Uma «incrível história» anti-bolivariana
Num momento em que as relações entre a Venezuela e a Colômbia passam por alguns momentos menos bons e justamente pouco depois de uma série de reuniões positivas de alto nível entre autoridades de ambos os países, o semanário bogotense El Espectador publicou (10 de Agosto) um conjunto de afirmações sobre o presidente do país vizinho, depois de avisar que ia publicar a «incrível história» do oficial venezuelano que, no passado, foi um aliado incondicional de Chávez e que, no presente, joga o tudo por tudo para conseguir um asilo político, que inclua a sua família.
Segundo o semanário, Moisés Roberto Boyer, ex-piloto militar venezuelano ao serviço de Hugo Chávez, denunciava as relações do governo bolivariano com a guerrilha neogranadina, afirmando que tinha transportado para Caracas, por ordem de José Vicente Rangel, vice-presidente da Venezuela, o guerrilheiro Raúl Reyes, um dos chefes das FARC. A notícia teve imediata repercussão internacional e o general Richard Myers, chefe do Estado Maior Conjunto do Exército dos Estados Unidos, não perdeu a oportunidade para, uma vez mais, fazer declarações provocadoras, melhor, ameaçadoras contra o processo político venezuelano.
A 11 de Agosto, os meios de comunicação social da Venezuela agarram-se ao assunto com unhas e dentes e a imprensa reproduz, em primeira página, o mais sumarento das declarações de Boyer, e dedica páginas internas às mesmas. Ali ficamos a saber todos os detalhes das fabulosas declarações de Boyer. Ele é tenente do exército. A deslocação do chefe guerrilheiro foi a 18 de Abril do ano passado e da mesma foi encomendado por Rangel, durante uma reunião no palácio presidencial, no gabinete dos nunca suficientemente satanizados Círculos Bolivarianos, que além de outros pecados, seriam «forças de choques» e «fachada dos grupos subversivos».
Para maior credibilidade, abundam os pormenores. Saiu do aeroporto militar La Carlota às 19 horas (o aeroporto fecha às 18), numa avioneta Cessna, branca, com o registo YV 226 P, com capacidade para 40 passageiros (não existe este tipo de Cessna). Aterrou do lado colombiano – numa pista clandestina das FARC, entende-se – e voltou de seguida à Venezuela, para San António del Táchira, uma cidade que faz fronteira. Seriam aproximadamente as duas da madrugada (a essa hora está encerrado) e foi recebido por oficiais venezuelanos. Já foi contactado pela CIA e trabalhou durante dois anos como piloto de Hugo Chávez.
As declarações não são só contra o processo bolivariano e as FARC, que «treinam os círculos bolivarianos», mas também contra o ELN, que opera na Venezuela e «tem o apoio do governador tachirense». Adicionalmente, ficou-se a saber – se é que já não se sabia – que Rangel é «outra peça fundamental na incursão de grupos subversivos colombianos no país».
Neste mesmo dia, o desmancha-prazeres do governo bolivariano, a través de altos funcionários, desmentiu toda e cada uma das declarações de Boyer. Fantochadas, invencionices, pamplinas, provocações, argumentam as autoridades bolivarianas…
A 12 e 13 de Agosto as notícias continuam a ocupar os espaços informativos mais nobres dos meios venezuelanos. O governo bolivariano faz o que lhe corresponde e nega tudo, ao mesmo tempo que afirma que o que se pretende é envenenar as relações entre os dois países. «É um ajiaco podre», afirma Rangel. E vai mais longe. Esclarece um pouco quem é Dom Mário Júlio Santo Domingo, actual proprietário de El Espectador. Apoiando-se no livro Don Mário Júlio, citou: «diariamente, quando um colombiano toma um refrigerante, uma cerveja, fala por telefone ou lê um meio de comunicação, está em contacto com Dom Mário Júlio». Denunciou igualmente que este magnata esteve entre os que bailaram cúmbia quando se deu o golpe militar contra Chávez.
Aproveitando a notícia, mas sem acreditar realmente na mesma, a oposição anti-bolivariana fez soar os clarins de guerra. Pérez Vivas, do partido democrata-cristão, e Afonso Marquina, social-democrata, sintetizam a convergência na provocação. O primeiro vai «estudar as declarações do ex-piloto (…), mas não parece estranho que o governo esteja a colaborar com as FARC». O segundo afirma: «não nos estranha. É preciso lembrar que são muitas as denúncias que criam essa vinculação permanente do governo com os grupos subversivos de Colômbia». Entenda-se bem, são as «denúncias» – não os «factos» – que criam a tal «vinculação permanente»…
O escrito por não escrito
Entretanto, na Colômbia estala uma bomba. O DAS – polícia política – desmente as declarações de Boyer. Não é militar e muito menos tenente. Foi recruta em 1992. Não é piloto. Gosta muito de falar com os jornais. Não há lugar a asilo para ele, sim para a mulher e a filha, que são colombianas. Deve abandonar o país em 15 dias.
14 de Agosto. A El Espectador não fica outra saída, e dá o escrito por não escrito. «Fomos enganados por Boyer», choramingou o semanário. Carlos Selgar, chefe da secção internacional, viaja a Caracas, encontra-se com Rangel e apresenta desculpas formais no palácio de governo. É o minimamente correcto. Deixa, entretanto, escorregar uma pérola: antes de publicar a entrevista a Boyer, «consultou previamente o assunto com algumas autoridades colombianas». Quais? Quem autorizou e porquê publicar umas declarações que, desde o início, tinham todo o aspecto de intrujice, de provocação (aparentemente, quem aprovou foi o chefe do exército colombiano)? A quem interessa envenenar as relações entre os dois países? Será El Espectador capaz de dar as respostas? Quererá? Poderá?
Agora a notícia praticamente já não o é. Entretanto, não há registo de que os meios venezuelanos se tenham penitenciado por esta nova nódoa no pano (de facto, criticaram acidamente outro jornal porque não deu o devido relevo às declarações de Boyer). Agora a queixa é que tudo foi uma «montagem», uma «casca de banana», um trabalho de contra-inteligência do governo bolivariano. Há um certo progresso. Ainda não admitem publicamente que são falazes, provocadores e conspiradores, mas já aceitam que não primam pela inteligência.
Segundo o semanário, Moisés Roberto Boyer, ex-piloto militar venezuelano ao serviço de Hugo Chávez, denunciava as relações do governo bolivariano com a guerrilha neogranadina, afirmando que tinha transportado para Caracas, por ordem de José Vicente Rangel, vice-presidente da Venezuela, o guerrilheiro Raúl Reyes, um dos chefes das FARC. A notícia teve imediata repercussão internacional e o general Richard Myers, chefe do Estado Maior Conjunto do Exército dos Estados Unidos, não perdeu a oportunidade para, uma vez mais, fazer declarações provocadoras, melhor, ameaçadoras contra o processo político venezuelano.
A 11 de Agosto, os meios de comunicação social da Venezuela agarram-se ao assunto com unhas e dentes e a imprensa reproduz, em primeira página, o mais sumarento das declarações de Boyer, e dedica páginas internas às mesmas. Ali ficamos a saber todos os detalhes das fabulosas declarações de Boyer. Ele é tenente do exército. A deslocação do chefe guerrilheiro foi a 18 de Abril do ano passado e da mesma foi encomendado por Rangel, durante uma reunião no palácio presidencial, no gabinete dos nunca suficientemente satanizados Círculos Bolivarianos, que além de outros pecados, seriam «forças de choques» e «fachada dos grupos subversivos».
Para maior credibilidade, abundam os pormenores. Saiu do aeroporto militar La Carlota às 19 horas (o aeroporto fecha às 18), numa avioneta Cessna, branca, com o registo YV 226 P, com capacidade para 40 passageiros (não existe este tipo de Cessna). Aterrou do lado colombiano – numa pista clandestina das FARC, entende-se – e voltou de seguida à Venezuela, para San António del Táchira, uma cidade que faz fronteira. Seriam aproximadamente as duas da madrugada (a essa hora está encerrado) e foi recebido por oficiais venezuelanos. Já foi contactado pela CIA e trabalhou durante dois anos como piloto de Hugo Chávez.
As declarações não são só contra o processo bolivariano e as FARC, que «treinam os círculos bolivarianos», mas também contra o ELN, que opera na Venezuela e «tem o apoio do governador tachirense». Adicionalmente, ficou-se a saber – se é que já não se sabia – que Rangel é «outra peça fundamental na incursão de grupos subversivos colombianos no país».
Neste mesmo dia, o desmancha-prazeres do governo bolivariano, a través de altos funcionários, desmentiu toda e cada uma das declarações de Boyer. Fantochadas, invencionices, pamplinas, provocações, argumentam as autoridades bolivarianas…
A 12 e 13 de Agosto as notícias continuam a ocupar os espaços informativos mais nobres dos meios venezuelanos. O governo bolivariano faz o que lhe corresponde e nega tudo, ao mesmo tempo que afirma que o que se pretende é envenenar as relações entre os dois países. «É um ajiaco podre», afirma Rangel. E vai mais longe. Esclarece um pouco quem é Dom Mário Júlio Santo Domingo, actual proprietário de El Espectador. Apoiando-se no livro Don Mário Júlio, citou: «diariamente, quando um colombiano toma um refrigerante, uma cerveja, fala por telefone ou lê um meio de comunicação, está em contacto com Dom Mário Júlio». Denunciou igualmente que este magnata esteve entre os que bailaram cúmbia quando se deu o golpe militar contra Chávez.
Aproveitando a notícia, mas sem acreditar realmente na mesma, a oposição anti-bolivariana fez soar os clarins de guerra. Pérez Vivas, do partido democrata-cristão, e Afonso Marquina, social-democrata, sintetizam a convergência na provocação. O primeiro vai «estudar as declarações do ex-piloto (…), mas não parece estranho que o governo esteja a colaborar com as FARC». O segundo afirma: «não nos estranha. É preciso lembrar que são muitas as denúncias que criam essa vinculação permanente do governo com os grupos subversivos de Colômbia». Entenda-se bem, são as «denúncias» – não os «factos» – que criam a tal «vinculação permanente»…
O escrito por não escrito
Entretanto, na Colômbia estala uma bomba. O DAS – polícia política – desmente as declarações de Boyer. Não é militar e muito menos tenente. Foi recruta em 1992. Não é piloto. Gosta muito de falar com os jornais. Não há lugar a asilo para ele, sim para a mulher e a filha, que são colombianas. Deve abandonar o país em 15 dias.
14 de Agosto. A El Espectador não fica outra saída, e dá o escrito por não escrito. «Fomos enganados por Boyer», choramingou o semanário. Carlos Selgar, chefe da secção internacional, viaja a Caracas, encontra-se com Rangel e apresenta desculpas formais no palácio de governo. É o minimamente correcto. Deixa, entretanto, escorregar uma pérola: antes de publicar a entrevista a Boyer, «consultou previamente o assunto com algumas autoridades colombianas». Quais? Quem autorizou e porquê publicar umas declarações que, desde o início, tinham todo o aspecto de intrujice, de provocação (aparentemente, quem aprovou foi o chefe do exército colombiano)? A quem interessa envenenar as relações entre os dois países? Será El Espectador capaz de dar as respostas? Quererá? Poderá?
Agora a notícia praticamente já não o é. Entretanto, não há registo de que os meios venezuelanos se tenham penitenciado por esta nova nódoa no pano (de facto, criticaram acidamente outro jornal porque não deu o devido relevo às declarações de Boyer). Agora a queixa é que tudo foi uma «montagem», uma «casca de banana», um trabalho de contra-inteligência do governo bolivariano. Há um certo progresso. Ainda não admitem publicamente que são falazes, provocadores e conspiradores, mas já aceitam que não primam pela inteligência.