Demissões
O escândalo da tentativa de benefício ilegal da filha do ministro Martins da Cruz, no acesso à Faculdade de Medicina, teve o epílogo lógico e inevitável: sucessivamente, os ministros envolvidos na tranquibérnia apresentaram a demissão.
Todavia, não deixemos que o «manto diáfano da fantasia» desvaneça tão rapidamente a nudez crua desta realidade e detenhamo-nos, um pouco, na apreciação dos acontecimentos.
Mal o escândalo rebentou na praça pública, o ministro Pedro Lynce apresentou a sua demissão do cargo, em plena Assembleia da República, e garantiu que tinha a consciência tranquila.
Que tenha. Mas se assim era, não se percebe a pressa em apresentar a demissão.
Simultaneamente, o ministro Martins da Cruz deu a sua palavra de honra em como não tinha metido «pessoalmente» qualquer cunha a favor da colocação da filha e silenciou prudentemente qualquer outra palavra, tanto sobre a demissão do seu colega Pedro Lynce, como sobre a sua própria demissão.
A palavra de honra vale, sobretudo, se a honra não se exprime por palavras mas por actos. Veja-se o célebre caso de Egas Moniz. Para lavar a honra, comprometida pela palavra dada por ele próprio e desmentida pelos actos do seu pupilo, deslocou-se ao reino de Leão sem mais palavras e com uma corda ao pescoço.
Valham os factos: neste caso, quem de imediato pôs a corda ao pescoço foi Pedro Lynce, enquanto o pai da jovem que originou o imbróglio se entretinha a dar a palavra de honra…
Fantasticamente, o Primeiro-Ministro Durão Barroso subscreveu este desenvolvimento, aceitando sem comentários ou hesitações quer a demissão de Lynce, quer a «palavra de honra» de Cruz, afirmando três enormidades de uma assentada.
A de que nada tinha a ver com o escândalo (apesar de ser Primeiro-Ministro), a de que não havia qualquer escândalo (pois aceitou a continuação no cargo de Martins da Cruz a troco da sua palavra de honra) e a de que havia escândalo mas confiava na palavra dos seus ministros (porque aceitou sem hesitações ou comentários a demissão de Pedro Lynce, enquanto lhe louvava os méritos… sabe-se lá de quê!).
O escândalo continuou a rolar e Martins da Cruz manteve-se, mudo como um peixe, em exercício de funções até à posse da substituta de Pedro Lynce, agarrando-se com tal obsessão ao cargo que, mesmo no dia onde apresentou formalmente a sua demissão, ainda fez sair um comunicado onde garantia não o fazer.
Deste lamentável episódio, duas coisas emergiram e ficaram a boiar à luz do dia.
Uma, que neste Governo se olha para o exercício do poder como fruição de um direito privado e discricionário.
Outra, que as demissões impostas pela descoberta dos escândalos não constituem pedidos de desculpa à República, mas confissões de um ideário interiorizado, como se conclui das enxurradas de elogio mútuo que as acompanharam, glorificando os demissionários.
Todavia, não deixemos que o «manto diáfano da fantasia» desvaneça tão rapidamente a nudez crua desta realidade e detenhamo-nos, um pouco, na apreciação dos acontecimentos.
Mal o escândalo rebentou na praça pública, o ministro Pedro Lynce apresentou a sua demissão do cargo, em plena Assembleia da República, e garantiu que tinha a consciência tranquila.
Que tenha. Mas se assim era, não se percebe a pressa em apresentar a demissão.
Simultaneamente, o ministro Martins da Cruz deu a sua palavra de honra em como não tinha metido «pessoalmente» qualquer cunha a favor da colocação da filha e silenciou prudentemente qualquer outra palavra, tanto sobre a demissão do seu colega Pedro Lynce, como sobre a sua própria demissão.
A palavra de honra vale, sobretudo, se a honra não se exprime por palavras mas por actos. Veja-se o célebre caso de Egas Moniz. Para lavar a honra, comprometida pela palavra dada por ele próprio e desmentida pelos actos do seu pupilo, deslocou-se ao reino de Leão sem mais palavras e com uma corda ao pescoço.
Valham os factos: neste caso, quem de imediato pôs a corda ao pescoço foi Pedro Lynce, enquanto o pai da jovem que originou o imbróglio se entretinha a dar a palavra de honra…
Fantasticamente, o Primeiro-Ministro Durão Barroso subscreveu este desenvolvimento, aceitando sem comentários ou hesitações quer a demissão de Lynce, quer a «palavra de honra» de Cruz, afirmando três enormidades de uma assentada.
A de que nada tinha a ver com o escândalo (apesar de ser Primeiro-Ministro), a de que não havia qualquer escândalo (pois aceitou a continuação no cargo de Martins da Cruz a troco da sua palavra de honra) e a de que havia escândalo mas confiava na palavra dos seus ministros (porque aceitou sem hesitações ou comentários a demissão de Pedro Lynce, enquanto lhe louvava os méritos… sabe-se lá de quê!).
O escândalo continuou a rolar e Martins da Cruz manteve-se, mudo como um peixe, em exercício de funções até à posse da substituta de Pedro Lynce, agarrando-se com tal obsessão ao cargo que, mesmo no dia onde apresentou formalmente a sua demissão, ainda fez sair um comunicado onde garantia não o fazer.
Deste lamentável episódio, duas coisas emergiram e ficaram a boiar à luz do dia.
Uma, que neste Governo se olha para o exercício do poder como fruição de um direito privado e discricionário.
Outra, que as demissões impostas pela descoberta dos escândalos não constituem pedidos de desculpa à República, mas confissões de um ideário interiorizado, como se conclui das enxurradas de elogio mútuo que as acompanharam, glorificando os demissionários.