Vemos, ouvimos e lemos...
Posto isto, a poetiza concluía: «não podemos ignorar». O escritor moçambicano Mia Couto actualiza esta incitação: «os povos dos países pequenos, temos uma arma de construção massiva: a capacidade de pensar».
Vimos há meses, um cientista, cujo nome lamento não ter registado, declarar que «a Humanidade se encontra numa situação, de estagnação evolutiva, sem paralelo em toda a sua história». Debatia-se com a insensatez de estarmos a aguardar a exaustão de um recurso natural não renovável, detendo por várias décadas o conhecimento de tecnologias alternativas e vantajosas que, aparentemente, só terão oportunidade quando o petróleo desaparecer. O exemplo com que ilustrava a afirmação não era menos veemente: «não foi por ter acabado a pedra que se passou à Era seguinte. Pelo contrário, continuamos a recorrer à utilização da pedra, nos exactos termos e modos em que ela se manifesta vantajosa, mormente com base em processos inimagináveis na sua remota era».
Ouvimos o professor Rui Namorado Rosa, da Universidade de Évora, afirmar que «a escassez física do petróleo (que o «mercado» não alcança), a crise económica geral (também nos EUA), a debilitação do dólar (ainda o principal instrumento de transacção comercial e de reserva dos bancos centrais), a crise financeira mundial, a emergência da zona euro, a possibilidade de a OPEP vir a adoptar o euro na denominação do preço do petróleo, constituem uma combinação de factores entrelaçados e aparentemente explosiva».
Lemos, do escritor norte-americano Gore Vidal, uma reflexão denunciando que «quem se propuser a tarefa de determinar o preço de um barril de petróleo, sem considerar os custos de guerra [DoD - ministério da defesa e lobbies afins] dos EUA, não conseguirá concluir o cálculo».
Junte-se a esta lógica a interrompida folha de bons serviços de Saddam, enquanto aliado estratégico dos EUA, e compreender-se-á finalmente a «necessidade» da sua substituição... Permanecerá hipócrita a «preocupação», súbita e serôdia, com as condições de vida dos povos do Iraque.
Peço-vos que pensem, comigo por momentos, nuns quantos seres nossos iguais, frequentemente esquecidos pelo fulgor mediático: os meus amigos iraquianos.
Os meus amigos iraquianos saíram do Iraque, no dobrar dos anos 70 para os 80, quando o Iraque começava «a ser de» Saddam. Uns, porque são curdos; outros, progressistas; alguns, ambas as coisas; mas muitos, porque simplesmente se «opunham» e, se acaso se destacavam, era fugir ou morrer!
Os meus amigos iraquianos não conseguiram evitar Saddam, tal como nos demoraram Salazar e Caetano. Veio a Tempestade no Deserto e o tempo era de guerra - nunca de esperança... Sabiam que não podiam voltar ao país e assistiam à morte dos seus que lá ficaram, à miséria e ao desespero, ao boicote e ao fanatismo e ao «novo Saddam»: inimigo poupado, ameaça contida, islamita farsante, fornecedor do mundo. Para maior cúmulo, viram reforçada a posição do ditador, alcandorado ao papel de factor da coesão nacional suscitada pela intervenção estrangeira.
Que será agora dos meus amigos iraquianos? Lembremos a pergunta infantil de John Le Carré: - Vão matar muita gente, papá? - Ninguém que tu conheças, querido. Só estrangeiros.
Quando se anuncia a [longa?] ocupação militar, após a vitória, pensem como os generais «vencedores» tratarão da democracia no Iraque: os Estados Unidos da América ocuparam o Haiti, durante 19 anos, e fundaram o poder que pariu a ditadura de Françoise Duvalier; ocuparam a República Dominicana, durante 9 anos, e fundaram a ditadura de Rafael Leónidas Trujillo; ocuparam a Nicarágua, durante 21 anos, e fundaram a ditadura dos Somoza. E o Chile, e o Irão, e o Kowait, e o Afeganistão, e tantos outros? E não me venham com o Japão, onde o «processo de democratização» começou com o lançamento de duas bombas atómicas, em Hiroshima e Nagasaki. Assiste-nos o nojo que assolaria os pais da democracia mal-herdada: Thomas Jefferson, John Adams e Benjamin Franklin.
E pensem na questão levantada pelo escritor uruguaio Eduardo Galeano, referindo-se a Bush II, o mais eficaz promotor do anti-americanismo, na actualidade: «Quem o elegeu presidente do planeta? A mim, ninguém me convocou para votar nessas eleições. E a vocês?»
Somos contra a pena de morte, nós portugueses, pioneiros no mundo. Não os matem, julguem-nos e condenem-nos nominalmente: os saddams, os bushs, os blairs, os aznares e os aznarecos e os mais que urge arrolar à acusação...
Em nosso nome!
Vimos há meses, um cientista, cujo nome lamento não ter registado, declarar que «a Humanidade se encontra numa situação, de estagnação evolutiva, sem paralelo em toda a sua história». Debatia-se com a insensatez de estarmos a aguardar a exaustão de um recurso natural não renovável, detendo por várias décadas o conhecimento de tecnologias alternativas e vantajosas que, aparentemente, só terão oportunidade quando o petróleo desaparecer. O exemplo com que ilustrava a afirmação não era menos veemente: «não foi por ter acabado a pedra que se passou à Era seguinte. Pelo contrário, continuamos a recorrer à utilização da pedra, nos exactos termos e modos em que ela se manifesta vantajosa, mormente com base em processos inimagináveis na sua remota era».
Ouvimos o professor Rui Namorado Rosa, da Universidade de Évora, afirmar que «a escassez física do petróleo (que o «mercado» não alcança), a crise económica geral (também nos EUA), a debilitação do dólar (ainda o principal instrumento de transacção comercial e de reserva dos bancos centrais), a crise financeira mundial, a emergência da zona euro, a possibilidade de a OPEP vir a adoptar o euro na denominação do preço do petróleo, constituem uma combinação de factores entrelaçados e aparentemente explosiva».
Lemos, do escritor norte-americano Gore Vidal, uma reflexão denunciando que «quem se propuser a tarefa de determinar o preço de um barril de petróleo, sem considerar os custos de guerra [DoD - ministério da defesa e lobbies afins] dos EUA, não conseguirá concluir o cálculo».
Junte-se a esta lógica a interrompida folha de bons serviços de Saddam, enquanto aliado estratégico dos EUA, e compreender-se-á finalmente a «necessidade» da sua substituição... Permanecerá hipócrita a «preocupação», súbita e serôdia, com as condições de vida dos povos do Iraque.
Peço-vos que pensem, comigo por momentos, nuns quantos seres nossos iguais, frequentemente esquecidos pelo fulgor mediático: os meus amigos iraquianos.
Os meus amigos iraquianos saíram do Iraque, no dobrar dos anos 70 para os 80, quando o Iraque começava «a ser de» Saddam. Uns, porque são curdos; outros, progressistas; alguns, ambas as coisas; mas muitos, porque simplesmente se «opunham» e, se acaso se destacavam, era fugir ou morrer!
Os meus amigos iraquianos não conseguiram evitar Saddam, tal como nos demoraram Salazar e Caetano. Veio a Tempestade no Deserto e o tempo era de guerra - nunca de esperança... Sabiam que não podiam voltar ao país e assistiam à morte dos seus que lá ficaram, à miséria e ao desespero, ao boicote e ao fanatismo e ao «novo Saddam»: inimigo poupado, ameaça contida, islamita farsante, fornecedor do mundo. Para maior cúmulo, viram reforçada a posição do ditador, alcandorado ao papel de factor da coesão nacional suscitada pela intervenção estrangeira.
Que será agora dos meus amigos iraquianos? Lembremos a pergunta infantil de John Le Carré: - Vão matar muita gente, papá? - Ninguém que tu conheças, querido. Só estrangeiros.
Quando se anuncia a [longa?] ocupação militar, após a vitória, pensem como os generais «vencedores» tratarão da democracia no Iraque: os Estados Unidos da América ocuparam o Haiti, durante 19 anos, e fundaram o poder que pariu a ditadura de Françoise Duvalier; ocuparam a República Dominicana, durante 9 anos, e fundaram a ditadura de Rafael Leónidas Trujillo; ocuparam a Nicarágua, durante 21 anos, e fundaram a ditadura dos Somoza. E o Chile, e o Irão, e o Kowait, e o Afeganistão, e tantos outros? E não me venham com o Japão, onde o «processo de democratização» começou com o lançamento de duas bombas atómicas, em Hiroshima e Nagasaki. Assiste-nos o nojo que assolaria os pais da democracia mal-herdada: Thomas Jefferson, John Adams e Benjamin Franklin.
E pensem na questão levantada pelo escritor uruguaio Eduardo Galeano, referindo-se a Bush II, o mais eficaz promotor do anti-americanismo, na actualidade: «Quem o elegeu presidente do planeta? A mim, ninguém me convocou para votar nessas eleições. E a vocês?»
Somos contra a pena de morte, nós portugueses, pioneiros no mundo. Não os matem, julguem-nos e condenem-nos nominalmente: os saddams, os bushs, os blairs, os aznares e os aznarecos e os mais que urge arrolar à acusação...
Em nosso nome!