norte-americanos estão a portar-se «brilhantemente» e com «bravura» desde o início da invasão e controlam a «maior parte do sul e do ocidente do Iraque».
Falando para elementos da guarda-costeira, Bush advertiu para o perigo de «um
regime iraquiano em agonia, que podia tentar importar o terrorismo» para as costas
norte-americanas. Bush afirmou ainda que a vitória dos EUA «eliminará um apoio do terrorismo que possui armas de destruição maciça» e «responderá aos pedidos justos das Nações Unidas e do mundo civilizado». Essa vitória, garantiu, «será partilhada pelo povo iraquiano que sofre desde há muito tempo e merece a liberdade e a dignidade».
No seu discurso, Bush reafirmou que o objectivo da guerra consiste em «desarmar um regime perigoso e libertar um povo oprimido».
Pouca horas antes desta intervenção, pelo menos 10 mísseis abatiam-se sobre Bagdad, provocando mais um número indeterminado de mortos e feridos. Durante o dia, sete das 13 mulheres e crianças que se encontravam numa viatura foram mortas por soldados norte-americanos em Najaf . O carro não terá obedecido à ordem de parar. Segundo o comando central norte-americano (Centcom), instalado no Qatar, «tendo em conta os recentes ataques terroristas perpetrados pelo regime iraquiano, os soldados demonstraram uma atitude muito controlada para evitar a perda de vidas humanas».
Incompreensão
Esta forma de «libertação» está a ser mal compreendida pelos iraquianos, como reconheceu anteontem o próprio ministro do Interior britânico, David Blunkett. «Nós sabemos que, por agora, somos vistos como vilões», disse Blunkett a uma televisão britânica, citado pela Lusa, mas mostrou-se esperançado de que «uma vez terminada a guerra e exista um Iraque livre, com um Estado democrático, a totalidade da população dirá o quanto queria um país livre».
Enquanto isso, e contrariando todas as expectativas, os iraquianos não só não estão a abandonar o país - os campos de refugiados continuam vazios - como se verifica um movimento crescente de nacionais que estão a voltar para «defender a pátria». O ministro dos Negócios Estrangeiros iraquiano, Naji Sabri, anunciou por outro lado que «mais de 5000 voluntários árabes» provenientes do estrangeiro ao Iraque para combater as forças anglo-americanas, o que faz temer um incremento dos atentados suicidas.
Governo provisório... americano
Os EUA estão a preparar um governo provisório para o Iraque, de 23 ministérios dirigidos por norte-americanos que terão já chegado ao Koweit, noticiou segunda-feira o jornal britânico The Guardian.
Segundo o jornal, o executivo tomará conta do poder «cidade a cidade», devendo as zonas declaradas «libertadas» passar para o controlo desse governo, sob ficará a alçada do general Jay Gardner, nomeado também responsável pela reconstrução do país.
Os 23 norte-americanos que vão dirigir os «ministérios» terão quatro conselheiros iraquianos, avança a notícia, mas os escolhidos parecem não agradar a Jay Gardner.
De acordo com o The Guardian, a escolha dos iraquianos esteve essencialmente a cargo do secretário-adjunto da Defesa, Paul Wolfwitz, número dois do Pentágono, e inclui personalidades altamente controversas. É o caso de Ahmed Chalabi, de 57 anos, que lidera o Congresso Nacional Iraquiano (CNI), sedeado em Londres. Filho de um riquíssimo banqueiro iraquiano, Chabali foi forçado a refugiar-se em Washington após ter sido condenado por fraude na Jordânia e tornou-se numa das principais figuras da oposição iraquiana.
Entre os apoiantes de Chabali, lembra o jornal, estão o secretário da Defesa norte- americana, Donald Rumsfeld, e Richard Perle, que recentemente se demitiu do Conselho para a Política de Defesa (ver peça ao lado).
Aparentemente, a escolha do dirigente do CNI visa minorar a previsível hostilidade dos iraquianos a um governo norte-americano, mas a solução nem sequer agrada ao CNI, que em declarações ao The Guardian afirmou não estar nas suas intenções «aconselhar os ministros norte-americanos no Iraque», pois consideram que «nenhum norte-americano deve dirigir ministros iraquianos». «Nós apelámos a um governo provisório», afirmou ao jornal a fonte do CNI.
Falando para elementos da guarda-costeira, Bush advertiu para o perigo de «um
regime iraquiano em agonia, que podia tentar importar o terrorismo» para as costas
norte-americanas. Bush afirmou ainda que a vitória dos EUA «eliminará um apoio do terrorismo que possui armas de destruição maciça» e «responderá aos pedidos justos das Nações Unidas e do mundo civilizado». Essa vitória, garantiu, «será partilhada pelo povo iraquiano que sofre desde há muito tempo e merece a liberdade e a dignidade».
No seu discurso, Bush reafirmou que o objectivo da guerra consiste em «desarmar um regime perigoso e libertar um povo oprimido».
Pouca horas antes desta intervenção, pelo menos 10 mísseis abatiam-se sobre Bagdad, provocando mais um número indeterminado de mortos e feridos. Durante o dia, sete das 13 mulheres e crianças que se encontravam numa viatura foram mortas por soldados norte-americanos em Najaf . O carro não terá obedecido à ordem de parar. Segundo o comando central norte-americano (Centcom), instalado no Qatar, «tendo em conta os recentes ataques terroristas perpetrados pelo regime iraquiano, os soldados demonstraram uma atitude muito controlada para evitar a perda de vidas humanas».
Incompreensão
Esta forma de «libertação» está a ser mal compreendida pelos iraquianos, como reconheceu anteontem o próprio ministro do Interior britânico, David Blunkett. «Nós sabemos que, por agora, somos vistos como vilões», disse Blunkett a uma televisão britânica, citado pela Lusa, mas mostrou-se esperançado de que «uma vez terminada a guerra e exista um Iraque livre, com um Estado democrático, a totalidade da população dirá o quanto queria um país livre».
Enquanto isso, e contrariando todas as expectativas, os iraquianos não só não estão a abandonar o país - os campos de refugiados continuam vazios - como se verifica um movimento crescente de nacionais que estão a voltar para «defender a pátria». O ministro dos Negócios Estrangeiros iraquiano, Naji Sabri, anunciou por outro lado que «mais de 5000 voluntários árabes» provenientes do estrangeiro ao Iraque para combater as forças anglo-americanas, o que faz temer um incremento dos atentados suicidas.
Governo provisório... americano
Os EUA estão a preparar um governo provisório para o Iraque, de 23 ministérios dirigidos por norte-americanos que terão já chegado ao Koweit, noticiou segunda-feira o jornal britânico The Guardian.
Segundo o jornal, o executivo tomará conta do poder «cidade a cidade», devendo as zonas declaradas «libertadas» passar para o controlo desse governo, sob ficará a alçada do general Jay Gardner, nomeado também responsável pela reconstrução do país.
Os 23 norte-americanos que vão dirigir os «ministérios» terão quatro conselheiros iraquianos, avança a notícia, mas os escolhidos parecem não agradar a Jay Gardner.
De acordo com o The Guardian, a escolha dos iraquianos esteve essencialmente a cargo do secretário-adjunto da Defesa, Paul Wolfwitz, número dois do Pentágono, e inclui personalidades altamente controversas. É o caso de Ahmed Chalabi, de 57 anos, que lidera o Congresso Nacional Iraquiano (CNI), sedeado em Londres. Filho de um riquíssimo banqueiro iraquiano, Chabali foi forçado a refugiar-se em Washington após ter sido condenado por fraude na Jordânia e tornou-se numa das principais figuras da oposição iraquiana.
Entre os apoiantes de Chabali, lembra o jornal, estão o secretário da Defesa norte- americana, Donald Rumsfeld, e Richard Perle, que recentemente se demitiu do Conselho para a Política de Defesa (ver peça ao lado).
Aparentemente, a escolha do dirigente do CNI visa minorar a previsível hostilidade dos iraquianos a um governo norte-americano, mas a solução nem sequer agrada ao CNI, que em declarações ao The Guardian afirmou não estar nas suas intenções «aconselhar os ministros norte-americanos no Iraque», pois consideram que «nenhum norte-americano deve dirigir ministros iraquianos». «Nós apelámos a um governo provisório», afirmou ao jornal a fonte do CNI.