Petróleo & dólares

André Levy
Termina a segunda semana de invasão do Iraque, levada a cabo por uma coligação de países coagidos ou simplesmente interesseiros querendo aproveitar a onda presumivelmente vencedora do seu líder, o imperial EUA.

O início da guerra aumentou a expressão de patriotismo, encorajado pelo sector político e meios de comunicação social. Mas embora a opinião pública norte-americana continue maioritariamente a favor da guerra, o movimento anti-guerra está a ganhar cada vez mais força e visibilidade. Por todo o país decorrem vigílias, comícios, greves, piquetes, e acções de desobediência civil. Em resposta, manifestações patrióticas demonstram apoio às forças militares. Mas o movimento pela paz também apoia os tropas, desejando o fim da sua participação numa guerra ilegal. E questiona os motivos da p
resente guerra, o mais óbvio sendo o petróleo iraquiano1.

A administração Bush está recheada de membros com ligações a empresas petrolíferas. O vice-presidente Dick Cheney foi director da firma Halliburton cuja subsidiária - a Kellog, Brown & Root - recebeu 33 milhões dólares para construir os campos de detenção em Guantanamo e recebeu um contrato federal para controlar possíveis fogos petrolíferos no Iraque.

Halliburton é uma das cinco corporações dos EUA2 que licitam o contrato para reconstruir hospitais, portos, aeroportos e escolas após a guerra, estimado em cerca de 900 milhões dólares – o maior projecto de reconstrução desde a segunda guerra mundial3. Cheney vendeu a maioria das suas acções da Halliburton quando deixou a companhia, mas retém opções (stock options) no valor de 8 milhões de dólares e recebe uma compensação deferida cujo valor exacto é desconhecido, mas que poderá ser tão alto como um milhão de dólares por ano. E a Halliburton precisa do contrato pois o seu futuro está a ser investigada por contabilidade agressiva, estilo Enron, efectuada quando Cheney era director4.

Na semana passada, Richard Perle pediu a demissão do cargo de presidente do obscuro Conselho de Política de Defesa5. Criado em 1985, este grupo de 30 pessoas tem um papel meramente consultivo mas crescentemente influente. Nenhum dos seus membros são funcionários do governo, mas têm acesso a documentos classificados. Perle foi acusado de transgressão ética ao assinar um contrato com a firma de telecomunicações Global Crossing. Esta empresa, recentemente falida, estava em processo de ser comprada pela companhia chinesa Hutchison Whampoa, quando o Departamento de Defesa dos EUA congelou a transação alegando motivos de segurança nacional. O papel de Perle seria, segundo críticos, fazer uso da sua influência no governo dos EUA para facilitar a venda. Apesar desta jogada pública, Perle continua como membro do Conselho e como conselheiro da Global Crossing.

A ponta do iceberg

Os casos Perle e Cheney reflectem apenas uma amostra dos interesses financeiros na guerra no processo de reconstrução e nos recursos a serem conquistados. Mas o petróleo assume uma importância para além dos lucros individuais ou de empresas. Os EUA consomem um quarto do petróleo mundial e possuem apenas um terço das reservas mundiais. Garantir uma fonte estável e fiável de petróleo é considerado uma prioridade nacional há várias gerações. Assegurar o petróleo iraquiano – que possui um terço das reservas de petróleo mundial – permitiria também aos EUA controlar a fonte de combustível dos seus principais competidores económicos e quebrar o poder da OPEC em controlar o preço de petróleo, um dos poucos recursos económicos centrais ainda não submetido ao processo de neo-liberalização.

Além disso, o petróleo iraquiano joga um papel central no futuro do mercado monetário mundial. Em 1999, o Iraque decidiu vender o seu petróleo em euros em vez de dólares, como o resto do mundo. Na altura, tal foi visto como uma manobra política com custos financeiros associados. Mas desde então o euro estabilizou e está cotado acima do dólar. O sucesso da jogada iraquiana poderá incentivar outros países produtores de petróleo, incluindo a Venezuela de Hugo Chávez, o quarto maior produtor mundial, ou a Rússia e o Irão, a mudarem também. Tal seria uma catástrofe para os EUA, que possuem a maior dívida do mundo. O seu crescimento económico dos últimos 30 anos tem sido em parte sustentado pela sua capacidade de imprimir dólares sem valor, possível apenas pelo papel central que esta moeda joga no comércio do mais central dos recursos económicos6.

Os ideólogos desta guerra, longe de estarem preocupados com a liberdade do povo iraquiano ou com a segurança do povo dos EUA, e mais do que buscando expandir o império, procuram preservar o sistema monetário e financeiro mundial que tem trazido enormes lucros a uma mão cheia e miséria e exploração à maioria do mundo.


NOTAS:

(1) É curioso que dois dos postos avançados da 101 Divisão Aerotransportada tenham sido baptizados Exxon e Shell.
(2) As outras quatro firmas são a Bechtel Group, Fluor Corp, Parsons Corp, e o Louis Berger Group.
(3) A Halliburton durante a liderança de Cheney aumentou substancialmente o valor de contratos federais e contribuiu generosamente para o Partido Republicano.
(4) Além do mais, a resolução de um processo judicial exigindo compensações por danos pessoais poderá custar-lhe até 4 mil milhões de dólares.
(5) Defense Policy Board.
(6) Not Oil, But Dollares vs Euros, por Geoggrey Heard, Março 2003. In http://www.globalpolicy.org-nations-sovereign-dollar-2003-03oil.htm



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